O Itaú Unibanco decidiu investir R$ 2,925 bilhões para assumir o controle de uma empresa de inteligência artificial que já desenvolve modelos treinados com dados do próprio banco.
A aquisição de 100% da NeoSpace, anunciada nesta segunda-feira (26), permitirá à instituição ampliar o uso de tecnologia própria em análises de crédito, identificação de fraudes e relacionamento com clientes.
O negócio também coloca em discussão os limites do uso de informações financeiras para treinar algoritmos capazes de influenciar decisões sobre o acesso a serviços bancários.
A operação representa mais um capítulo de uma relação empresarial iniciada antes da criação da NeoSpace.
Em 2019, o Itaú comprou a Zup, empresa de tecnologia fundada por integrantes do mesmo grupo de empreendedores, por mais de R$ 500 milhões.
Em janeiro de 2025, liderou uma rodada de investimentos de US$ 18 milhões na nova startup, então avaliada em US$ 100 milhões.
A conexão foi detalhada em reportagem de Moacir Drska, publicada pelo NeoFeed, que também identificou o avanço da companhia no desenvolvimento de modelos especializados em grandes volumes de dados.
Tecnologia própria
A NeoSpace foi fundada no fim de 2023 e desenvolve os chamados Large Data Models (LDMs), modelos capazes de identificar relações e padrões em informações de diferentes formatos.
A tecnologia se diferencia dos modelos de linguagem tradicionais por priorizar a análise de dados corporativos estruturados e não estruturados, permitindo aplicações específicas para cada empresa.
Para Evaldo Reis Junior, cientista da computação e coordenador dos cursos de Tecnologia do Centro Universitário Cesuca, a decisão do Itaú está relacionada à busca por vantagens que não podem ser reproduzidas simplesmente pela contratação de serviços disponíveis no mercado.
"A estratégia de outsourcing, terceirização, tem suas limitações e, muitas vezes, apenas iguala a concorrência. Uma IA própria, aplicada ao negócio do Itaú, traz um diferencial competitivo nos dados, pois são décadas de histórico de transações e crédito, e comportamento de dezenas de milhões de clientes", explica.
O banco informou, em fato relevante encaminhado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que a NeoSpace já presta serviços à instituição há quase dois anos.
A tecnologia vem sendo utilizada em iniciativas voltadas à personalização de produtos, gestão de relacionamento com clientes e prevenção de irregularidades financeiras.
O especialista ressalta que o investimento também poderá ampliar a capacidade de acompanhamento interno dos sistemas automatizados.
"Um modelo treinado nesses dados aprende padrões que um modelo genérico não te entrega. Isso tudo sem falar em uma melhor performance do CRM e na gestão do processo de auditoria, ficando mais fácil explicar ao regulador", observa.
Em entrevista ao NeoFeed, o presidente-executivo do banco, Milton Maluhy Filho, explicou que a estratégia envolve o desenvolvimento de capacidades próprias e a manutenção de parcerias externas.
Crédito automatizado
Uma das principais aplicações previstas para os sistemas envolve a análise de crédito.
Modelos capazes de cruzar grandes quantidades de informações podem identificar padrões de pagamento, estimar riscos e auxiliar na definição das condições oferecidas aos consumidores.
Essa possibilidade apresenta benefícios, mas também riscos relacionados ao uso de dados históricos.
"Modelos mais precisos podem avaliar melhor quem tem pouco histórico formal, como autônomos e pequenos empreendedores, e ampliar o acesso ao crédito. Também respondem mais rápido e erram menos na detecção de fraudes", considera Reis Junior.
O problema está na possibilidade de reproduzir desigualdades presentes nas informações utilizadas durante o treinamento.
Mesmo quando determinadas características pessoais não são incluídas diretamente, outras variáveis podem produzir resultados semelhantes.
"Mesmo sem usar raça ou gênero, o algoritmo pode chegar a resultados discriminatórios por meio de variáveis indiretas, como CEP e padrão de consumo", adverte.
Esse fenômeno é conhecido como discriminação por variável substituta, ou proxy.
Um sistema pode estabelecer correlações entre localização geográfica, renda e comportamento financeiro que resultem em tratamento desigual de determinados grupos.
Dados protegidos
O treinamento de inteligência artificial com informações bancárias está sujeito à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), às regras de sigilo bancário e às exigências de segurança estabelecidas pelo Banco Central.
A legislação brasileira não autoriza o uso irrestrito de informações financeiras simplesmente porque elas estão armazenadas pela instituição.
O tratamento precisa observar uma base legal adequada, finalidade legítima, necessidade, transparência e medidas de proteção compatíveis com os riscos envolvidos.
O artigo 20 da LGPD assegura aos titulares o direito de solicitar a revisão de decisões tomadas exclusivamente por tratamento automatizado de dados pessoais que afetem seus interesses, inclusive na definição de perfis de crédito.
Segundo Reis Junior, a fiscalização desses sistemas exige procedimentos contínuos.
"Por isso, a resposta não é proibir, mas governar, isto é, testar os modelos regularmente para identificar vieses entre grupos, documentar as variáveis usadas, manter revisão humana nas decisões relevantes e garantir ao cliente o direito de contestar", defende.
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) mantém em sua agenda regulatória para 2025 e 2026 o detalhamento de direitos previstos na LGPD, incluindo aqueles relacionados às decisões automatizadas. Até outubro, essa regulamentação permanecia em elaboração interna.
Mercado concentrado
O avanço do Itaú também suscita uma discussão sobre a capacidade de instituições menores competirem com grandes bancos no desenvolvimento de tecnologias próprias.
A NeoSpace já atendia empresas de setores como telecomunicações, aviação e energia.
A compra integral por uma instituição financeira poderá alterar sua estratégia comercial, embora o Itaú tenha anunciado que a startup continuará funcionando de maneira independente.
"Concorrentes do Itaú já não tinham acesso a parte do que a NeoSpace criava para o banco, e com a compra integral isso se consolida", afirma Reis Junior.
A compra ainda depende de autorização do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e do Banco Central.
O exame concorrencial poderá considerar, entre outros fatores, possíveis efeitos sobre a oferta de soluções tecnológicas a outras instituições.
Relação bilionária
O acordo prevê o pagamento de uma parcela na conclusão da transação, enquanto o saldo será distribuído ao longo de cinco anos, condicionado a determinadas exigências contratuais.
O Itaú não detalhou publicamente a divisão dos valores entre essas etapas.
A NeoSpace permanecerá sob a liderança de seu cofundador e presidente-executivo, Bruno Pierobon, com manutenção da equipe e autonomia na condução dos negócios, conforme o fato relevante.
A companhia deverá contribuir para o desenvolvimento da ia.i, plataforma de inteligência artificial generativa lançada pelo Itaú em julho.
O serviço permite que clientes interajam com produtos financeiros por comandos de texto e voz, e a instituição pretende ampliar seu alcance para todos os usuários pessoa física do aplicativo até o fim de 2026.
A expansão já ocorre em uma base de milhões de usuários. Em entrevista concedida ao NeoFeed nesta segunda-feira, Maluhy informou que a ferramenta alcançou aproximadamente 3 milhões de clientes.
A utilização desses sistemas em novas funções de crédito e gestão financeira dependerá das etapas de desenvolvimento e das condições regulatórias aplicáveis.
A aquisição integral da NeoSpace ainda não foi concluída. Até a aprovação pelas autoridades competentes, o negócio permanece sujeito às condições estabelecidas no contrato.
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