A investigação sobre Roberta Luchsinger ganhou um novo capítulo nesta terça-feira (23).
Mensagens encontradas pela Polícia Federal indicam que a lobista orientou seu motorista e auxiliar, Ulisses Barbosa, a fazer depósitos em contas de Ranniêr Costa Ciríaco, secretário-executivo adjunto do Ministério do Desenvolvimento Social, e José Martinho Ferreira de Araújo, coordenador do cerimonial do ministro Wellington Dias. As informações foram reveladas pelo Estadão.
Os repasses teriam ocorrido em 2 de junho de 2023. Segundo as mensagens, Roberta dispunha de R$ 60 mil em espécie e orientou que o dinheiro fosse distribuído entre três contas, as de Ranniêr, Martinho e uma parente deste último.
A PF ainda apura a finalidade dos pagamentos e se houve outros repasses. A existência das transferências, isoladamente, não demonstra contrapartida de agentes públicos.
O episódio acrescenta dois nomes a uma rede de relações políticas que Roberta construiu ao longo de anos.
Antes de se tornar personagem de três inquéritos que investigam suspeitas de corrupção e tráfico de influência ao lado de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ela já havia sido candidata do PT, participado de campanhas eleitorais e circulado por gabinetes de integrantes do partido.
Do PT a Lulinha
Roberta disputou uma vaga de deputada estadual em São Paulo pelo PT em 2018 e recebeu 14.134 votos.
Naquele período, ela própria escreveu que havia recebido apoio de nomes como Rui Falcão, Arlindo Chinaglia, Marco Maia, Guido Mantega, Jilmar Tatto, José Dirceu, Zeca Dirceu e Ana do Carmo durante sua trajetória política.
Aconteceram reuniões em seu apartamento, em São Paulo, frequentadas por Mantega, Chinaglia e Falcão. Roberta também foi apontada na época como próxima de Zeca Dirceu.
Em 2022, já ligada ao PSB, Roberta fez campanha por Lula e aliados. Publicou pedidos de voto para Fernando Haddad, Alexandre Padilha e Márcio França, além de apoiar Wellington Dias e Rafael Fonteles no Piauí.
Fonteles chegou a agradecer publicamente a visita e o apoio. O governo piauiense afirmou posteriormente não ter mantido negócios com Roberta ou com empresas associadas a ela.
Haddad, por sua vez, afirmou neste ano que nunca manteve relação com a lobista e que não se lembrava sequer de ter ouvido o nome dela enquanto esteve na Esplanada.
O vínculo mais relevante para a investigação é com Lulinha. A PF abriu três inquéritos a partir de mensagens, movimentações financeiras e negociações que, segundo os investigadores, podem indicar uma atuação conjunta entre os dois.
Em um dos diálogos, Roberta escreveu “Eu sou o Fábio”, expressão interpretada pela polícia como possível indicação de que ela se apresentava como alguém autorizada a falar em nome do filho do presidente.
A defesa de Lulinha diz que ele não pode responder por afirmações feitas pela empresária e nega participação em irregularidades.
Wellington Dias, Ranniêr e Martinho
O Brasilianista mostrou que ela realizou 17 visitas à pasta entre 2023 e 2024. O próprio ministério informou que Wellington Dias mantém uma amizade antiga com a empresária e afirmou que os encontros não resultaram em atos administrativos relacionados aos interesses apresentados por ela.
Em uma das visitas, Roberta entregou ao ministro bombons suíços e uma edição de O Alquimista, de Paulo Coelho.
A relação vinha também da campanha. Roberta pediu votos para Dias em 2022, quando ele concorria ao Senado, e para Rafael Fonteles ao governo do Piauí.
Agora, a PF encontrou os pagamentos atribuídos a Ranniêr Costa Ciríaco e José Martinho Ferreira de Araújo. Ranniêr aparece também nos registros de acesso ao ministério, ele teria recebido Roberta em pelo menos seis ocasiões.
Poucos dias depois dos depósitos, em uma conversa com o empresário Cléber Ribas, a lobista disse que estava com Ranniêr e acrescentou: “Tô resolvendo seu problema”. A investigação ainda busca esclarecer o contexto da frase e dos repasses.
Seis meses depois, a 3Structure, empresa de Cléber Ribas representada por Roberta em atividades de prospecção, firmou contrato de R$ 31,2 milhões com o MDS.
Vieram depois um aditivo de R$ 2,7 milhões e outro contrato, de R$ 19,2 milhões. A empresa afirma desconhecer os pagamentos aos servidores e sustenta que todas as contratações seguiram os procedimentos legais e técnicos.
Marcola e Berger no Planalto
Outro personagem recorrente é Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que foi chefe de gabinete pessoal de Lula.
A PF identificou R$ 217 mil em despesas pagas por Roberta para Marcola, incluindo cartão de crédito, parcelas de automóvel, seguro e joias.
A defesa do ex-assessor afirma que se tratou de um empréstimo pessoal posteriormente quitado e nega que ele tenha intermediado compras ou licitações em favor da lobista.
Mensagens mostram ainda que Marcola recebia pedidos de Roberta para marcar agendas com integrantes do governo.
Em 2023, ele teria ajudado a conseguir, em três dias, uma reunião com Swedenberger Barbosa, o Berger, então secretário-executivo do Ministério da Saúde e hoje chefe de gabinete adjunto da Presidência.
Berger aparece posteriormente em negociações envolvendo uma tentativa de venda de produtos à base de cannabis ao Ministério da Saúde.
Em uma mensagem revelada pelo O Brasilianista, Roberta disse a Marcola que Lulinha havia pedido uma “pressão no Berger” para destravar solicitações.
A proposta não prosperou, e Berger sustenta que as demandas recebidas eram encaminhadas para avaliação técnica.
Padilha e o Ministério da Saúde
Alexandre Padilha também aparece no histórico de circulação de Roberta. Registros da Câmara mostram que ela declarou uma visita ao gabinete do então deputado petista em dezembro de 2022.
Já no governo Lula, a lobista esteve repetidas vezes no Ministério da Saúde, pasta posteriormente comandada por Padilha.
Em março de 2024, uma dessas agendas reuniu Roberta, Berger, Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e pessoas ligadas ao mercado de cannabis medicinal. O negócio discutido não foi efetivado.
Roberta chegou a procurar o advogado Otto Medeiros, a quem descrevia como influente, para atuar na negociação.
O escritório dele possui relações profissionais com familiares do ministro Kássio Nunes Marques, mas o magistrado negou qualquer sociedade com o advogado.
Lula
Roberta publicou ao longo dos anos fotografias ao lado de Lula, inclusive durante a campanha de 2022.
Em agosto, durante entrevista ao Jornal Nacional, o presidente afirmou que não conhecia a lobista e nunca havia conversado com ela.
A campanha posteriormente esclareceu que registros fotográficos em eventos públicos não significavam relação pessoal, profissional ou política.
Mensagens atribuídas a Roberta trazem referências ao “pai do Fábio”, à “sala do pai do Fábio” no Planalto e a viagens que ela chamou de “aero Lula” ou realizadas em aeronaves da FAB.
Registros confirmam entradas da empresária no Palácio, mas não comprovam, por si só, que tenha se reunido pessoalmente com o presidente nas ocasiões descritas por ela.
Outros nomes
A lista se amplia quando são considerados encontros sociais, agendas e negócios analisados pela PF.
Reportagem da Veja identificou entre frequentadores da casa usada por Roberta em Brasília os ministros Wellington Dias, Alexandre Padilha e Frederico Siqueira, das Comunicações, além de Marcola, Berger, Lulinha e empresários.
Os ministros e assessores procurados pelo veículo disseram não comentar compromissos de natureza pessoal.
Não há indicação de que a presença em encontros sociais represente envolvimento nos crimes investigados.
Fora do governo federal, aparecem Fernando Bittar, antigo sócio de Lulinha; Cléber Ribas, da 3Structure; Efraín Saavedra, da Duosystem; e Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS.
Roberta também levou Claudinei Quaresemin, posteriormente investigado em outro caso de corrupção, a encontros no MDS, e esteve em uma ocasião acompanhada de Christopher Jorge Saraiva Amorim, ex-assessor de Ciro Nogueira.
Bittar voltou ao radar agora porque mensagens mencionam uma suposta entrega de R$ 193 mil em espécie a ele. Sua defesa nega que tenha recebido o dinheiro e afirma desconhecer a origem e o contexto da referência.
Há ainda Carlos Brandão, governador do Maranhão. Mensagens encontradas no telefone de Roberta dizem que Lulinha teria conseguido uma reunião para ele no Palácio do Planalto em 2024.
Brandão nega que suas agendas dependam de intermediários, e a investigação não estabeleceu relação causal entre o encontro e investimentos federais anunciados posteriormente no Estado.
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