O governo de Donald Trump revogou ou restringiu os vistos de 27 autoridades, ex-autoridades e outros nomes da América Latina, em uma nova demonstração de como Washington passou a utilizar o acesso aos Estados Unidos como instrumento de pressão política e diplomática na região.
A maior parte dos atingidos está na Bolívia, mas a relação inclui também pessoas da Colômbia, Equador e Peru. Nenhum brasileiro entrou nesta nova rodada de medidas.
A ausência do Brasil na lista, entretanto, não significa que o país tenha ficado fora dessa estratégia durante o governo Trump.
Desde 2025, Washington já suspendeu vistos de integrantes do Judiciário brasileiro e familiares, aplicou sanções financeiras contra o ministro Alexandre de Moraes, impôs tarifas extraordinárias sobre produtos nacionais e, em 2026, chegou a revogar o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos durante uma crise diplomática entre os dois governos.
Mais de 20 integrantes
A nova ofensiva foi anunciada pelo Departamento de Estado nesta segunda-feira (28).
Segundo Washington, as restrições fazem parte dos compromissos da iniciativa Shield of the Americas, ou Escudo das Américas, criada pelo governo Trump para coordenar medidas contra narcotráfico, corrupção e organizações criminosas na região.
A Bolívia concentrou a maior parte dos alvos. Mais de 20 integrantes ou ex-integrantes do Ministério Público e do Judiciário bolivianos foram atingidos, entre eles o procurador-geral Roger Mariaca, magistrados, promotores e ex-autoridades.
Parte teve vistos existentes cancelados, enquanto outros passaram a ser considerados inelegíveis para obter o documento.
O governo americano acusa Mariaca de solicitar e aceitar propina para facilitar atividades relacionadas ao narcotráfico e de ajudar criminosos a evitar responsabilização judicial.
O procurador-geral rejeitou as acusações e classificou a medida como pressão política.
Também foram atingidos dois colombianos, entre eles uma senadora e um empresário, dois cidadãos equatorianos e o juiz peruano Juan Carlos Núñez Matos.
Washington afirmou que as sanções alcançam pessoas acusadas de corrupção, envolvimento com narcotráfico ou atuação destinada a prejudicar ações de governos democraticamente eleitos.
Trump e as restrições
O Departamento de Estado passou a utilizar com maior frequência a possibilidade de conceder, negar ou revogar vistos para pressionar autoridades estrangeiras sem necessariamente romper relações diplomáticas ou aplicar sanções econômicas a um país inteiro.
A própria justificativa apresentada nesta semana ultrapassa questões migratórias.
“Minar um governo democraticamente eleito representa uma ameaça à segurança e ao Estado de Direito nas Américas e não será tolerado”, afirmou o Departamento de Estado ao anunciar as restrições.
O Escudo das Américas amplia esse modelo. Trump reuniu neste mês líderes de 14 países latino-americanos e caribenhos integrantes do bloco e pediu ações coordenadas contra 24 organizações classificadas pelos Estados Unidos como ligadas ao narcotráfico. Brasil e México não aderiram à coalizão.
A administração americana combina restrições migratórias, sanções econômicas, cooperação de inteligência e pressão diplomática.
Antes da Bolívia
O Brasil conhece esse instrumento desde julho de 2025. Naquele mês, o secretário de Estado Marco Rubio anunciou a revogação dos vistos do ministro Alexandre de Moraes, de familiares e de outros integrantes do Judiciário brasileiro após decisões relacionadas ao processo criminal contra Jair Bolsonaro.
Segundo integrantes do governo brasileiro ouvidos pela Reuters na época, sete outros ministros do Supremo Tribunal Federal também foram atingidos pelas restrições.
Washington relacionou a medida à atuação de Moraes e de autoridades envolvidas no processo contra Bolsonaro.
O governo brasileiro respondeu que as decisões judiciais eram assuntos internos do país e classificou as medidas americanas como interferência sobre a soberania nacional.
Em setembro de 2025, os Estados Unidos ampliaram novamente a lista. O então advogado-geral da União Jorge Messias e outros cinco atuais ou antigos integrantes de instituições brasileiras tiveram seus vistos revogados.
Entre os nomes mencionados estavam o ex-AGU José Levi e o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral Benedito Gonçalves.
Washington atribuiu novamente as decisões à condução dos processos relacionados a Bolsonaro.
Autoridades brasileiras contestaram a justificativa e sustentaram que integrantes do Judiciário e de instituições jurídicas estavam cumprindo suas atribuições constitucionais.
Moraes também foi atingido
As medidas contra Moraes não pararam na esfera migratória. Em 30 de julho de 2025, o Departamento do Tesouro americano incluiu o ministro em sanções com base na Global Magnitsky Act, legislação que permite bloquear ativos sob jurisdição americana e restringir determinadas transações financeiras.
O governo Trump acusou Moraes de violações de direitos humanos e censura. O magistrado e autoridades brasileiras rejeitaram essa interpretação, enquanto o governo Lula classificou as medidas como uma tentativa de interferir em processos conduzidos pela Justiça brasileira.
A aplicação da Magnitsky mostrou que a estratégia americana poderia avançar de uma restrição pessoal de viagem para consequências financeiras.
O Brasilianista já mostrou que, além dos vistos, sanções direcionadas, limitações comerciais e outros instrumentos permanecem disponíveis dentro da legislação americana.
Tarifaço para empresas brasileiras
A frente que produziu efeitos econômicos mais amplos foi a comercial. Em julho de 2025, Trump anunciou uma tarifa adicional de 40% sobre parte dos produtos brasileiros, levando determinadas mercadorias a enfrentar uma cobrança total de 50%.
A Casa Branca relacionou a medida tanto a questões políticas envolvendo o governo brasileiro quanto a interesses econômicos americanos.
Parte dessas tarifas foi posteriormente retirada ou teve seu alcance modificado. Em 2026, contudo, Washington abriu uma nova frente baseada na Seção 301 da legislação comercial americana.
Em julho, o representante comercial dos Estados Unidos impôs uma tarifa adicional de 25% sobre uma série de produtos brasileiros.
A investigação americana citou temas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, acesso ao mercado de etanol, propriedade intelectual, políticas ambientais e medidas que, na interpretação dos Estados Unidos, afetariam empresas americanas.
O governo brasileiro contestou as conclusões e levou a disputa para canais diplomáticos e comerciais.
O Brasilianista destacou que a tarifa passou a valer em 22 de julho e atingiu setores como máquinas, calçados, açúcar, produtos químicos e diferentes bens industriais.
Aproximadamente 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos foram alcançadas pela medida, segundo os cálculos apresentados na ocasião.
Embaixadora brasileira
Em 2026, a crise migratória chegou também ao nível diplomático. Em agosto, os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
A decisão veio depois de o Brasil não conceder naquele momento a aprovação diplomática definitiva ao embaixador indicado pelo governo Trump para Brasília e negar vistos a dois integrantes do Departamento de Estado americano que planejavam visitar o país semanas antes das eleições.
Segundo autoridades brasileiras ouvidas pela Reuters, o governo avaliou que Riley M. Barnes e Samuel Samson pretendiam realizar uma viagem que poderia colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
Os americanos sustentaram que a agenda trataria de integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão.
Como O Brasilianista informou, o cancelamento do visto da embaixadora foi apresentado pelos Estados Unidos como uma resposta ao impasse.
Washington disse que poderia restaurar o documento caso a questão diplomática fosse resolvida.
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