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Geopolítica

Os impactos da pressão de Trump sobre a América Latina

Historicamente, os EUA consideram o continente americano uma região de interesse estratégico prioritário

Donald Trump
Trump enfrenta um desafio em sua capacidade política com o possível resultado das eleições de meio mandato (Foto via Fotos Públicas)

As eleições de 2026 evidenciaram a influência do governo de Donald Trump sobre a política brasileira. No entanto, o aliado do republicano, o senador Flávio Bolsonaro (PL) acabou perdendo no pleito do último domingo (25).

A política de Trump, entretanto, envolve um conceito fundamental da história das relações internacionais: a esfera de influência. Historicamente, os Estados Unidos consideram o continente americano uma região de interesse estratégico prioritário.

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Um forte exemplo disso é a Doutrina Monroe, formulada em 1823, e as suas interpretações e aplicações que se transformaram ao longo dos séculos. A doutrina consistia em avisar as potências europeias que qualquer tentativa de intervir, colonizar ou reconquistar territórios no continente americano seria vista como uma agressão aos próprios Estados Unidos. 

Segundo José Renato Ferraz da Silveira, professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o governo Trump tem reforçado essa visão de segurança hemisférica, que combina a pressão econômica, controle migratório, combate as organizações criminosas e contenção de presença de potências extra-regionais.

"A cooperação internacional não pode ser confundida com subordinação política. Países latino-americanos possuem interesses próprios, instituições nacionais e diferentes estratégias de inserção internacional", reforça o especialista.

O Brasil, por exemplo, mantém relações econômicas importantes com os EUA, mas também com a China, União Europeia além de vários outros parceiros. Essa é, inclusive, uma característica do Brasil, em buscar autonomia estratégica pela diversificação.

No cenário atual, os próximos dois e últimos anos de Trump no governo americano devem ser cruciais para a relação do país com a América Latina. O internacionalista considera importante observar a relação entre os objetivos declarados de Washington e os limites institucionais, econômicos e diplomáticos de sua atuação.

"A pressão norte-americana poderá encontrar resistências, tanto os governos latino-americanos, quanto no próprio Congresso dos Estados Unidos, que vão, evidentemente, se for uma maioria democrata, dar limites a Donald Trump", avalia o professor.

Os EUA terão eleições de meio mandato no próximo dia 3 de novembro, que deve mudar a configuração do Legislativo. Trump enfrenta um real desafio em emplacar os aliados republicanos. 

Nesse cenário, a figura de Trump de 2025 e 2026, em um possível Congresso norte-americano com maioria democrata encontrará, de fato, muito mais resistência.

Relação com o Brasil após reeleição de Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito no último domingo (25) e seguirá em 2027 para o seu quarto mandato. Desde o ano passado, um importante lema de sua campanha foi a importância da soberania nacional e o enfrentamento direto à Donald Trump.

Agora em um quarto governo Lula, o professor de Relações Internacionais avalia que não haverá papel de subordinação do Brasil frente aos EUA.

"O governo Lula sempre marcou, sempre caracterizou por essa autonomia estratégica, por essa autonomia por diversificação. A soberania não é uma concessão das grandes potências. É um princípio fundamental da ordem internacional, e o Brasil leva muito a sério, pelo menos a administração, a gestão Lula", avalia Silveira. 

A política migratória

A política migratória é uma das principais dimensões da identidade política do Trumpismo que é focada, principalmente, na população latina. Agora, também é um dos principais problemas do governo.

A Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês), órgão federal responsável por atividades de fiscalização e aplicação da legislação migratória, ocupa a posição central nesse processo.

O ICE já matou imigrantes em protestos, além de realizar uma série de prisões e deportações violentas durante o segundo mandato de Trump. A população negra e latina dos EUA relata medo em sair às ruas devido a essa repressão.

A operação do órgão se tornou uma das principais marcas do governo do republicano, o que também virou um tiro no pé para as eleições de meio mandato.

"Eu devo aqui destacar e distinguir duas questões. A primeira é o direito de um Estado estabelecer e executar sua política migratória. A segunda é a obrigação de respeitar garantias legais, direitos fundamentais e princípios humanitários durante sua execução", afirma Silveira. 

Para o professor, o desafio político, surge quando ações de fiscalização possam produzir controvérsias sobre proporcionalidade, devido processo legal, e tratamento dispensado aos imigrantes. E justamente essas controvérsias que podem ampliar a polarização.

"Para determinados segmentos do eleitorado estadunidense, uma política migratória rigorosa representa o cumprimento de uma promessa presidencial. Para uma outra parcela, especialmente quando envolve denúncios de abusos, ela pode representar uma ameaça a direitos e garantias fundamentais", explica.

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