O presidente da Argentina, Javier Milei, quer um Brasil atrelado a uma discussão ideológica e que apareça comercialmente vinculado — muito vinculado — à China.
Esse é o resultado de quase três anos de um governo alinhado aos Estados Unidos e Israel. Neste momento, Milei se encontra pressionado pelas altas taxas de inflação, diversas manifestações dos argentinos e denúncia de corrupção.
Além disso, recentemente ajudou e abrigou Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência do Brasil derrotado, no plano de fuga aos EUA. Apesar de ser um assunto menor para o povo argentino, dá municação à oposição questioná-lo.
Nesse contexto, a relação entre Milei e o clã Bolsonaro é de oportunidade e conveniência, segundo Hernán Maurette
cientista político pela Universidade Católica Argentina e colunista de O Brasilianista. Para ele, essa não é uma relação com histórico político e pode não se alongar a depender da estratégia de Milei.
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil pela fronteira com a Argentina às 22h50 de terça-feira (27), acompanhado da esposa e filhas. O avião que transportou o candidato derrotado à presidência da República é de uma empresa investigada por corrupção no governo de Javier Milei, presidente argentino.
O Brasilianista foi o primeiro veículo brasileiro a confirmar a fuga de Flávio Bolsonaro, em 27 de outubro.
O jato particular que realizou o traslado da Argentina aos Estados Unidos é da empresa argentina Baires Fly, acusada por lavagem de dinheiro que seria destinado à compra de medicamentos para pessoas com deficiência. Aliados de Milei, incluindo sua irmã, Karina Milei, são investigados pelo caso.
Javier Milei e Jair Bolsonaro compartilham posições políticas associadas à direita, ao liberalismo econômico e à oposição à esquerda latino-americana. O ex-presidente brasileiro apoiou o argentino nas eleições do país vizinho e construíram uma sólida relação.
“Os interesses de Milei [em manter a relação com os Bolsonaro] são os mesmos dos Estados Unidos, de Israel e, em alguns casos, algo mais. Mas, no que diz respeito a essa aliança, para ele faz sentido. Milei pensa em termos de comunicação e, no campo da comunicação, a direita é um conceito muito genérico”, afirma Maurette.
Para o cientista político, Milei não pensa em termos políticos, mas em termos de comunicação. Por isso, um de seus maiores desejos é de que o Brasil siga polarizado.
Ainda asim, a relação entre Argentina e Brasil não corre perigo por causa dos governos de Lula e Milei.
"Um único governo adverso não é determinante. Acredito que eles permitiram que a relação prosperasse, o volume de comércio bilateral é próximo, ou bastante semelhante, ao que se viu nas gestões de Alberto Fernández e Mauricio Macri”, explica.
Ele lembra que a relação entre os presidentes não define, necessariamente, a relação bilateral. A parceria entre Argentina e Brasil já está muito consolidada, onde existe uma cooperação útil e genuína. Dessa forma, ela não desaparece, pois se sustenta nas relações entre as instituições.
“Atualmente, as conversas e negociações internacionais — com o Vietnã, com a Índia — são muito importantes, imagino que para o Brasil também sejam e, de fato, algo está acontecendo. Não me parece que isso tenha a ver com a relação entre Lula e Milei, mas sim com uma postura adotada pelo Brasil em relação a essas negociações”, afirma Maurette.
A Argentina é um dos principais parceiros comerciais do Brasil. As exportações de produtos brasileiros costumam ser maiores do que as importações, mas a corrente de comércio anual costuma alcançar, em média, US$ 30 bilhões.
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