O cerco se fecha cada vez mais sobre a amiga de Lulinha. Roberta Luchsinger, lobista e empresária de 41 anos, já é alvo de três inquéritos da Polícia Federal (PF) e segue no radar de algumas apurações das autoridades.
Ela é investigada por suspeitas de corrupção e tráfico de influência ligadas à sua atuação junto ao governo federal e à proximidade com Fábio Luís Lula da Silva, o filho do presidente.
Vale lembrar que ela, assim como Lulinha, nunca foram oficialmente denunciados. A lobista nega irregularidades e sustenta que fazia consultoria e representação institucional. Já a defesa de Lulinha nega participação em qualquer esquema e diz que ele não pode ser responsabilizado por declarações da amiga.
Ainda assim, os dois estão na mira das autoridades que analisam a fraude do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), pela proximidade de ambos ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS.
Quem é Roberta Luchsinger?
Mineira, formada em Direito e moradora de Higienópolis, em São Paulo, Luchsinger dirige a RL Consultoria e Intermediações e a produtora Elephant 2. Casou-se com o ex-delegado Protógenes Queiroz, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por violação de sigilo funcional na Operação Satiagraha. O casamento terminou em 2014, e os dois têm uma filha.
Durante anos, ela cultivou a imagem de herdeira de uma família ligada ao Credit Suisse. Documentos da CPMI do INSS a identificaram como neta de Peter Paul Arnold Luchsinger, apresentado como ex-acionista do banco suíço.
Essa versão, porém, passou a ser questionada em 2026, quando uma apuração do Fantástico localizou o registro de casamento de Pedro Paulo Arnaldo Luchsinger, apontado como avô de Roberta, afirmando nascimento no Rio de Janeiro, em 1927, e que ele teria trabalhado como comerciante e proprietário de uma lavanderia.
Vale lembrar que o pai da lobista, Roberto Pedro Paulo Luchsinger, aparece diretamente nas movimentações financeiras examinadas na investigação sobre as fraudes do INSS. Ele era sócio da RL Consultoria, que recebeu R$ 18,27 milhões no período analisado pela CPMI do INSS.
A relação com Lulinha e o PT
A proximidade de Roberta Luchsinger com o PT é antiga. Em 2017, anunciou uma doação de R$ 500 mil em dinheiro e bens a Luiz Inácio Lula da Silva, mas foi impedida pela Justiça por causa de uma dívida.
Em 2018, foi candidata a deputada estadual pelo PT, com 14.134 votos, e depois se filiou ao PSB. Em 2022, fez campanha por Lula e aliados.
A lobista reconhece a amizade com o filho do atual presidente e afirma que ela é anterior ao atual mandato de Lula. Para a PF, a relação pode ter ido além de uma simples amizade. Os investigadores falam em possível "sociedade oculta" entre Roberta, Lulinha e Fernando Bittar, ex-sócio dele, e em "comunhão de interesses econômicos". Em uma das representações, chamaram o filho do presidente de possível "beneficiário indireto" da atuação da empresária.
Em mensagens ligadas à prospecção de negócios, Roberta escreveu "Eu sou o Fábio", frase que a PF interpretou como sinal de que ela se sentia autorizada a falar em nome dele. O trio se chamava "Musaranhos", nome de um grupo de WhatsApp.
A PF também examina viagens. Documentos achados no celular de Roberta indicam que ela organizou uma viagem de Lulinha e da família pela Europa em janeiro de 2025, com orçamento de R$ 1,868 milhão.
Há ainda uma viagem à África prevista para julho de 2024, de cerca de US$ 20 mil. A defesa de Lulinha afirma que não foi demonstrado que o dinheiro tenha bancado despesas dele.
Dinheiro e negócios
A PF aponta que Roberta recebeu ao menos R$ 1,5 milhão para atuar nos interesses do Careca do INSS. A RL Consultoria teria recebido R$ 18,27 milhões no período analisado pela CPMI do INSS.
Outro eixo é a 3Structure IT, empresa de Cleber Ribas de Oliveira que contratou Roberta para prospectar negócios com o poder público. A PF identificou quase R$ 3 milhões pagos ao grupo dela em três anos, com contrato de "success fee" discutido em março de 2023. A 3Structure soma mais de R$ 81 milhões em contratos e aditivos com órgãos federais, a maior parte no Ministério do Desenvolvimento Social.
A empresa e o ministério negam favorecimento e dizem que os procedimentos foram regulares. A PF investiga se a atuação de Roberta teve relação com esses contratos.
Em outra frente, ela buscavaparticipação de 20% em projeto de venda de cannabis medicinal ao Ministério da Saúde, parte de uma tratativa de R$ 627 milhões. Testes de dengue e negócios com a Iquego também foram discutidos, e a PF apura ainda uma minuta ligada aos Correios com comissão de 50%. Nenhuma dessas negociações avançou na Saúde, segundo o ministério.
As portas do governo
Levantamento revelado por O Brasilianista contou 42 entradas de Roberta em órgãos federais, 41 sem registro nas agendas públicas. O MDS concentrou 17 visitas, e o Ministério da Saúde, 16. O ministério de Wellington Dias disse que ele tem amizade antiga com a empresária e que os encontros não resultaram em atos administrativos a favor dela.
Mensagens analisadas pela PF indicam que, em 2 de junho de 2023, Roberta orientou seu motorista e auxiliar, Ulisses Barbosa, a distribuir R$ 60 mil em espécie entre contas de Ranniêr Costa Ciríaco, então secretário-executivo adjunto do MDS, de José Martinho Ferreira de Araújo, do cerimonial do ministro, e de uma parente dele.
Meses depois, a 3Structure assinou contrato de R$ 31,2 milhões com a pasta. O ministério rejeita qualquer relação entre os fatos, e a empresa diz desconhecer os pagamentos. A PF ainda apura a finalidade dos repasses, que, isoladamente, não demonstram contrapartida.
A PF também identificou R$ 217 mil em despesas pagas por ela a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete pessoal de Lula. A defesa dele fala em empréstimo já quitado.
Há ainda presentes atribuídos a Swedenberger Barbosa, o Berger, hoje no gabinete adjunto da Presidência, entre eles uma pintura de R$ 82,9 mil e um relógio de R$ 66 mil. Ele nega ter recebido vantagem indevida.
Lula disse em agosto, no Jornal Nacional, que não conhecia Roberta. A campanha esclareceu depois que fotos em eventos públicos não indicam relação pessoal ou política. Haddad afirmou que nunca teve relação com ela.
Madri e as dívidas
A revelação mais recente é que a Embaixada do Brasil em Madri ajudou Roberta a buscar escolas para os filhos e a organizar a mudança para a Espanha em 2025. O Itamaraty confirmou a ajuda do setor educacional.
Mensagens mostram que o então embaixador Orlando Leite Ribeiro conheceu Roberta e Renata Abreu Moreira, mulher de Lulinha, em evento da embaixada em setembro de 2024. O ministério nega que tenha cedido uma van e diz que informar brasileiros faz parte da rotina diplomática.
Em contraste com a rotina de viagens exibida nas redes sociais, Roberta acumula nove processos por dívidas em São Paulo e Minas Gerais e cerca de R$ 1,1 milhão em débitos tributários de suas duas empresas. Os casos incluem aluguel atrasado, mensalidades escolares e uma fazenda dada em garantia em um projeto de filme que não saiu do papel. As cobranças judiciais não provam as suspeitas da PF.
O lado de Lulinha
Apesar de ser investigado em três inquéritos do STF, além de outras apurações feitas em outros anos, a Lulinha nunca virou réu. Ele nunca chegou a ser formalmente acusado, por falta de provas concretas que imputassem crime ao filho do presidente.
Vale lembrar que os escândalos com o filho mais velho do presidente são fomentados próximos aos anos eleitorais. Além disso, indiciamento não é denúncia, e esta por sua vez só produz réu quando aceita pelo Judiciário.
A defesa do filho do presidente sugere, sobre os inquéritos mais recentes, que os vazamentos de mensagens e o uso do nome de Lulinha no noticiário próximo às eleições não seja mera coincidência.
O núcleo mais recente das investigações da Polícia Federal aponta três tratativas de Lulinha, da lobista Roberta Luchsinger e do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, para fechar contratos no Ministério da Saúde.
A mais ambiciosa envolvia a venda de R$ 627 milhões em medicamentos à base de canabidiol. As demais incluem a entrega de testes de diagnóstico para dengue e outras arboviroses, bem como parcerias produtivas através da Indústria Química do Estado de Goiás S.A. (Iquego), laboratório público ligado ao governo de Goiás. Nenhuma das três avançou.
Nesse contexto, a PF sustenta um suposto crime de tráfico de influência, em que Lulinha atuava em "comunhão de interesses econômicos" com Roberta e seria beneficiário indireto das ações da lobista.
A defesa de Lulinha sempre negou que o filho do presidente Lula tenha cometido irregularidades ou obtido seu dinheiro de forma ilegal.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.
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