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Justiça

Vorcaro contra o Itaú

Mensagens mostram articulação de ataques contra o maior banco do país

Vorcaro x Itaú
No mesmo conjunto de diálogos, ex-controlador do Master aparece tentando ocultar participação em uma bet Foto: reprodução

Daniel Vorcaro não se limitava a reclamar dos concorrentes do Banco Master. Mensagens extraídas de seu celular pela Polícia Federal mostram que o ex-banqueiro discutiu com o publicitário Thiago Miranda uma estratégia para atingir o Itaú e seus executivos por meio de reportagens, diferentes veículos e informações pessoais sobre o presidente da instituição, Milton Maluhy Filho.

Os diálogos, obtidos pelo Valor Econômico, indicam que a ofensiva vinha sendo tratada ao menos desde o fim de 2024.

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Em uma das conversas, Vorcaro defendeu uma “campanha concatenada” e afirmou que queria reunir diferentes veículos contra Maluhy.

Miranda respondeu que poderia coordenar a iniciativa com os meios aos quais tinha acesso e outros parceiros.

No mesmo período, mensagens também mostram Vorcaro tentando evitar que seu nome aparecesse na estrutura societária de uma casa de apostas e organizando, após um fórum em Londres frequentado por autoridades brasileiras, uma festa para a qual foram convidadas 99 mulheres.

Alvo: Itaú

O Itaú ocupava uma posição especialmente sensível para Vorcaro. Na época das mensagens, grandes bancos já manifestavam ao Banco Central preocupação com o modelo de negócios do Master, fortemente baseado em captação por meio de depósitos protegidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Como maior banco privado do país, o Itaú também era o maior associado do fundo.

Em dezembro de 2024, Miranda encaminhou a Vorcaro uma reportagem do Portal LeoDias sobre supostos problemas internos do Itaú. O banqueiro respondeu celebrando a movimentação da equipe editorial.

Dois meses depois, Miranda enviou a prévia de outra publicação. Dessa vez, Vorcaro pediu cautela e escreveu que era necessário olhar o material “com calma e estratégia” antes de decidir pela divulgação.

Também em fevereiro de 2025, veio um pedido mais direto. Vorcaro disse a Miranda que precisava de um levantamento sobre Milton Maluhy, porque o presidente do Itaú estaria lhe causando problemas. A resposta do publicitário foi curta: “Deixa comigo.”

O Brasilianista mostrou em julho que Vorcaro mandou levantar informações sobre Maluhy e sua família e que Miranda também apareceu em apurações relacionadas ao empresário André Esteves, do BTG Pactual.

“Bater no Milton”

As mensagens mais recentes mostram que o interesse não ficou restrito ao dossiê. Em maio de 2025, depois de Miranda publicar conteúdo sobre o divórcio de Roberto Setubal, copresidente do conselho de administração do Itaú, Vorcaro pediu que o foco não fosse direcionado ao acionista.

“Temos que bater no Milton”, escreveu o banqueiro.

Miranda respondeu que faria isso. Vorcaro então ressaltou que as publicações precisavam ser previamente alinhadas porque o momento de cada uma seria importante.

Dois dias depois, a conversa avançou para algo maior. Vorcaro falou em reunir diferentes veículos e usar “artilharia” contra o executivo. Também disse querer produzir uma “bomba atômica” contra Maluhy.

Miranda respondeu que poderia organizar os veículos e parceiros. A PF passou a investigar o publicitário na 10ª fase da Operação Compliance Zero, que apura, entre outros pontos, suspeitas de campanhas coordenadas para atingir a credibilidade do Banco Central, monitoramento de pessoas e obtenção indevida de informações.

Miranda ainda não havia apresentado posicionamento sobre as novas mensagens na reportagem do Valor. O Itaú preferiu não comentar.

Estrutura de pressão

O Brasilianista destacou que Miranda ganhou espaço nas investigações justamente depois de mensagens indicarem a produção de dossiês e ações de comunicação direcionadas a personagens considerados obstáculos aos interesses de Vorcaro. A apuração envolve Maluhy, André Esteves, jornalistas e autoridades.

Em julho, a empresa de comunicação de Miranda, a Mithi, encerrou as atividades.

Àquela altura, o publicitário já havia deixado de ser tratado apenas como testemunha e passado à condição de investigado pela PF.

Bet escondida

Paralelamente às discussões de comunicação, outra sequência de mensagens mostra Vorcaro tentando manter seu nome distante de um negócio de apostas.

O ex-controlador do Master detinha indiretamente 30% da Bet.Bet, por meio de uma estrutura que incluía a Bet Participações e o FIP Oracle, administrado pela Reag.

Em julho de 2024, antes mesmo do lançamento oficial, Vorcaro chamou a empresa de “essa bet nossa” e escreveu que ela já faturava R$ 5 milhões por dia.

A situação mudou quando o Ministério da Fazenda passou a exigir a identificação do beneficiário final do fundo ligado à operação.

Em mensagens trocadas entre setembro e outubro de 2024, o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, alertou Vorcaro de que ele não poderia aparecer formalmente na estrutura.

“Você não pode aparecer”, escreveu Rennó. Dias depois, reforçou: “Vc tem que sumir de lá.”

As conversas mostram ainda discussões sobre colocar uma pessoa de confiança na estrutura, financiamento por debêntures e recursos destinados à outorga exigida pelo governo.

Documentos apresentados posteriormente ao Ministério da Fazenda indicaram Adriano Garzon Correa, despachante de Minas Gerais, como cotista do Oracle. Ele já aparecia em outros negócios relacionados a Vorcaro investigados pela PF.

Em fevereiro de 2025, Rennó informou ao banqueiro que a saída formal da bet estava sendo concluída.

99 mulheres

Outro conjunto de conversas recuperado pela PF expõe o funcionamento das viagens e eventos internacionais bancados por Vorcaro.

Entre 24 e 26 de abril de 2024, Londres recebeu o Fórum Brasil de Ideias, evento patrocinado pelo Banco Master e frequentado por autoridades dos três Poderes e integrantes do Ministério Público.

Participaram da programação ministros do STF, STJ e TSE, além de integrantes do governo federal. Registros da época citaram, entre outros, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski, Jorge Messias e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

Após o encerramento do fórum, Vorcaro organizou outro evento. O banqueiro fechou o restaurante Nikita, em Londres. Nas conversas com seu agente de viagens, Leo Serrano, as mulheres convidadas eram chamadas de “flores”.

Em 26 de abril, Serrano foi atualizando a lista. Primeiro mencionou grupos de 50, sete e 26 mulheres.

Mais tarde, informou ao banqueiro que havia “99 flores no total”. Vorcaro reagiu com surpresa.

As mensagens mostram que a contratação ou convite de mulheres fazia parte de outras agendas internacionais organizadas para Vorcaro.

Em conversa anterior, o próprio banqueiro ironizou o uso da palavra “flores” e usou uma expressão pejorativa para se referir às mulheres.

Festas anteriores

As festas internacionais já apareceram outras vezes na investigação. O Brasilianista informou em junho que Vorcaro bancou eventos no exterior com políticos e autoridades, incluindo encontros em Nova York.

A PF identificou uma degustação de uísques e charutos, jantar e uma festa conhecida como “noite das astronautas”, na qual mulheres usavam fantasias prateadas.

Em setembro, novas mensagens revelaram convites para festas que incluíam nomes como Rodrigo Pacheco, Davi Alcolumbre e Dias Toffoli. A existência dos convites, porém, não comprova que todos tenham comparecido.

O fórum de Londres também voltou às investigações porque fotos e mensagens colocaram Vorcaro ao lado de autoridades durante eventos paralelos.

O Brasilianista revelou uma imagem em que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, aparece com o ex-banqueiro durante uma degustação de uísque e charuto na capital britânica.

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