Publicidade
Economia

Itaú leva ex-diretor da Globo para atuar nas relações com o governo

Ex-conselheiro da Anatel deixa o grupo de comunicação após dez anos para atuar nas relações governamentais do banco

Marcelo Bechara
Mudança ocorre enquanto o Itaú amplia investimentos em inteligência artificial e enfrenta debates sobre dados, concorrência e regulação (Foto: reprodução)

O advogado Marcelo Bechara, que comandava a área de Relações Institucionais e Assuntos Regulatórios da Globo, deixou a empresa após dez anos para assumir uma função na área de relações governamentais do Itaú Unibanco.

A mudança foi divulgada pelo Meio e Mensagem. Antes de ingressar na Globo, Bechara foi conselheiro e vice-presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), além de atuar no Ministério das Comunicações e participar das discussões que resultaram no Marco Civil da Internet.

Publicidade

No banco, deverá acompanhar questões institucionais e regulatórias que envolvem o setor financeiro.

A contratação ocorre enquanto o Itaú amplia seus investimentos em tecnologia e enfrenta discussões regulatórias relacionadas à inteligência artificial, à proteção de dados e à concorrência bancária.

Em outubro, a instituição anunciou um acordo de aproximadamente R$ 2,92 bilhões para adquirir a empresa de inteligência artificial NeoSpace, operação que depende de aprovação regulatória. 

Saída da Globo

Marcelo Bechara ingressou na Globo em 2016, depois de uma trajetória no setor público.

Na emissora, passou a atuar na interlocução com autoridades e instituições responsáveis pela regulamentação da comunicação, da internet e do audiovisual.

Entre os assuntos acompanhados pela área estavam as regras para plataformas digitais, a distribuição de conteúdo pela internet, a televisão por assinatura, os direitos autorais e as mudanças nas relações entre empresas de mídia e plataformas tecnológicas.

A Globo comunicou internamente a saída do executivo e agradeceu sua participação em iniciativas relacionadas à evolução dos negócios e às estratégias do grupo.

O comunicado informou que as responsabilidades da diretoria seriam administradas pela própria companhia durante o período de transição.

A comunicação foi assinada por Paulo Tonet Camargo, vice-presidente de Relações Institucionais da Globo.

Havia uma expectativa de que Bechara pudesse suceder Tonet na vice-presidência de Relações Institucionais.

A eventual sucessão, entretanto, não se concretizou. Nesse intervalo, o executivo recebeu uma proposta do Itaú e decidiu aceitar o novo cargo.

Histórico regulatório

Antes de ingressar na Globo, Bechara construiu sua carreira em instituições responsáveis por decisões sobre telecomunicações e internet.

Entre 2005 e 2010, atuou como consultor jurídico do Ministério das Comunicações. Posteriormente, foi procurador-geral da Anatel, função exercida entre 2010 e 2011.

Em novembro de 2011, assumiu uma cadeira no Conselho Diretor da agência, onde permaneceu até agosto de 2015. Durante parte desse período, também exerceu a vice-presidência do órgão regulador.

Os registros oficiais da Anatel mostram que Bechara iniciou o mandato de conselheiro em 17 de novembro de 2011 e deixou o posto em 13 de agosto de 2015, antes do encerramento previsto.

A agência desempenha funções relacionadas à regulamentação e fiscalização dos serviços de telecomunicações, à administração do espectro de radiofrequências e às condições de funcionamento das empresas do setor.

A passagem pelo órgão colocou Bechara em contato com decisões que envolviam operadoras de telefonia, emissoras, provedores de internet, empresas de tecnologia e representantes do governo federal.

O advogado também integrou o Comitê Gestor da Internet no Brasil, conhecido como CGI.br, responsável por estabelecer diretrizes relacionadas ao funcionamento e ao desenvolvimento da internet brasileira.

Segundo os registros do comitê, Bechara representou o Ministério das Comunicações entre 2005 e 2011 e a Anatel entre 2012 e 2015.

Durante esse período, participou das discussões que resultaram na formulação do Marco Civil da Internet, sancionado em 2014.

A legislação estabeleceu princípios e garantias relacionados à liberdade de expressão, à privacidade e ao tratamento de dados no ambiente digital.

Interesses empresariais

A atuação em relações governamentais envolve acompanhar projetos de lei, decisões regulatórias e políticas públicas que podem afetar as operações de uma empresa.

No caso de uma instituição financeira, essa atividade pode incluir interlocução com o Executivo, o Congresso Nacional e órgãos responsáveis pela regulamentação econômica.

O Banco Central estabelece regras para o funcionamento das instituições financeiras, enquanto o Conselho Monetário Nacional participa da definição das normas do sistema.

Já o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) analisa operações de concentração empresarial sob a perspectiva concorrencial.

A Lei nº 12.813, de 2013, estabelece regras para prevenir conflitos de interesses no Poder Executivo federal, incluindo restrições temporárias a determinadas atividades privadas após a saída de cargos públicos.

A quarentena prevista nessa legislação pode chegar a seis meses, conforme a função e as condições aplicáveis.

Por isso, o intervalo entre a saída de Bechara da agência e sua chegada ao banco não caracteriza, por si só, descumprimento dessas restrições.

Banco em expansão

A chegada de Bechara coincide com uma fase de investimentos tecnológicos do Itaú.

No segundo trimestre de 2026, o banco registrou resultado recorrente gerencial de R$ 12,4 bilhões, segundo informações divulgadas aos investidores em agosto. O retorno recorrente sobre o patrimônio líquido alcançou 24,3%.

Ao final de junho, sua carteira de crédito consolidada somava aproximadamente R$ 1,52 trilhão, considerando também operações em outros países da América Latina.

Em 26 de outubro, o Itaú anunciou um acordo para adquirir a NeoSpace, startup especializada no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial.

A operação foi avaliada em aproximadamente R$ 2,92 bilhões e depende da aprovação dos órgãos reguladores competentes, incluindo Banco Central e Cade.

Segundo o comunicado da instituição, o banco e a empresa já desenvolviam soluções em conjunto havia dois anos.

As tecnologias são utilizadas em aplicações relacionadas à análise de crédito, gestão financeira, atendimento, relacionamento com clientes e prevenção de fraudes.

A aquisição também está relacionada à plataforma de inteligência artificial apresentada pelo Itaú em julho de 2026, voltada à ampliação do uso de modelos tecnológicos próprios.

Conflitos anteriores

A trajetória de Marcelo Bechara entre órgãos públicos e empresas privadas já havia provocado questionamentos sobre conflitos de interesses.

Em março de 2007, quando ocupava o cargo de consultor jurídico do Ministério das Comunicações, a TELETIME noticiou que seu antigo escritório de advocacia, Capucio e Bechara, atuava em uma ação judicial contra concessionárias de telefonia.

A demanda foi apresentada em nome de uma associação de provedores de internet e questionava a oferta de serviços de acesso à rede pelas empresas de telecomunicações.

Na ocasião, Bechara afirmou que estava licenciado do escritório desde sua indicação ao ministério e que havia solicitado a suspensão de sua inscrição profissional e a retirada de seu nome dos processos em que atuava.

Segundo o advogado, a decisão tinha o objetivo de impedir conflitos entre suas atividades anteriores e as responsabilidades assumidas no governo federal.

O nome do executivo também aparece em processos de fiscalização do Tribunal de Contas da União.

Em uma tomada de contas especial relacionada ao Ministério das Comunicações, identificada pelo número 040.810/2020-8, Bechara figurava entre os responsáveis.

O procedimento foi arquivado sem julgamento de mérito, por ausência dos pressupostos necessários à continuidade do processo.

Em outra análise, referente à prestação de contas de 2014 da Anatel, o tribunal julgou regulares as contas dos responsáveis, incluindo Bechara, e concedeu quitação plena.

Inteligência artificial

Poucas semanas antes de sua saída da Globo, Bechara participou de uma entrevista ao programa Café com Pixel, produzido pela TELA VIVA em parceria com o escritório CQS/FV Advogados.

Na conversa, publicada em 25 de setembro, defendeu que a regulamentação brasileira da inteligência artificial deveria considerar questões que ultrapassam os direitos autorais.

Para ele, uma das prioridades deveria ser a soberania digital, especialmente em relação à infraestrutura tecnológica e ao controle dos sistemas que processam informações.

"A soberania cultural, eu tendo a entender cada vez mais a soberania cultural de um povo como algo cada vez mais relevante", afirmou.

Bechara argumentou que a legislação deveria abordar a arquitetura dos algoritmos, e não apenas os conteúdos apresentados aos usuários.

Também defendeu medidas destinadas a reduzir a dependência de empresas e produtores de conteúdo em relação a grandes plataformas de distribuição digital.

Bancos utilizam sistemas automatizados para analisar riscos, identificar movimentações suspeitas, oferecer serviços e apoiar decisões sobre concessão de crédito.

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) já estabelece obrigações relacionadas ao tratamento de informações e prevê direitos aplicáveis a decisões tomadas com base em sistemas automatizados.

Dados financeiros

O setor bancário passou por mudanças na última década com a criação de instrumentos que alteraram a forma como instituições e clientes realizam transações.

O Pix, lançado em 2020, estabeleceu uma infraestrutura de pagamentos instantâneos administrada pelo Banco Central.

Já o Open Finance criou mecanismos para permitir o compartilhamento de dados e serviços financeiros entre instituições participantes, mediante autorização dos clientes e observância das regras de proteção das informações.

Esses instrumentos ampliaram as possibilidades de entrada de novos participantes e de integração entre serviços financeiros.

Também aumentaram a importância das normas sobre segurança cibernética, interoperabilidade, privacidade e condições de concorrência.

O Banco Central atualizou, em janeiro de 2026, o Manual de Monitoramento do Open Finance, documento que estabelece procedimentos para acompanhar a atuação das instituições participantes.

As regras desse sistema abrangem aspectos técnicos e operacionais que afetam bancos, instituições de pagamento e empresas de tecnologia financeira.

O Itaú participa desse ambiente como uma das instituições tradicionais sujeitas às transformações provocadas pela digitalização dos serviços bancários.

Acompanhe O Brasilianista!