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Geopolítica

Trump e a Embaixada dos EUA no Brasil viram eleições diferentes

Relatório diplomático considera o resultado eleitoral definitivo e não identifica irregularidades capazes de alterar a votação

Trump
Presidente americano mantém críticas ao pleito, enquanto o Planalto evita uma reação formal (Foto: creative commons)

A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições de domingo (25) provocou uma divergência entre o discurso público de Donald Trump e a avaliação feita pela própria Embaixada dos Estados Unidos no Brasil.

Enquanto o presidente americano questiona a votação e evita reconhecer formalmente a reeleição do petista, um relatório enviado pela representação diplomática em Brasília ao Departamento de Estado, na segunda-feira (26), descreveu o resultado como definitivo. 

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Duas versões

A representação diplomática registrou que o segundo turno transcorreu de maneira majoritariamente pacífica, apesar de dificuldades no transporte público e no acesso às seções eleitorais em algumas regiões.

O documento também reconheceu que a decisão de ampliar o horário de votação provocou confusão, mas não encontrou elementos que colocassem em dúvida o resultado.

Trump, entretanto, adotou outra posição publicamente. Na segunda-feira (26), afirmou que a eleição brasileira parecia ter sido fraudada e questionou a ampliação do horário de votação.

Três dias depois, voltou a criticar o processo ao ser perguntado sobre a possibilidade de conversar com Lula.

"Vou falar com ele, mas acho que a eleição no Brasil foi uma vergonha", declarou na quinta-feira (29).

Questionado sobre quem considerava o vencedor legítimo, o presidente americano evitou responder diretamente.

Até aquele momento, a Casa Branca não havia divulgado uma mensagem oficial de congratulações pela reeleição do petista.

Disputa dos números

A principal controvérsia levantada por Flávio Bolsonaro e posteriormente mencionada por Trump envolve a prorrogação do horário de votação no segundo turno presidencial.

O encerramento estava previsto para as 17h, mas dificuldades de transporte e acesso a seções eleitorais levaram as campanhas dos dois candidatos a solicitar uma ampliação do período.

A medida foi autorizada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), permitindo votação até as 19h em localidades afetadas.

A decisão provocou problemas de comunicação entre as autoridades eleitorais e algumas seções.

Entretanto, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, aproximadamente 34 mil votos foram registrados depois das 17h, incluindo eleitores que já estavam nas filas no horário inicialmente previsto para o encerramento.

O número corresponde a cerca de 0,03% dos votos registrados e representa menos de 1% da diferença entre os candidatos.

Lula recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos válidos. Flávio Bolsonaro obteve 59.826.041 votos, ou 48,21%. A vantagem do presidente foi de 4.430.191 votos.

O próprio relatório da embaixada utilizou esses dados para avaliar o alcance da prorrogação.

O documento também registrou a posição do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, segundo a qual a ampliação não alterou a vitória de Lula.

Observadores internacionais

A missão de observação eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) também aparece no relatório encaminhado a Washington.

Os representantes internacionais identificaram problemas na comunicação da decisão que estendeu o horário de votação.

A alteração não foi transmitida de maneira uniforme a todas as seções afetadas, provocando dificuldades operacionais.

Apesar dessas ressalvas, a missão considerou o pleito organizado e afirmou não ter dúvidas sobre o resultado da eleição.

O relatório americano incorporou essa avaliação à análise sobre a contestação apresentada por Flávio Bolsonaro.

O documento também registrou preocupação de integrantes do PL com as consequências políticas de insistir no questionamento da eleição.

A avaliação, relatada reservadamente à representação americana, mencionava o risco de desgaste partidário diante da diferença de votos e da ausência de fundamentos suficientes para anular a disputa.

Reconhecimento internacional

A postura de Trump contrasta com as manifestações registradas pelo Tribunal Superior Eleitoral após a divulgação do resultado.

Até a tarde de quinta-feira (29), o Painel de Acompanhamento de Manifestações Internacionais sobre os Resultados Eleitorais havia identificado saudações e manifestações oficiais de 107 países e 11 organismos ou blocos multilaterais.

Entre os governos que reconheceram a vitória estavam China, Alemanha, França, Espanha, Canadá, Rússia, Austrália, Portugal e Reino Unido.

O reconhecimento também partiu de lideranças politicamente distantes de Lula, incluindo Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália, José Antonio Kast, presidente do Chile, e Daniel Noboa, presidente do Equador.

Na América do Sul, Javier Milei, da Argentina, também permanecia sem felicitar o presidente brasileiro pela reeleição.

Silêncio americano

Integrantes do governo Lula avaliam que Trump ficou politicamente isolado ao manter suas críticas à eleição brasileira sem apresentar elementos que sustentem uma alteração do resultado.

Auxiliares do presidente consideram que o reconhecimento por outros países, pelas instituições brasileiras e por partidos políticos reduz o espaço para questionamentos diplomáticos.

A posição do Planalto, entretanto, não deverá resultar em uma resposta formal imediata aos comentários de Trump.

A orientação relatada é evitar novos atritos com Washington enquanto o governo americano não define oficialmente sua postura.

O contexto envolve também a permanência de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos.

O senador chegou a Miami na quarta-feira (28), após deixar o Brasil em descumprimento de uma determinação do STF que exigia a entrega de seus passaportes.

Jason Miller, assessor ligado à Casa Branca, confirmou participação na logística da viagem do parlamentar.

Atritos anteriores

As divergências entre Lula e Trump começaram antes das eleições presidenciais de 2026 e envolveram disputas comerciais, medidas contra autoridades brasileiras e acusações de interferência nos assuntos internos do país.

Em julho de 2025, o governo americano anunciou uma sobretaxa que elevou a tributação de determinados produtos brasileiros a até 50%.

A medida foi acompanhada de críticas de Washington ao tratamento judicial dispensado ao ex-presidente Jair Bolsonaro e provocou uma reação do governo brasileiro, que classificou a iniciativa como uma interferência em decisões de instituições nacionais.

A tensão também alcançou o Supremo Tribunal Federal. O governo Trump adotou sanções contra o ministro Alexandre de Moraes e restrições de visto relacionadas a autoridades brasileiras.

Lula criticou essas medidas e defendeu que decisões judiciais tomadas no Brasil não poderiam ser utilizadas como justificativa para pressões econômicas externas.

Apesar das divergências, os dois presidentes iniciaram uma aproximação diplomática em outubro de 2025, com uma conversa telefônica e um encontro presencial na Malásia, quando concordaram em abrir negociações comerciais.

O diálogo, entretanto, não encerrou os conflitos. Em julho de 2026, os Estados Unidos estabeleceram uma tarifa de 25% sobre uma série de produtos brasileiros, além de uma cobrança adicional de 12,5% associada a alegações sobre o combate ao trabalho forçado.

Washington também questionou práticas brasileiras envolvendo propriedade intelectual, comércio digital, etanol e o funcionamento do Pix.

O governo Lula rejeitou as acusações e afirmou que as medidas prejudicavam o comércio bilateral.

Em agosto, após uma conversa entre os presidentes, representantes dos dois países retomaram as negociações sobre as tarifas.

Os atritos diplomáticos também envolveram o corpo diplomático brasileiro. Em agosto de 2026, os Estados Unidos anunciaram a revogação do visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti.

O governo americano relacionou a medida à demora na aprovação de seu indicado para comandar a representação em Brasília, enquanto o Itamaraty contestou a justificativa e afirmou que Washington havia desrespeitado procedimentos previstos na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

Durante a campanha eleitoral, a relação com Trump tornou-se parte do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Em setembro, um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), apontou risco de interferência americana no processo eleitoral brasileiro.

A avaliação foi encaminhada à Presidência, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça.

O documento indicava preocupação com possíveis pressões externas, mas não constituía prova de fraude ou de interferência efetivamente realizada na votação.

Na sabatina da TV Globo, em 15 de outubro, Lula afirmou que pretendia continuar negociando as tarifas, mas admitiu recorrer à reciprocidade comercial caso não houvesse entendimento.

O presidente também declarou acreditar na possibilidade de um acordo com Trump, destacando que os encontros anteriores haviam ocorrido de maneira respeitosa.

A contestação da vitória de Lula pelo presidente americano acrescentou um novo elemento às divergências.

Diferentemente das disputas comerciais, que podem ser resolvidas por negociações entre governos, o questionamento do resultado eleitoral envolve diretamente o reconhecimento das instituições brasileiras.

O contraste se tornou evidente quando a Embaixada dos Estados Unidos descreveu a reeleição como definitiva em um relatório enviado a Washington, enquanto Trump continuava manifestando dúvidas publicamente.

Apesar da tensão, o governo brasileiro pretende preservar os canais de negociação com os Estados Unidos. 

O Planalto busca evitar que a chegada de Flávio Bolsonaro a Miami e as declarações de Trump comprometam as conversas comerciais.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, deverá manter contatos com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, enquanto o governo acompanha os desdobramentos políticos em Washington.

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