As ramificações do Caso Master chegaram também à Ordem dos Advogados do Brasil.
Mensagens analisadas pela Polícia Federal mostram que Daniel Vorcaro discutiu com Luiz Rennó, então diretor jurídico do Banco Master, um plano para apoiar a construção de uma candidatura do advogado Sérgio Leonardo à presidência nacional da OAB.
A estratégia previa apoio financeiro e operacional que poderia alcançar R$ 10 milhões, além do uso de aeronave e articulações em seccionais estaduais.
O plano não chegou a colocar Leonardo na disputa. Ele afirma que não tinha conhecimento da articulação, não recebeu dinheiro e não utilizou avião de Vorcaro. Rennó confirmou que existiu interesse na ideia, mas disse que “o projeto não decolou”.
A própria OAB informou desconhecer as tratativas. Beto Simonetti acabou reeleito presidente nacional da entidade em janeiro de 2025, com os 81 votos válidos do Conselho Federal.
Até R$ 10 milhões
As conversas mostram Rennó apresentando a Vorcaro a necessidade de dar a Sérgio Leonardo apoio “financeiro e operacional”.
A construção da candidatura passaria por diferentes estados, com menções a Espírito Santo, Roraima, Piauí, Pará, Mato Grosso e Maranhão. Os valores discutidos variavam de R$ 100 mil a R$ 2 milhões, dependendo da articulação.
A movimentação pelos estados tinha importância concreta. Pelas regras da OAB, uma candidatura à presidência do Conselho Federal precisa apresentar apoio de pelo menos seis presidentes de Conselhos Seccionais.
A eleição nacional é depois decidida pelo Colégio Eleitoral formado pelos representantes das unidades da Federação.
Em uma das mensagens, Rennó estimou que a operação nacional poderia custar aproximadamente R$ 10 milhões. Vorcaro demonstrou disposição para ajudar.
Quando informado sobre uma articulação no Maranhão, respondeu: “Manda brasa”.
Planejamento de deslocamentos
Foram discutidas viagens para São Luís, Porto Alegre, Vitória, Maceió, Florianópolis, Fortaleza, Campinas e Juiz de Fora, além do uso de outra aeronave no interior de Minas Gerais.
“Vc não aparece”: mensagens discutiam como manter banqueiro fora da operação
Segundo os registros divulgados, a ideia discutida passava por um contrato de prestação de serviços entre uma empresa ligada ao conglomerado Master e um novo escritório que seria aberto por Rennó.
A estrutura permitiria, segundo a conversa, afastar formalmente o nome do banqueiro da articulação. “Vc não aparece!”, escreveu Rennó a Vorcaro ao explicar o desenho.
As mensagens também indicam preocupação em não criar atrito com Marcus Vinícius Furtado Coêlho, ex-presidente nacional da OAB que mantinha relação profissional com o Master e apoiava a continuidade da gestão de Beto Simonetti.
A estratégia começou a perder força em maio de 2024. Depois de buscar informações sobre o cenário eleitoral da Ordem, Vorcaro passou a considerar baixa a possibilidade de vitória de Leonardo e avaliou que o advogado enfrentaria forte resistência.
Rennó ainda tentou sustentar que dinheiro e articulação política nos estados poderiam modificar a disputa.
Sérgio Leonardo não concorreu. Ele afirmou que Vorcaro e Rennó eram amigos antigos e apoiavam sua atuação institucional dentro da Ordem, mas sustentou que desconhecia o plano revelado nas mensagens.
A OAB também afirmou que a eleição efetivamente realizada ocorreu em um cenário diferente daquele discutido nas conversas.
Londres do Judiciário
O planejamento não terminava nas seccionais. Rennó e Vorcaro discutiram viagens internacionais que poderiam aproximar Sérgio Leonardo de integrantes da advocacia e do Judiciário.
Em abril de 2024, Vorcaro sugeriu que Rennó e Leonardo participassem de um evento organizado pelo banqueiro em Londres, no qual Alexandre de Moraes estaria entre os convidados.
Dias depois, apareceu nas conversas a possibilidade de um jantar em Lisboa durante eventos frequentados por integrantes do meio jurídico.
A referência se conecta a uma frente que O Brasilianista acompanha há semanas.
Antes mesmo de a OAB aparecer nos documentos, as investigações já haviam revelado que o Judiciário possuía importância financeira para os negócios do Master.
Documentos obtidos pela Folha de S.Paulo indicaram pelo menos R$ 14,3 bilhões vinculados a direitos relacionados a 16 processos judiciais, cujo retorno dependia de decisões em instâncias como STJ e STF.
De Moraes à “Turma do KN”
O telefone de Vorcaro revelou diferentes níveis de relação com pessoas ligadas às cortes superiores.
O Brasilianista mostrou que mensagens mencionaram a chamada “Turma do KN”, expressão relacionada nas investigações a pessoas próximas do ministro Kássio Nunes Marques.
Entre elas estão a advogada Camilla Ramos e o marido, o desembargador Newton Ramos, do TRF1.
O escritório de Camilla tinha um contrato que poderia alcançar R$ 427 milhões em honorários de êxito em 12 ações relacionadas aos créditos do setor sucroalcooleiro.
Newton, por sua vez, passou a ser objeto de uma correição extraordinária da Corregedoria Nacional de Justiça depois que o caso chegou formalmente ao TRF1 e ao CNJ.
No STJ, o ministro Benedito Gonçalves também apareceu em mensagens com Vorcaro.
Em julho de 2024, escreveu ao banqueiro que estava “sempre à disposição” e, em outro registro, afirmou “tamo junto sempre”. Benedito participou ainda de um evento privado organizado por Vorcaro em Londres.
O escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, firmou contrato com o Master que poderia alcançar aproximadamente R$ 131 milhões.
A banca sustenta que o ministro não atuou em processos do banco e que sua análise de documentos relacionados ao contrato ocorreu exclusivamente para verificar possíveis impedimentos jurídicos.
OAB aparece depois de Vorcaro
O avanço sobre a estrutura da advocacia também aparece depois de meses de revelações sobre a circulação de Vorcaro entre políticos de diferentes grupos.
Na semana passada, O Brasilianista destacou mensagens que expuseram a proximidade entre Vorcaro e Davi Alcolumbre. Depois de receber os parabéns pela eleição para a presidência do Senado, Alcolumbre respondeu: “Fala meu amor” e, em seguida, disse ao banqueiro: “Sou seu irmão. Pra vida toda”. Alcolumbre nega irregularidades em sua relação com Vorcaro.
O senador Flávio Bolsonaro também mantinha contatos recorrentes com o ex-dono do Master.
A PF recuperou cerca de três meses de conversas e referências a seis encontros presenciais. Flávio admitiu ter procurado o banqueiro para captar recursos privados para Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, e afirma que não ofereceu qualquer contrapartida política.
As investigações alcançaram ainda Ibaneis Rocha durante as negociações para a compra do Master pelo BRB. Mensagens mostram o então governador do Distrito Federal mantendo contato com Vorcaro e encaminhando documentos relacionados à operação.
Outros registros colocaram Vorcaro em eventos ou contatos com Ciro Nogueira, Hugo Motta, Marcos Pereira, Isnaldo Bulhões e Doutor Luizinho.
O Brasilianista informou que o ex-banqueiro circulava por grupos do governo e da oposição, além de integrantes do Judiciário, Ministério Público, Banco Central e empresários.
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