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Geopolítica

Argentina está refém da tecnologia estrangeira

Argentina conclui compra de US$ 32,4 milhões iniciada antes de Milei e amplia frota militar com tecnologia estrangeira

helicópteros Bell 407GXi
Especialista analisa custos, dependência industrial e prioridades de defesa (Foto: reprodução)

A Argentina concluiu a incorporação de seis helicópteros Bell 407GXi destinados ao Exército e à Força Aérea, em um contrato de US$ 32,4 milhões firmado antes da chegada de Javier Milei à Presidência.

A última aeronave foi apresentada em 20 de outubro, em Campo de Mayo, na província de Buenos Aires, e será destinada à V Brigada de Montanha, em Salta.

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A entrega encerra um programa de renovação militar contratado em dezembro de 2022, durante o governo de Alberto Fernández, mas incorporado à atual política de reequipamento das Forças Armadas.

A operação também expõe uma característica da modernização militar argentina.

Enquanto o governo busca recuperar capacidades operacionais e controlar os gastos públicos, a aquisição de aeronaves estrangeiras mantém parte das atividades de treinamento, fornecimento de peças e suporte técnico vinculada a empresas internacionais.

Em entrevista a O Brasilianista, Filipe Eduardo Guedes, administrador, doutorando em Gestão, mestre em Engenharia de Produção, especialista em Economia e professor dos cursos de Gestão do Centro Universitário Fapi, analisa os efeitos dessa dependência sobre a estratégia de defesa do país.

Contrato anterior

O valor da compra está registrado na Decisão Administrativa nº 68/2023, publicada no Boletim Oficial argentino em 1º de fevereiro de 2023.

O documento autoriza o gasto de US$ 32.416.118 pela aquisição das seis aeronaves, além de capacitação, manuais técnicos, ferramentas especiais e equipamentos de apoio terrestre.

O acordo foi firmado entre o Ministério da Defesa da Argentina e a Canadian Commercial Corporation, empresa estatal canadense responsável por operações comerciais internacionais. Os helicópteros foram fornecidos pela Bell Textron Canada.

A documentação estabelece um custo médio contratual de aproximadamente US$ 5,4 milhões por unidade.

O primeiro Bell 407GXi chegou ao país em outubro de 2023. Outras unidades foram incorporadas gradualmente, até a conclusão da entrega das três aeronaves destinadas a cada força militar.

A aquisição, portanto, não foi uma iniciativa originalmente contratada pelo governo Milei. Sua conclusão, entretanto, integra a atual estratégia de recuperação de equipamentos militares.

Frota envelhecida

Os novos helicópteros foram adquiridos principalmente para operações em regiões montanhosas, substituindo progressivamente capacidades desempenhadas pelos SA-315B Lama, aeronaves utilizadas pela Argentina durante quase cinco décadas.

O Bell 407GXi é um helicóptero leve equipado com turbina e sistemas de navegação digitais. Suas características permitem operações de transporte, resgate e apoio logístico em regiões de altitude elevada.

Para Guedes, a escolha revela a intenção de recuperar funções que estavam limitadas pelo envelhecimento dos equipamentos.

“A incorporação dos helicópteros Bell 407GXi reflete a prioridade do governo argentino em recompor capacidades operacionais básicas de uso dual, militar e civil, substituindo frotas obsoletas como os veteranos SA-315B Lama”, afirma.

O especialista explica que essas aeronaves não foram adquiridas principalmente para missões ofensivas.

“Suas missões concentram-se em patrulhamento de fronteiras, busca e salvamento em áreas de alta altitude, evacuação aeromédica, apoio logístico e assistência humanitária em desastres naturais, como o combate a incêndios florestais”, detalha.

O Ministério da Defesa argentino confirmou que o modelo será empregado em operações de montanha, com recursos de navegação que incluem representação sintética do terreno e alertas de proximidade, destinados a aumentar a segurança dos voos em condições meteorológicas adversas.

Operações reais

Parte dos helicópteros já foi utilizada em atividades de apoio à população antes mesmo da conclusão das entregas.

No início de 2026, aeronaves do Exército participaram do combate a incêndios florestais nas províncias de Chubut e Santa Cruz, na Patagônia.

Equipadas com dispositivos de transporte e lançamento de água conhecidos como Bambi Bucket, as unidades atuaram em áreas próximas ao Parque Nacional Los Alerces e à região de El Chaltén.

Em janeiro, um helicóptero também prestou apoio aéreo a uma operação conjunta de militares argentinos e chilenos durante uma atividade de treinamento na região do Aconcágua.

O planejamento argentino prevê a distribuição dos helicópteros do Exército entre brigadas de montanha situadas ao longo da Cordilheira dos Andes.

Gastos militares

A conclusão do programa ocorre durante uma administração que adotou o equilíbrio fiscal como uma de suas prioridades econômicas.

A continuidade de contratos militares anteriores, entretanto, demonstra que parte do reequipamento das Forças Armadas depende de compromissos financeiros e operacionais assumidos em governos anteriores.

Segundo Guedes, uma das estratégias utilizadas para reduzir despesas é adquirir equipamentos com aplicações diversas, em vez de sistemas especializados em uma única missão.

“O governo Milei busca conciliar a austeridade fiscal priorizando compras de oportunidade, plataformas utilitárias de menor custo de ciclo de vida e contratos financiados que envolvam suporte integrado”, explica.

O docente também destaca a importância de utilizar um mesmo modelo em diferentes organizações militares.

“A aquisição conjunta dos Bell 407GXi para o Exército e a Força Aérea reduz custos operacionais por meio da padronização de frota, simplificando a logística e o treinamento”, observa.

Guedes considera positiva a relação entre a capacidade oferecida e as despesas previstas.

“Sob a ótica do custo-benefício, o projeto é altamente vantajoso: garante aeronaves modernas com baixos custos de manutenção por hora de voo e elevada disponibilidade missionária sem comprometer significativamente as metas fiscais de curto prazo”, avalia.

Dependência estrangeira

Embora a aquisição tenha sido realizada por intermédio de uma entidade canadense, o programa envolve equipamentos e serviços vinculados a uma cadeia internacional de fornecedores.

O treinamento de pilotos e técnicos argentinos foi realizado tanto no próprio país quanto nas instalações da Bell em Fort Worth, nos Estados Unidos.

Essa estrutura permite acesso ao conhecimento do fabricante, mas cria necessidades permanentes de suporte técnico e fornecimento de componentes.

“A dependência de fornecedores estrangeiros expõe a Argentina a vulnerabilidades no suprimento continuado de peças, flutuações cambiais e eventuais restrições geopolíticas ao uso de tecnologias com componentes sujeitos a regimes de controle de exportação, como as regulamentações ITAR dos EUA”, afirma Guedes.

As regras de controle de exportação norte-americanas podem impor exigências a determinados equipamentos e componentes, dependendo de sua classificação e origem.

O especialista lembra que dificuldades no acesso a tecnologias estrangeiras já interferiram na política de defesa argentina.

“O embargo de armas do Reino Unido imposto desde a Guerra das Malvinas exemplifica historicamente essa fragilidade”, ressalta.

As restrições britânicas sobre exportações de equipamentos militares para a Argentina afetaram, em diferentes períodos, negociações envolvendo sistemas com componentes de origem britânica.

Tecnologia comercial

O Bell 407GXi possui uma característica que o diferencia de equipamentos desenvolvidos exclusivamente para operações militares.

Trata-se de uma plataforma utilizada também no mercado civil, incluindo atividades de transporte, emergência e serviços especializados.

Essa presença comercial amplia a rede internacional de operadores e prestadores de manutenção.

“No caso dos Bell 407GXi, o risco é amortecido pelo fato de ser uma plataforma comercial civil amplamente difundida, mas o país continua vulnerável à indisponibilidade de divisas para manutenção e à dependência logística externa”, pondera Guedes.

A disponibilidade de fornecedores, entretanto, não elimina a necessidade de recursos em moeda estrangeira para aquisição de peças e contratação de determinados serviços.

A Argentina também possui capacidades industriais próprias na área aeronáutica, mas a incorporação desses helicópteros não equivale à transferência integral da tecnologia de fabricação do modelo.

Equilíbrio regional

O programa argentino envolve seis helicópteros utilitários leves, distribuídos entre duas forças militares. Sua incorporação não representa, isoladamente, uma alteração substancial da capacidade ofensiva do país.

A avaliação é compartilhada por Guedes, que diferencia o reequipamento destinado a operações de apoio de uma expansão voltada à dissuasão militar.

“O movimento argentino não altera o equilíbrio de poder regional, pois não possui caráter dissuasório ofensivo nem sinaliza uma corrida armamentista”, afirma.

Para o especialista, o programa responde principalmente às limitações acumuladas pela frota ao longo dos anos.

“Trata-se estritamente de uma tentativa de conter o sucateamento crônico e recuperar a prontidão operacional básica de suas Forças Armadas”, acrescenta.

A dimensão regional envolve também operações conjuntas realizadas por países que compartilham fronteiras e áreas de circulação de pessoas e mercadorias.

Guedes defende que a recuperação dessas capacidades pode ampliar a cooperação com o Brasil.

“O Brasil deve interpretar esse processo de forma positiva e cooperativa, enxergando uma Argentina operacionalmente mais capaz como uma parceira mais eficiente no combate a ilícitos transnacionais nas fronteiras, em operações combinadas e na consolidação da estabilidade da defesa no sul do continente”, considera.

Próxima operação

A última unidade recebida pela Argentina será incorporada à V Brigada de Montanha General Manuel Belgrano, sediada na província de Salta, no norte do país.

A distribuição busca atender unidades situadas em diferentes regiões da Cordilheira dos Andes, com exigências de deslocamento e atuação em terrenos elevados.

O Exército argentino informou nesta sexta-feira (23) que a incorporação conclui o programa previsto para sua aviação de montanha.

O Ministério da Defesa também confirmou que o contrato abrange treinamento teórico e prático, ferramentas especiais e equipamentos de apoio terrestre, componentes necessários à manutenção da frota.

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