Ao longo das últimas décadas, a governabilidade do país foi moldada pelo peso relativo das bancadas partidárias e pelas alianças políticas firmadas para a condução das Mesas Diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.
Nas eleições de 2026, o Partido Liberal (PL) alcançou um marco histórico ao eleger a maior bancada da Câmara dos Deputados dos últimos 40 anos, com 121 deputados federais.
No Senado Federal, a legenda também liderou o pleito ao conquistar 19 cadeiras, somando um total de 28 senadores ao contabilizar os parlamentares remanescentes da legislatura anterior.
Com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República, consolidou-se uma configuração inédita: o partido do presidente não obteve a maior bancada em nenhuma das duas Casas legislativas, projetando o PL como a principal força partidária de oposição no Legislativo.
Dança das cadeiras
A conquista da maior bancada nas urnas não assegura automaticamente o comando das Casas do Congresso. Em ciclos eleitorais anteriores, a direção das Mesas Diretoras permaneceu predominantemente com siglas do centro integradas às coalizões governistas.
Essa dependência, no entanto, pode mudar com o avanço das articulações tanto na Câmara quanto no Senado, como O Brasilianista explicou sobre a continuidade dos presidentes Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP).
Diante do crescimento expressivo do PL, o Centrão organizou uma rápida ofensiva preventiva para blindar a reeleição de Hugo Motta na Presidência da Câmara.
Centrão no comando
Nesse sentido, formulou-se um amplo bloco composto por União Brasil, PP, Republicanos, MDB, PSD, PSDB-Cidadania, Podemos e Solidariedade-PRD.
A articulação recebeu o apoio de partidos do campo governista e de centro-esquerda, como o PDT de Carlos Lupi e o PSB de Jonas Donizette, além de tratativas com o PT e o PSOL para assegurar a maioria absoluta de pelo menos 257 votos no Plenário.
Na Câmara, o líder Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) desistiu de concorrer e, por ora, ainda não há um nome definido pela oposição para a disputa do posto.
Controle da Casa Alta
Isolado como a maior bancada da Casa Alta, com 28 senadores, o bloco oposicionista quer o senador Rogério Marinho (PL-RN) como nome prioritário para disputar a Presidência do Senado.
A candidatura de Marinho está estruturada sobre o compromisso de aceitar e pautar pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), com foco no ministro Alexandre de Moraes.
A ascensão do PL e suas pretensões na Casa Alta reacendem o debate sobre a concentração ou divisão do comando do Congresso Nacional, resgatando precedentes como o de 2019, quando o antigo Democratas (DEM) presidiu simultaneamente a Câmara e o Senado.
Panorama eleitoral e histórico de gestão
No período que antecedeu a nova legislatura (2023–2026), o comando da Câmara dos Deputados esteve sob a gestão de Arthur Lira (PP) entre 2023 e 2025, seguido pela eleição de Hugo Motta para o biênio 2025–2026.
No Senado Federal, Rodrigo Pacheco presidiu a Casa de 2023 a 2025, sendo sucedido por Davi Alcolumbre (União-AP) para o período de 2025 a 2026.
Todos esses parlamentares pertenciam a partidos de centro que compuseram alianças políticas formais e integraram a base de sustentação governista do Poder Executivo.
Eleições de 2022
No pleito de 2022, o Partido Liberal (PL) obteve a maior bancada na Câmara dos Deputados ao eleger 99 deputados federais. Na renovação de um terço do Senado Federal, o PL também liderou a disputa ao eleger 8 senadores.
Lula venceu a eleição presidencial. O presidente eleito não possuía filiação nem coligação política formal com o PL, que figurava como a principal sigla de sustentação da candidatura derrotada de Jair Bolsonaro.
A presidência da Câmara dos Deputados ao longo dos quatro anos foi exercida por Arthur Lira (PP-AL) no primeiro biênio (2023–2025) e por Hugo Motta no segundo biênio (2025–2027).
No Senado Federal, Rodrigo Pacheco presidiu a Casa de 2023 a 2025, passando a condução a Davi Alcolumbre (União-AP) para o período de 2025 a 2027.
Apesar de o PL deter a maior bancada eleita, as duas Casas foram comandadas por parlamentares de partidos de centro que firmaram alianças com a coalizão do governo eleito, a despeito de divergências pontuais, como a rejeição na sabatina de Jorge Messias para o STF.
Eleições de 2018
Nas eleições de 2018, o Partido dos Trabalhadores (PT) conquistou a maior bancada na Câmara dos Deputados com 56 parlamentares eleitos. No Senado Federal, cuja renovação envolveu duas vagas por estado, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) elegeu o maior número de senadores, somando 7 cadeiras.Jair Bolsonaro (então no PSL) foi eleito Presidente da República.
O comando da Câmara dos Deputados ficou sob a responsabilidade de Rodrigo Maia (DEM-RJ) entre 2019 e 2021, seguido por Arthur Lira (PP-AL) de 2021 a 2023.
O Senado Federal foi presidido por Davi Alcolumbre (DEM-AP) no primeiro biênio e por Rodrigo Pacheco no segundo. Os presidentes de ambas as Casas pertenciam a siglas que construíram alianças informais e, posteriormente, coalizões oficiais com o Palácio do Planalto.
Eleições de 2014
O pleito de 2014 consagrou o PT com a maior bancada na Câmara dos Deputados, elegendo 69 deputados. Na disputa para o Senado Federal, em renovação de um terço, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) destacou-se ao eleger 5 senadores.
Dilma Rousseff (PT) obteve a reeleição presidencial. O partido da presidenta garantiu a maior bancada da Câmara e manteve uma aliança política formal de chapa com o PMDB, legenda de maior representação no Senado que ocupava a Vice-Presidência da República com Michel Temer.
A Câmara dos Deputados foi dirigida por Eduardo Cunha (PMDB-RJ) em 2015–2016, passando brevemente pela interinidade de Waldir Maranhão (PP-MA) em 2016 e pela gestão de Rodrigo Maia (DEM-RJ) entre 2016 e 2019.
O Senado Federal foi presidido por Renan Calheiros (PMDB-AL) de 2015 a 2017 e por Eunício Oliveira (PMDB-CE) de 2017 a 2019. O PMDB, parceiro formal de chapa, comandou o Senado durante todo o ciclo e a Câmara até o rompimento político decorrente do processo de impeachment em 2016.
Eleições de 2010
Em 2010, o Partido dos Trabalhadores (PT) encabeçou a maior bancada da Câmara dos Deputados ao eleger 88 parlamentares. No Senado Federal, onde dois terços das cadeiras foram renovados, o PMDB obteve o maior resultado ao eleger 16 senadores.
Dilma Rousseff (PT) foi eleita para o seu primeiro mandato presidencial. A presidenta pertencia ao partido com maior representatividade na Câmara e contava com uma coligação eleitoral formal com o PMDB, sigla mais votada no Senado e integrante da chapa vitoriosa na Vice-Presidência.
A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados foi presidida por Marco Maia (PT-RS) entre 2011 e 2013, e por Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) de 2013 a 2015.
No Senado Federal, a presidência coube a José Sarney (PMDB-AP) no primeiro biênio e a Renan Calheiros (PMDB-AL) no segundo. As duas Casas do Congresso foram geridas alternadamente pelos dois principais partidos da coligação governista.
Eleições de 2006
No pleito eleitoral de 2006, o PMDB conquistou a maior bancada na Câmara dos Deputados com 89 eleitos. Na renovação de um terço do Senado Federal, o Partido da Frente Liberal (PFL, atual DEM/União) obteve a maior bancada da disputa, elegendo 6 senadores.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) obteve a reeleição para a Presidência da República. No momento do pleito, o presidente não fazia parte da maior bancada da Câmara (PMDB) nem do PFL, legenda oposicionista mais votada para o Senado. Contudo, o PMDB formalizou sua adesão à coalizão governista no início do segundo mandato.
Na Câmara dos Deputados, a presidência foi ocupada por Arlindo Chinaglia (PT-SP) de 2007 a 2009 e por Michel Temer (PMDB-SP) de 2009 a 2011.
O Senado Federal permaneceu presidido pelo PMDB durante todo o quadriênio, sob a condução de Renan Calheiros (PMDB-AL) em 2007, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) entre 2007 e 2009, e José Sarney (PMDB-AP) de 2009 a 2011.
Eleições de 2002
As eleições de 2002 registraram a liderança dupla do Partido dos Trabalhadores (PT), que elegeu a maior bancada na Câmara dos Deputados, com 91 deputados, e a maior bancada no Senado Federal, em renovação de dois terços, com 10 senadores eleitos.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu a eleição para o Poder Executivo. Assim, o presidente eleito pertencia ao mesmo partido que havia conquistado a maior bancada nas duas Casas do Poder Legislativo.
A presidência da Câmara dos Deputados foi iniciada por João Paulo Cunha (PT-SP) no biênio 2003–2005, seguida por uma breve gestão de Severino Cavalcanti (PPB/PP-PE) em 2005 e pela eleição de Aldo Rebelo (PCdoB-SP) para o período de 2005 a 2007.
O Senado Federal foi comandado por José Sarney (PMDB-AP) de 2003 a 2005 e por Renan Calheiros (PMDB-AL) de 2005 a 2007, fruto do acordo de sustentação governista firmado pelo PMDB.
Eleições de 1998
Nas eleições de 1998, o Partido da Frente Liberal (PFL) elegeu a maior bancada para a Câmara dos Deputados, somando 105 deputados federais. No Senado Federal, em pleito de renovação de um terço das cadeiras, o PMDB destacou-se ao eleger 7 senadores.
Fernando Henrique Cardoso (PSDB) garantiu a reeleição presidencial. O chefe do Executivo era aliado formal em coligação do PFL, maior bancada da Câmara, e mantinha um acordo de governabilidade com o PMDB, maior bancada eleita no Senado.
A Câmara dos Deputados teve como presidentes Michel Temer (PMDB-SP) no primeiro biênio (1999–2001) e Aécio Neves (PSDB-MG) no segundo (2001–2003). O Senado Federal foi presidido por Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) entre 1999 e 2001, e por Ramez Tebet (PMDB-MS) de 2001 a 2003. Todas as lideranças do Congresso pertenciam estritamente aos partidos que compunham a base aliada do governo.
Eleições de 1994
No pleito de 1994, o PMDB conquistou o maior número de vagas na Câmara dos Deputados, elegendo 107 deputados. Na disputa para o Senado Federal, com dois terços das vagas em renovação, o PMDB também obteve o primeiro lugar ao eleger 14 senadores.
Fernando Henrique Cardoso (PSDB) venceu a disputa presidencial à frente da coligação formada por PSDB, PFL e PTB. Embora o PMDB não fizesse parte da chapa eleitoral original, o partido firmou uma aliança formal de governabilidade logo após a posse para garantir a sustentação parlamentar do governo.
A presidência da Câmara foi exercida por Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA) entre 1995 e 1997, e por Michel Temer (PMDB-SP) de 1997 a 1999.
No Senado Federal, José Sarney (PMDB-AP) presidiu a Casa no primeiro biênio, sendo sucedido por Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) entre 1997 e 1999. O comando do Congresso foi dividido entre a coligação eleitoral do presidente (PFL) e o seu principal aliado governista (PMDB).
Eleições de 1990
Na primeira eleição legislativa realizada após a promulgação da Constituição de 1988, uma vez que em 1989 ocorreu apenas o pleito presidencial, o PMDB tornou-se a maior força na Câmara dos Deputados ao eleger 108 parlamentares. No Senado Federal, em renovação de um terço, o PMDB e o PFL empataram como as maiores bancadas da eleição, elegendo 8 senadores cada.
Fernando Collor (PRN), vitorioso na eleição de 1989, assumiu o mandato em 1990. Collor não possuía aliança formal com o PMDB nem com o PFL no início da gestão, contando com o suporte de uma bancada reduzida de seu próprio partido (PRN), fator que contribuiu para a crise política que culminou em seu impeachment em 1992.
A Câmara dos Deputados foi comandada por Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) no biênio 1991–1993 e por Inocêncio Oliveira (PFL-PE) entre 1993 e 1995.
No Senado Federal, a presidência esteve a cargo de Mauro Benevides (PMDB-CE) de 1991 a 1993 e de Humberto Lucena (PMDB-PB) de 1993 a 1995.
A condução das Casas esteve sob a responsabilidade de siglas sem vínculos formais originários com o Executivo, transicionando para o apoio à governabilidade durante a gestão de Itamar Franco.
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