O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) transformaram o primeiro debate do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, realizado pela Band no domingo (18), em uma disputa de acusações sobre corrupção, investigações policiais e relações familiares.
O embate envolveu desde os R$ 61 milhões transferidos por empresas ligadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro até os inquéritos relacionados a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, e à lobista Roberta Luchsinger.
A análise das declarações feita pelo O Brasilianista a partir da transcrição do confronto e de documentos e reportagens sobre os casos mostra que os candidatos misturaram fatos documentados, investigações em andamento, interpretações políticas e acusações sem comprovação.
A discussão também alcançou o assassinato de uma criança por um policial militar, a contratação de familiares de um ex-capitão associado ao crime organizado, a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e a condução da pandemia de covid-19.
Em diferentes momentos, os presidenciáveis apresentaram suspeitas como certezas ou omitiram informações importantes sobre os processos mencionados.
Dinheiro de Vorcaro
O financiamento do filme "Dark Horse", cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi um dos principais temas explorados por Lula.
O petista cobrou repetidamente explicações sobre os R$ 134 milhões negociados por Flávio com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e questionou o destino dos recursos.
O senador defendeu a legalidade da operação e afirmou que o dinheiro foi destinado à produção cinematográfica.
A relação financeira foi revelada em maio de 2026 pelo The Intercept Brasil, que obteve mensagens e documentos bancários sobre as negociações.
O valor de R$ 134 milhões correspondia ao investimento total discutido entre o parlamentar e o empresário, equivalente a aproximadamente US$ 24 milhões na cotação da época.
Entretanto, a documentação identificou transferências efetivas de aproximadamente R$ 61 milhões, distribuídas em seis operações realizadas entre fevereiro e maio de 2025.
Os pagamentos partiram da Entre Investimentos e Participações, empresa ligada a Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado nos Estados Unidos.
O fundo era controlado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio.
A participação desse intermediário despertou o interesse da Polícia Federal, que passou a investigar se parte dos recursos poderia ter sido utilizada para despesas diferentes da produção cinematográfica.
Flávio reconheceu ter solicitado financiamento privado ao ex-banqueiro, mas negou ter recebido valores pessoalmente.
Também afirmou que o investimento previa retorno financeiro e que Eduardo não foi beneficiado pelas transferências.
A defesa da operação sustentou que o dinheiro tinha origem privada e estava vinculado ao orçamento da produção.
Uma perícia apresentada pelos responsáveis pelo filme apontou despesas de aproximadamente US$ 13,3 milhões.
O documento, porém, não detalhou todos os fornecedores nem apresentou notas fiscais suficientes para demonstrar individualmente o destino de cada pagamento.
Durante o debate, Lula questionou a diferença entre os valores negociados e os efetivamente comprovados.
Flávio não apresentou uma prestação de contas detalhada no palco e ironizou o adversário, oferecendo um ingresso para assistir ao filme sobre o pai.
A existência das transferências foi documentada, mas a suspeita de utilização irregular do dinheiro continua sujeita à investigação.
O montante negociado de R$ 134 milhões não pode ser apresentado como integralmente pago.
Filme de Lula
Flávio reagiu às cobranças sobre "Dark Horse" acusando Vorcaro de ter financiado irregularmente um documentário sobre Lula.
O senador mencionou uma gravação de aproximadamente 20 segundos, atribuída ao ex-banqueiro e divulgada em outubro pela revista Veja, na qual haveria referência a R$ 30 milhões destinados ao Instituto Lula.
A acusação foi associada ao documentário "Lula", dirigido pelo cineasta norte-americano Oliver Stone e lançado em 2024.
Flávio sustentou que, diferentemente dos recursos destinados ao filme de Jair Bolsonaro, o suposto pagamento ao projeto sobre o petista teria ocorrido sem registro regular.
A gravação, entretanto, possui origem desconhecida. O conteúdo não aparece nas mensagens apreendidas no celular de Vorcaro durante sua primeira prisão, nem nas três propostas de colaboração premiada apresentadas formalmente pela defesa do empresário.
A Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e a defesa de Vorcaro também negaram a existência de depoimento no qual o ex-banqueiro tivesse confessado o pagamento de propina para financiar o documentário.
Não foram apresentados comprovantes bancários que demonstrassem a transferência mencionada pelo senador.
A diferença entre os dois casos está na documentação disponível. No financiamento de "Dark Horse", existem registros de transferências e mensagens sobre os valores negociados.
Na acusação envolvendo o filme de Lula, a informação pública se concentra em um áudio de procedência não esclarecida. O petista negou as acusações durante o confronto.
Roberta Luchsinger
Outra acusação recorrente de Flávio envolveu a lobista Roberta Luchsinger e sua relação com Fábio Luís Lula da Silva.
O senador utilizou declarações feitas por ela à CNN Brasil, no sábado (17), para questionar possíveis acessos privilegiados de Lulinha a integrantes do governo federal e sua participação em negócios investigados pela Polícia Federal.
Roberta é mencionada em apurações relacionadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, empresário apontado como um dos principais operadores de um esquema de descontos associativos irregulares em aposentadorias e pensões.
As investigações examinam pagamentos, contratos e a atuação de intermediários que teriam utilizado relações com agentes públicos para facilitar negócios.
Lulinha e Roberta aparecem em três inquéritos envolvendo suspeitas de corrupção e tráfico de influência.
A existência de investigações, entretanto, não equivale a denúncia apresentada pelo Ministério Público ou condenação judicial.
Durante o confronto, Flávio afirmou que Roberta teria admitido ser sócia do filho de Lula e sugeriu que o presidente estaria protegendo familiares.
A declaração atribuída à lobista foi distorcida. O material divulgado não sustentava a afirmação de que ela tivesse confessado a sociedade nos termos apresentados pelo senador.
Lula respondeu que os fatos deveriam ser apurados pela Polícia Federal e rejeitou a hipótese de interferir nas investigações.
Também afirmou que o filho teria de prestar esclarecimentos caso fosse convocado pela Justiça.
Fraudes no INSS
O escândalo envolvendo descontos indevidos em benefícios previdenciários também provocou acusações sobre a responsabilidade política pelo esquema.
Flávio atribuiu o funcionamento das fraudes à gestão Lula e mencionou a atuação de sindicatos e associações que teriam realizado cobranças sem autorização dos aposentados.
As irregularidades investigadas envolvem entidades que firmavam acordos para descontar mensalidades diretamente de benefícios previdenciários.
A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União passaram a examinar suspeitas de autorizações falsificadas, cadastros irregulares, repasses financeiros e participação de intermediários nas operações.
Os problemas, entretanto, não surgiram exclusivamente durante o terceiro governo Lula.
As apurações alcançam períodos anteriores, incluindo operações realizadas a partir de 2019, durante a administração Jair Bolsonaro.
O esquema atravessou diferentes gestões, e a identificação de responsabilidades depende da atuação específica de cada investigado.
No debate, Lula atribuiu à atual administração a descoberta das fraudes e mencionou operações policiais, prisões e medidas para ressarcir aposentados prejudicados.
Flávio, por sua vez, sustentou que o governo de seu pai havia adotado mecanismos para combater irregularidades e acusou parlamentares petistas de enfraquecer a fiscalização.
A discussão envolve mudanças legislativas realizadas ao longo dos últimos anos, além da atuação administrativa do próprio INSS e dos órgãos encarregados de acompanhar as entidades associativas.
Nenhuma dessas circunstâncias permite atribuir automaticamente a um presidente a participação pessoal nos desvios.
Empresa do senador
A discussão sobre o INSS também chegou a uma empresa da qual Flávio Bolsonaro é proprietário.
Lula questionou por que o parlamentar mantinha ligação com Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e sugeriu a existência de um escritório compartilhado.
Uma reportagem publicada pelo ICL em setembro identificou que a empresa Bravo Gafeno, ligada ao senador e atuante no setor de capacetes, dividia um endereço em Brasília com companhias associadas a Antunes.
O compartilhamento de endereço constitui um dado verificável, mas não comprova que os empresários mantivessem sociedade ou atuassem conjuntamente nas fraudes.
Flávio negou possuir escritório com o investigado. A relação entre a Bravo Gafeno e as empresas do Careca do INSS não era objeto de investigação formal da Polícia Federal naquele momento.
No domingo do debate, a corporação encaminhou ao Supremo Tribunal Federal um pedido para investigar Flávio por suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz, também ligado a apurações sobre o esquema previdenciário.
O pedido de investigação não representa denúncia criminal ou conclusão de que o senador tenha cometido lavagem de dinheiro.
Tampouco permite afirmar que uma eventual investigação relacionada a Willer Tomaz comprove sua participação nos descontos indevidos em aposentadorias.
Filho na Espanha
Flávio também questionou a permanência de Lulinha na Espanha e insinuou que recursos de origem irregular poderiam financiar seu padrão de vida.
O senador afirmou que o filho do presidente estaria fugindo das autoridades brasileiras e utilizou a expressão “Quem que tá sustentando seu filho?” para cobrar esclarecimentos.
Fábio Luís Lula da Silva passou a viver na Espanha e tornou-se alvo de questionamentos em razão de sua relação com pessoas investigadas no caso INSS.
O fato de residir no exterior, contudo, não caracteriza fuga, especialmente sem comprovação de descumprimento de ordem judicial, mandado de prisão ou obrigação de permanecer no Brasil.
Durante o debate, Lula afirmou que o filho deveria responder às investigações e que não impediria a atuação da Polícia Federal. Também sugeriu que a Justiça determinasse sua apresentação, caso fosse necessário.
O senador mencionou ainda o bairro onde Lulinha reside e comparou sua situação financeira à de outras pessoas de alto poder aquisitivo.
Não apresentou, entretanto, registros patrimoniais ou comprovantes de transferências que demonstrassem que o filho do presidente estivesse sendo sustentado com dinheiro desviado do INSS. A defesa de Lulinha nega irregularidades.
Eduardo nos EUA
Lula reagiu às referências ao filho mencionando Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, que passou a atuar politicamente nos Estados Unidos.
O presidente acusou o ex-deputado de incentivar medidas contra o Brasil e de buscar a intervenção do governo norte-americano em assuntos internos brasileiros.
Eduardo tornou-se uma das principais figuras da aproximação política entre o bolsonarismo e integrantes da administração Donald Trump.
Em 2026, participou de articulações relacionadas às tarifas comerciais impostas ou propostas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros, além de defender medidas internacionais em resposta a decisões de autoridades brasileiras.
Flávio também participou dessa movimentação. Em julho, encaminhou uma manifestação ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido como USTR, pedindo a suspensão ou o adiamento de tarifas adicionais de 25% sobre exportações brasileiras.
No documento, argumentou que a imposição das tarifas poderia beneficiar politicamente Lula, além de prejudicar empresas dos dois países.
O senador participou posteriormente de uma audiência em Washington, acompanhado de Eduardo.
A atuação dos irmãos foi interpretada pelo governo petista como tentativa de utilizar medidas econômicas estrangeiras para obter vantagens na disputa política brasileira.
Flávio apresentou a participação na audiência como uma iniciativa para defender empresas e exportadores nacionais.
Morte de criança
A acusação feita por Lula durante o debate da Band, no domingo (18), refere-se à atuação de Flávio Bolsonaro (PL) na defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado de matar Ana Clara Gomes Machado, de cinco anos, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
A menina foi atingida por disparos de fuzil em 2 de fevereiro de 2021, enquanto brincava na porta de casa, na comunidade de Monan Pequeno, acompanhada do irmão de dois anos.
Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), os tiros partiram da arma de Bruno Delaroli, que realizava patrulhamento na região.
A criança foi levada ao Hospital Estadual Azevedo Lima, mas não resistiu aos ferimentos.
Sua mãe, Cristiane Gomes, relatou que precisou implorar aos policiais para que prestassem socorro à filha.
O agente foi acusado pelo Ministério Público e passou a responder ao processo criminal, sendo posteriormente autorizado a aguardar o julgamento em liberdade.
Flávio Bolsonaro, que também é advogado, passou a integrar a equipe de defesa de Delaroli.
Em 2024, o senador assinou um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para contestar a decisão da Justiça fluminense que havia determinado que o policial fosse submetido ao Tribunal do Júri.
A iniciativa buscava reverter a decisão de levar o acusado a julgamento popular, mas o recurso foi rejeitado. O processo continuou sem uma condenação definitiva identificada nas informações consultadas.
Em setembro, o caso foi apresentado no documentário "O julgamento que nunca aconteceu", produzido pelo projeto Revelando em parceria com organizações e veículos de comunicação.
A produção contou com a participação da atriz Camila Pitanga e depoimentos de familiares de Ana Clara, incluindo sua mãe, que cobrou a responsabilização dos envolvidos na morte da criança.
No confronto presidencial, Lula questionou por que Flávio havia atuado judicialmente em favor do agente acusado.
O senador respondeu que a atividade de defesa é um direito assegurado pela Constituição e contestou a maneira como o adversário se referia ao policial antes de uma decisão definitiva.
“Você não pode criminalizar a advocacia, Lula”, declarou. Em seguida, acrescentou que Delaroli ainda não havia sido julgado.
Marielle Franco
Outro ponto levantado por Lula envolveu o emprego de familiares de um homem associado ao grupo criminoso conhecido como Escritório do Crime, investigado por assassinatos no Rio de Janeiro.
O presidente fez referência à contratação da mãe e da ex-mulher de Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) apontado como integrante da organização.
Adriano esteve ligado a investigações sobre atividades de milícias e grupos de extermínio no estado.
Seu nome ganhou projeção nacional durante as apurações sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, ocorrido em 14 de março de 2018.
Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano, e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, então esposa dele, foram empregadas no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
As contratações passaram a ser examinadas no contexto das investigações sobre movimentações financeiras envolvendo antigos funcionários do parlamentar.
A associação familiar com Adriano não demonstra que as duas mulheres participaram de atividades criminosas.
Também não significa que Flávio tenha participado do assassinato de Marielle ou de Anderson, crimes cuja responsabilização depende das provas e decisões dos processos correspondentes.
No debate, a acusação foi utilizada por Lula para questionar a proximidade política do adversário com pessoas relacionadas a investigações sobre milícias.
O senador respondeu associando o PT a antigos escândalos de corrupção, sem apresentar esclarecimentos específicos sobre as contratações mencionadas.
Marcas das balas
Lula retomou outra controvérsia envolvendo a atuação parlamentar de Flávio na área de segurança pública.
O presidente acusou o senador de defender medidas que dificultariam o rastreamento de munições utilizadas em crimes.
A discussão sobre identificação de armas e munições envolve regras administrativas de fabricação, comercialização e rastreamento estabelecidas pelo Exército e por órgãos responsáveis pela fiscalização de produtos controlados.
Durante o governo Jair Bolsonaro, alterações nas normas de acesso a armamentos e de rastreabilidade provocaram disputas entre autoridades, entidades de segurança pública e organizações de direitos humanos.
Parte dessas mudanças foi questionada judicialmente por possível impacto na identificação de armas utilizadas em crimes.
No confronto da Band, Lula vinculou diretamente o adversário à retirada de marcas de identificação.
Flávio negou ter defendido a medida e atribuiu o crescimento do poder das facções ao tráfico internacional de armas e à fiscalização insuficiente das fronteiras.
Armas e munições
A política de flexibilização do acesso a armas durante a gestão Jair Bolsonaro também foi alvo de críticas de Lula.
O presidente afirmou que o governo anterior havia autorizado mais de um milhão de armas e um bilhão de munições, sugerindo que parte desses produtos poderia ter chegado às organizações criminosas.
Entre 2019 e 2022, o governo Bolsonaro editou decretos que ampliaram possibilidades de aquisição de armas e munições por diferentes categorias, incluindo colecionadores, atiradores e caçadores.
A política provocou crescimento no número de registros e foi alvo de questionamentos judiciais.
Lula modificou parte dessas regras a partir de 2023, com medidas destinadas a restringir calibres, quantidades e modalidades de acesso.
O governo também realizou recadastramento de armas e reorganizou competências administrativas relacionadas à fiscalização.
Os números mencionados no debate, entretanto, precisam distinguir registros de armas, aquisições efetivas, autorizações e quantidades de munições comercializadas.
Esses indicadores não representam a mesma informação, e sua soma não permite concluir automaticamente quantos produtos chegaram ao crime organizado.
Flávio afirmou que o problema central estava nas armas ilegais que entram pelas fronteiras.
Lula respondeu que a ampliação do mercado legal também exigia fiscalização sobre desvios e circulação irregular.
Licença-maternidade
A acusação de Lula sobre o voto de Flávio Bolsonaro contra a ampliação da licença-maternidade é verdadeira.
Em 31 de março de 2009, quando exercia mandato de deputado estadual no Rio de Janeiro, o parlamentar foi o único a votar contra uma proposta de Marcelo Freixo (PSOL) que ampliava para seis meses o afastamento remunerado das servidoras públicas após o nascimento dos filhos.
A votação terminou com 45 votos favoráveis e um contrário. Na época, Flávio justificou sua posição alegando preocupação com uma possível redução das oportunidades de emprego para mulheres.
Durante o debate da Band, não apresentou essa justificativa e preferiu mencionar sua esposa e suas filhas ao responder à cobrança de Lula.
Votos dos presos
A população carcerária também foi utilizada no confronto como argumento para questionar o posicionamento político de Lula.
Flávio afirmou que 73% dos presos brasileiros haviam votado no petista e sugeriu que esse apoio revelaria uma suposta identificação do presidente com criminosos.
O voto de pessoas privadas de liberdade é permitido a presos provisórios que não tiveram seus direitos políticos suspensos por condenação criminal definitiva.
Já os condenados com sentença transitada em julgado ficam impedidos de votar enquanto durarem os efeitos da condenação, conforme a Constituição Federal.
Dessa forma, pesquisas ou resultados eleitorais obtidos em estabelecimentos prisionais não representam a preferência de toda a população encarcerada.
As unidades de votação instaladas nesses locais atendem principalmente presos provisórios, além de outros eleitores autorizados pela Justiça Eleitoral.
A generalização apresentada por Flávio desconsidera essa diferença jurídica. O senador também não identificou a eleição, o levantamento ou a metodologia que sustentariam o percentual de 73% mencionado no debate.
Lula respondeu ironizando a situação do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal em processo relacionado à tentativa de golpe de Estado.
A condenação definitiva do ex-presidente suspende seus direitos políticos nos termos constitucionais, independentemente das preferências eleitorais atribuídas a outros presos.
Condenação de Lula
Flávio Bolsonaro (PL) retomou o histórico judicial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o debate da Band, realizado no domingo (18), para questionar a anulação das condenações impostas ao presidente na Operação Lava Jato.
O senador acusou o adversário de ter sido beneficiado por ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e sustentou que ele havia sido condenado em diferentes instâncias antes de recuperar seus direitos políticos.
“Você foi condenado em primeira instância. Você foi condenado em segunda instância, você foi condenado no STJ”, declarou.
A principal condenação ocorreu no processo do tríplex do Guarujá, no litoral de São Paulo.
O Ministério Público Federal (MPF) acusava Lula de receber vantagens indevidas da construtora OAS, por meio da reserva e de reformas de um apartamento no Condomínio Solaris, como contrapartida por contratos envolvendo a Petrobras.
A defesa negava que o imóvel pertencesse ao petista ou que ele tivesse recebido propina.
Em julho de 2017, o então juiz federal Sergio Moro condenou Lula a nove anos e seis meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Em janeiro de 2018, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) confirmou a condenação e aumentou a pena para 12 anos e um mês.
Com a decisão, Lula foi preso em 7 de abril daquele ano, após determinação de Moro, e permaneceu detido na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.
A condenação também levou ao indeferimento de sua candidatura à Presidência pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com base na Lei da Ficha Limpa.
Na eleição, o PT substituiu Lula por Fernando Haddad, que disputou o segundo turno contra Jair Bolsonaro.
O processo chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) em abril de 2019. A Quinta Turma manteve a condenação, mas reduziu a pena para oito anos, dez meses e 20 dias, por considerar inadequados os critérios utilizados pelo TRF-4 para aumentar a punição.
Entretanto, o STF não confirmou a condenação criminal de Lula, diferentemente do que a declaração de Flávio pode sugerir ao mencionar todas as instâncias.
O Supremo examinou questões relacionadas à legalidade da prisão, à competência da Justiça Federal de Curitiba e à imparcialidade de Moro.
Lula também foi condenado no processo do sítio de Atibaia, no interior paulista. A acusação sustentava que empreiteiras haviam custeado reformas no imóvel frequentado pelo petista e por seus familiares em troca de favorecimento em contratos com a Petrobras.
Em fevereiro de 2019, a juíza Gabriela Hardt impôs pena de 12 anos e 11 meses. O TRF-4 confirmou a condenação em novembro daquele ano e aumentou a punição para 17 anos, um mês e dez dias.
A defesa contestava as acusações e a competência da Justiça Federal de Curitiba para conduzir o processo.
A situação judicial começou a mudar em novembro de 2019, quando Lula deixou a prisão após o STF modificar seu entendimento sobre o cumprimento antecipado de penas.
Por seis votos a cinco, a Corte estabeleceu que a execução da condenação, como regra, deveria começar depois do trânsito em julgado, quando não existem mais recursos possíveis.
A soltura não anulou as condenações naquele momento, mas afastou a possibilidade de manter o petista preso com base apenas na decisão de segunda instância.
A anulação ocorreu em março de 2021, quando o ministro Edson Fachin concluiu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não possuía competência para julgar os processos relacionados ao tríplex, ao sítio de Atibaia e a duas ações envolvendo o Instituto Lula.
A decisão considerou que os fatos atribuídos ao petista não tinham relação direta suficiente com os desvios investigados na Petrobras para justificar sua tramitação perante o juízo responsável pela Lava Jato.
Em abril, o plenário do STF confirmou o entendimento por oito votos a três e determinou a remessa dos casos à Justiça Federal do Distrito Federal.
O Supremo também examinou a conduta de Sergio Moro. Em 23 de março de 2021, a Segunda Turma reconheceu que o ex-juiz havia atuado com parcialidade no processo do tríplex.
O entendimento foi mantido pelo plenário em junho, por sete votos a quatro, com a anulação dos atos decisórios praticados pelo magistrado.
A discussão envolveu o tratamento dispensado à defesa, a condução processual e circunstâncias que comprometeram a imparcialidade exigida de um juiz.
Posteriormente, o ministro Gilmar Mendes estendeu os efeitos da suspeição a outras ações contra Lula, incluindo o processo do sítio de Atibaia.
As decisões tiveram consequências diferentes de uma absolvição por insuficiência de provas.
Ao reconhecer a incompetência de Curitiba e a parcialidade de Moro, o STF invalidou atos processuais e condenações, sem realizar um novo julgamento sobre a autoria dos crimes atribuídos a Lula.
Isso significa que as sentenças perderam sua validade jurídica, mas o Supremo não declarou, nesses julgamentos, que todos os fatos investigados eram inexistentes.
O processo do tríplex não voltou a resultar em condenação. Em janeiro de 2022, a juíza Pollyanna Alves, da 12ª Vara Federal Criminal de Brasília, determinou seu arquivamento após pedido do MPF, que reconheceu a prescrição dos crimes.
A anulação dos atos anteriores afetou os marcos de contagem do prazo prescricional e, como Lula já tinha mais de 70 anos, a legislação determinava a redução desse prazo pela metade.
Com isso, foi extinta a possibilidade de punição no caso, sem uma nova sentença de mérito sobre as acusações.
Durante o confronto, Flávio também acusou Lula de ter sido beneficiado por decisões de ministros que considerava próximos ao presidente.
A composição do STF, contudo, inclui magistrados indicados por diferentes governos, e as decisões de 2021 foram tomadas de maneira colegiada, com votos favoráveis e contrários à anulação.
O ministro Kassio Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro, votou contra a declaração de incompetência de Curitiba, mas participou da maioria que manteve o reconhecimento da suspeição de Moro no processo do tríplex.
A afirmação de Flávio de que Lula foi condenado em primeira e segunda instâncias e teve a condenação do tríplex mantida pelo STJ é verdadeira quanto ao histórico dos julgamentos.
O contexto omitido é que essas condenações foram posteriormente anuladas pelo STF e não possuem validade jurídica atualmente.
Mensalão e Petrobras
O senador também acusou Lula de manter no governo pessoas associadas a escândalos de corrupção investigados durante administrações petistas anteriores.
Flávio mencionou o mensalão e os desvios envolvendo contratos da Petrobras, apontados por ele como exemplos de continuidade de grupos políticos.
O mensalão foi investigado na Ação Penal 470, julgada pelo STF a partir de 2012. O processo resultou em condenações de dirigentes partidários, empresários e outros envolvidos em um esquema de compra de apoio parlamentar e movimentação irregular de recursos.
Já a Operação Lava Jato investigou suspeitas de corrupção em contratos públicos, especialmente na Petrobras, a partir de 2014.
A apuração atingiu políticos de diferentes partidos, executivos de empreiteiras e dirigentes de empresas estatais.
Ao longo dos anos, decisões judiciais relacionadas à operação foram revistas ou anuladas em diferentes instâncias.
Também houve alterações na situação penal de investigados e condenados, o que impede tratar todos os nomes originalmente associados aos processos como responsáveis por crimes definitivamente comprovados.
No debate, Flávio não apresentou uma relação individualizada de servidores ou ministros que estariam atualmente exercendo cargos públicos apesar de condenações válidas.
Pandemia de covid
A gestão da pandemia de covid-19 provocou outro embate entre os candidatos. Lula criticou a resposta do governo Jair Bolsonaro à crise sanitária, mencionando a falta de vacinas e de oxigênio e o número de mortes registrado no Brasil.
O país acumulou mais de 700 mil mortes atribuídas à covid-19 desde o início da pandemia.
A maior parte ocorreu entre 2020 e 2022, período em que Jair Bolsonaro ocupava a Presidência.
A condução federal da emergência foi examinada pela CPI da Pandemia, instalada no Senado em 2021.
O relatório final da comissão apontou falhas na coordenação das medidas sanitárias, na negociação para aquisição de vacinas e na resposta a situações de emergência, incluindo a crise de oxigênio em Manaus, em janeiro de 2021.
A investigação parlamentar também reuniu documentos sobre ofertas feitas por fabricantes de vacinas ao governo brasileiro, além de declarações públicas de Jair Bolsonaro sobre tratamentos sem eficácia comprovada e medidas de prevenção.
Flávio reconheceu dificuldades na gestão sanitária do pai e afirmou que o governo anterior não alcançou os resultados esperados.
“Tivemos uma pandemia, dois anos de pandemia, uma coisa nova que ninguém sabia direito como enfrentar”, disse.
O senador também sustentou que o governo Bolsonaro adquiriu as vacinas utilizadas posteriormente por Lula.
A compra de imunizantes, entretanto, envolveu contratos firmados em diferentes períodos e a atuação de instituições como o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz.
Dados da economia
Os candidatos também utilizaram indicadores econômicos para atacar os resultados dos governos adversários.
Flávio atribuiu o endividamento das famílias, a elevação dos juros e as dificuldades de consumo à política fiscal de Lula.
O presidente respondeu apresentando resultados sobre crescimento econômico, inflação dos alimentos e poder de compra do salário mínimo.
Lula afirmou que o PIB brasileiro somente voltou a crescer acima de 3% durante seu terceiro mandato.
A declaração desconsidera anos de crescimento superior a esse percentual em administrações anteriores, inclusive nos governos Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro.
Em relação à inflação dos alimentos, o presidente apresentou uma comparação entre o atual mandato e a gestão anterior.
A tendência mencionada encontrava respaldo nos índices oficiais, mas os percentuais utilizados não correspondiam exatamente aos resultados apurados pelo IBGE.
O petista também afirmou que o salário mínimo passou a permitir a compra de 2,2 cestas básicas.
Em agosto de 2026 o piso nacional de R$ 1.621 correspondia a aproximadamente 1,8 cesta básica calculada com os preços de São Paulo.
O resultado superava o poder de compra observado no mesmo mês de 2022, mas não alcançava o número apresentado no debate.
Flávio, por sua vez, atribuiu ao governo Lula uma despesa de R$ 7 bilhões com viagens presidenciais.
A quantia utilizada pelo senador correspondia a gastos mais amplos de órgãos da administração federal, e não exclusivamente a deslocamentos do presidente e da primeira-dama.
Em 2023, por exemplo, o total de despesas com viagens do governo federal chegou a aproximadamente R$ 1,32 bilhão, enquanto os gastos diretamente associados à Presidência foram de R$ 30,8 milhões.
Bolívia e Argentina
A política externa também foi utilizada para questionar as relações internacionais dos adversários.
Lula perguntou a Flávio se pretendia adotar medidas semelhantes às do presidente argentino Javier Milei, conhecido por sua política de redução de gastos públicos e reorganização administrativa.
A referência ao governo argentino foi utilizada pelo petista para associar uma eventual administração Bolsonaro a cortes de despesas e mudanças nos programas sociais.
Flávio respondeu criticando governos de esquerda na América Latina e mencionou as relações diplomáticas de Lula com líderes da Venezuela, Nicarágua e Irã.
Os candidatos apresentaram esses vínculos como indícios das escolhas políticas do adversário.
Entretanto, relações diplomáticas entre Estados não demonstram, isoladamente, concordância com todas as medidas adotadas por governos estrangeiros.
Também não é possível concluir que Flávio implementaria integralmente o programa econômico de Milei apenas pela proximidade política entre integrantes da direita brasileira e argentina.
Tarifas americanas
Lula acusou a família Bolsonaro de atuar em favor dos interesses dos Estados Unidos e questionou se Flávio pretendia conceder vantagens a empresas norte-americanas na exploração de minerais estratégicos brasileiros.
O debate ocorreu após meses de tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos, provocada pela proposta de novas tarifas sobre produtos nacionais e pela atuação de integrantes do governo Donald Trump em assuntos relacionados à política brasileira.
Flávio participou de discussões em Washington e argumentou que procurava evitar prejuízos aos exportadores brasileiros.
Durante o confronto, acusou o governo Lula de não enviar representantes a uma audiência pública realizada pelo USTR, órgão responsável pela política comercial norte-americana.
A audiência mencionada era destinada principalmente à manifestação de agentes privados, enquanto autoridades brasileiras mantiveram outros canais de negociação com representantes norte-americanos.
Lula também mencionou a possibilidade de exploração de terras raras e minerais críticos por companhias estrangeiras.
A existência de investimentos internacionais nesse setor não equivale à transferência automática de soberania sobre as reservas minerais, cuja exploração depende de concessões, autorizações e regras nacionais.
Sigilos bancários
Após sucessivas acusações sobre corrupção, Lula propôs que os dois candidatos autorizassem a divulgação de suas informações bancárias e telefônicas, incluindo dados de familiares, para permitir uma análise pelas autoridades antes do segundo turno.
O presidente sugeriu encaminhar a documentação aos responsáveis pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Tribunal Superior Eleitoral.
A medida foi apresentada como uma forma de esclarecer suspeitas relacionadas às relações financeiras dos candidatos.
Flávio afirmou não ter nada a esconder, mas questionou a proposta e voltou a mencionar a suposta existência de pagamentos não declarados ao Instituto Lula.
Durante o debate, não houve formalização de um acordo para disponibilizar os dados.
A quebra de sigilo determinada judicialmente possui regras e requisitos próprios. Já o fornecimento voluntário de informações pessoais pode ocorrer mediante autorização dos titulares, observados os direitos de terceiros e as condições legais de acesso.
A disponibilização dos registros não substituiria investigações policiais, perícias ou procedimentos judiciais.
Também não demonstraria automaticamente a inexistência de crimes, uma vez que movimentações suspeitas podem envolver empresas, intermediários e outras pessoas.
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