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Justiça

A amiga de Lulinha e a embaixada

Itamaraty confirmou que representação brasileira em Madri ajudou Roberta Luchsinger na busca por escolas

Roberta Luchsinger
Episódio se soma a viagens, pagamentos e negócios analisados pela PF Foto: reprodução

A Embaixada do Brasil em Madri ajudou Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, a buscar escolas para os filhos e a organizar a mudança da família para a Espanha em 2025.

O Ministério das Relações Exteriores confirmou que o setor educacional da representação brasileira forneceu contatos de escolas à empresária.

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Mensagens obtidas em investigação da Polícia Federal mostram que o então embaixador Orlando Leite Ribeiro chegou a oferecer uma funcionária para acompanhar visitas às instituições.

Atualmente, Roberta aparece em três inquéritos nos quais a PF apura suspeitas de corrupção e tráfico de influência relacionadas à sua atuação junto ao governo federal e à proximidade com Lulinha.

A empresária nega irregularidades e sustenta que desenvolvia atividade profissional de consultoria e representação institucional.

Ajuda em Madri

As mensagens mostram que Roberta procurou Orlando enquanto organizava a mudança para a capital espanhola.

O diplomata havia conhecido a lobista e Renata Abreu Moreira, mulher de Lulinha, em um evento de promoção comercial realizado pela própria embaixada em setembro de 2024.

Meses depois, a representação passou a auxiliá-las na busca por escolas. Orlando ofereceu a possibilidade de montar uma agenda de visitas e disponibilizar uma funcionária da embaixada para acompanhá-las.

Em março de 2025, depois de receber uma gravata de Roberta e Renata, o então embaixador agradeceu e afirmou que estava sendo um prazer ajudá-las no processo de instalação em Madri. A lobista respondeu que o presente era apenas uma lembrança.

As conversas também incluem orientações sobre bairros e uma visita à Universidade de Salamanca.

Já em junho, o diplomata escreveu que a embaixada possuía uma van caso elas precisassem de auxílio para ver móveis.

O Itamaraty sustenta que não houve cessão do veículo e afirma que fornecer informações e contatos locais a brasileiros integra a rotina das representações diplomáticas. A pasta confirmou, entretanto, a ajuda prestada pelo setor educacional.

Viagem milionária

A atuação de Roberta na instalação de Lulinha no exterior aparece poucos dias depois de outra revelação sobre a relação financeira entre os dois.

Documentos encontrados pela PF no celular da lobista indicam que ela organizou uma viagem de Lulinha e sua família pela Europa em janeiro de 2025.

Um orçamento localizado pelos investigadores calculava R$ 1,868 milhão em despesas para o grupo, incluindo hospedagens de alto padrão, chef e mordomo.

Com outros gastos, como transporte aéreo particular, a conta poderia superar R$ 2 milhões.

Roberta já reconheceu publicamente a amizade próxima com Lulinha. Em entrevista concedida em agosto, afirmou que os dois são amigos desde antes do atual mandato de Lula e negou que a relação fosse utilizada para obter vantagens dentro do governo.

As viagens, contudo, aparecem entre os elementos examinados pela PF para entender se havia uma relação econômica entre a lobista e o filho do presidente.

“Eu sou”

Outro elemento encontrado no celular de Roberta chamou a atenção dos investigadores.

Em mensagens relacionadas à prospecção de negócios junto ao governo federal, a lobista escreveu “Eu sou o Fábio”, em referência a Lulinha.

Para a PF, os diálogos indicavam que ela aparentava possuir autorização para atuar em nome dele.

O Brasilianista já mostrou que a investigação também encontrou conversas nas quais Roberta discutia negócios nas áreas de saúde e tecnologia.

Em uma das frentes, ela pretendia obter remuneração equivalente a 20% em um projeto relacionado à comercialização de produtos de cannabis medicinal para o governo federal.

A defesa de Lulinha sustenta que ele não pode ser responsabilizado por declarações feitas pela amiga e nega participação em esquema de tráfico de influência.

Roberta afirma que sua atuação profissional envolvia prospecção e intermediação regular de negócios.

Portas abertas

Levantamento já repercutido pelo O Brasilianista identificou 42 entradas em órgãos federais, das quais 41 não apareceram nas agendas públicas das autoridades visitadas.

Foram registradas passagens pelo Palácio do Planalto, Ministério da Saúde, Ministério do Desenvolvimento Social e BNDES.

O Ministério do Desenvolvimento Social concentrou 17 visitas. Outras 16 ocorreram no Ministério da Saúde.

Em uma delas, Roberta esteve acompanhada de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, e de representantes envolvidos em um projeto de cannabis medicinal.

Em outra frente, acompanhou empresários interessados em financiamento do BNDES para um projeto de hidrogênio verde. O banco informou que o financiamento não avançou.

Dinheiro vivo

Em setembro, a investigação avançou sobre pagamentos atribuídos a Roberta. Segundo a PF, mensagens indicam que ela orientou seu motorista a realizar depósitos para integrantes do Ministério do Desenvolvimento Social.

Os investigadores também encontraram referências a dinheiro em espécie mantido em malas na residência da lobista.

Os repasses teriam alcançado Ranniêr Costa Ciríaco, então secretário-executivo adjunto da pasta, e José Martinho Ferreira de Araújo, ligado ao cerimonial do ministro Wellington Dias.

Meses depois, o ministério assinou contrato com uma empresa representada pela lobista.

A pasta rejeita qualquer relação entre os pagamentos, reuniões e procedimentos administrativos e afirma que as contratações seguiram critérios técnicos.

Mensagens encontradas pela PF também mencionam presentes atribuídos por Roberta a Swedenberger Barbosa, ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde e atual integrante da Presidência.

Entre os itens citados estavam uma pintura avaliada em R$ 82,9 mil e um relógio de R$ 66 mil. Berger negou categoricamente ter recebido qualquer vantagem indevida da empresária.

Negócios federais

O Brasilianista destacou que a 3Structure IT, cujo proprietário contratou Roberta para prospectar negócios com o poder público, acumulou mais de R$ 81 milhões em contratos e aditivos com órgãos federais.

A PF investiga se Lulinha participava ou se beneficiava da atuação da lobista.

A empresa nega favorecimento e afirma que os contratos decorreram de procedimentos regulares.

O governo também afirma que as reuniões mantidas por Roberta não determinaram resultados de licitações.

Em outra frente, a PF investiga se ela intermediou negócios ligados aos Correios, após encontrar uma minuta que previa comissão equivalente a 50% sobre determinadas vendas.

Origem familiar

Roberta Luchsinger construiu durante anos a imagem de herdeira de uma família ligada ao Credit Suisse.

Documentos da CPMI do INSS a identificaram como neta de Peter Paul Arnold Luchsinger, apresentado como ex-acionista do banco suíço.

Essa versão, porém, passou a ser questionada em 2026. Uma apuração do Fantástico localizou o registro de casamento de Pedro Paulo Arnaldo Luchsinger, apontado como avô de Roberta, segundo o qual ele teria nascido no Rio de Janeiro, em 1927, e trabalhado como comerciante e proprietário de uma lavanderia.

Roberta manteve a versão de que o avô nasceu na Suíça, mas afirmou não possuir documentos para comprová-la.

O pai da lobista, Roberto Pedro Paulo Luchsinger, aparece diretamente nas movimentações financeiras examinadas na investigação sobre as fraudes do INSS.

Ele era sócio de Roberta na RL Consultoria e Intermediações, empresa que, segundo dados de Relatórios de Inteligência Financeira citados pela CPMI, recebeu R$ 18,27 milhões no período analisado.

Desse montante, ao menos R$ 1,5 milhão teria vindo da Brasília Consultoria Empresarial, ligada a Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.

Os mesmos registros indicam que Roberta recebeu R$ 1,233 milhão da RL Consultoria e o pai, R$ 1,449 milhão.

A Polícia Federal também identificou cinco pagamentos de R$ 300 mil feitos à empresa em operações relacionadas ao grupo investigado.

A CPMI tratou esses fluxos como parte da apuração sobre a atuação de Roberta e suas conexões com o núcleo de Antunes. 

A vida pessoal de Roberta também a ligou a outro personagem conhecido de investigações federais.

Ela foi casada com Protógenes Queiroz, ex-delegado da Polícia Federal que comandou a Operação Satiagraha. O casamento terminou em 2014.

Protógenes foi condenado definitivamente pelo Supremo Tribunal Federal por violação qualificada de sigilo funcional.

Segundo o STF, ele revelou a jornalistas informações sigilosas e detalhes sobre diligências da Operação Satiagraha.

A pena foi fixada em dois anos e seis meses, em regime inicial aberto, além de multa, e posteriormente convertida em prestação de serviços comunitários e limitação de fim de semana.

O tribunal também decretou a perda do cargo de delegado da Polícia Federal. O trânsito em julgado foi reconhecido em 2015.

Em 2026, Protógenes voltou ao STF com uma revisão criminal relacionada à condenação. O pedido foi protocolado em maio e passou a tramitar sob relatoria do ministro Flávio Dino.

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