Justiça

As fraudes no INSS durante o governo Bolsonaro

Gravações mostram empresários atribuindo a ex-ministro de Jair Bolsonaro ajuda a uma das entidades investigadas

Ex-presidente Jair Bolsonaro
Acordos, doações eleitorais e antigos dirigentes do instituto ajudam a reconstruir a origem do esquema Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Uma das estruturas usadas para descontar milhões de reais de aposentados e pensionistas do INSS começou a operar ainda durante o governo de Jair Bolsonaro.

Novas gravações obtidas pelo Estadão mostram dois empresários investigados pela Polícia Federal relatando como teriam conseguido abrir as portas da Previdência para uma das associações posteriormente apontadas como parte do esquema.

As imagens, feitas em 22 de maio de 2025, registram uma conversa entre Anderson Cordeiro de Vasconcelos e Igor Dias Delecrode, integrantes do grupo apelidado de “Golden Boys”.

Os dois relatam que Wilson Roberto Gomes, pai de Felipe Macedo Gomes, teria procurado José Carlos Oliveira, ex-presidente do INSS e ex-ministro do Trabalho e Previdência de Bolsonaro, para ajudar a viabilizar a Amar Brasil Clube de Benefícios.

Oliveira nega ter atuado para favorecer a entidade ou manter relação com os empresários.

Na conversa, os empresários atribuem a Wilson a aproximação com Oliveira e dizem que o pai de Felipe teria cobrado posteriormente pelo papel desempenhado.

A investigação ainda apura essas relações e não apresentou relatório final sobre os “Golden Boys”.

Anderson, Igor e José Carlos Oliveira atualmente são submetidos a medidas cautelares determinadas no âmbito da Operação Sem Desconto.

Acordo saiu em 2022

A Amar Brasil protocolou seu pedido de Acordo de Cooperação Técnica, o ACT, em março de 2022, nos últimos meses do governo Bolsonaro.

Esse instrumento era necessário para que uma associação pudesse receber mensalidades diretamente dos benefícios previdenciários de seus filiados.

O acordo foi formalizado em agosto daquele ano. À época, José Carlos Oliveira já havia deixado a presidência do INSS para comandar o Ministério do Trabalho e Previdência.

O ACT foi assinado pelo então diretor de Benefícios Edson Akio Yamada, também citado nas apurações.

Documentos examinados pela CPMI mostram que diferentes setores da autarquia participaram da tramitação até a aprovação do convênio.

A Amar Brasil viria a movimentar aproximadamente R$ 324 milhões em descontos.

Ela foi uma das quatro entidades associadas pelos investigadores ao grupo formado por Felipe Macedo Gomes, Américo Monte Júnior, Anderson Cordeiro e Igor Delecrode.

Juntas, Amar Brasil, AASAP, Master Prev e ANDAPP receberam mais de R$ 700 milhões provenientes de benefícios previdenciários, segundo dados apresentados à CPMI.

A Controladoria-Geral da União encontrou taxas muito elevadas de beneficiários que afirmaram não reconhecer as cobranças.

As investigações sustentam que associações utilizaram filiações e autorizações fraudulentas para inserir mensalidades nos pagamentos do INSS.

José Carlos Oliveira

O relato dos empresários se soma a suspeitas anteriores envolvendo José Carlos Oliveira.

A Polícia Federal classificou o ex-ministro como um “pilar institucional” de uma das frentes investigadas.

Segundo os investigadores, quando ainda era diretor de Benefícios do INSS, em julho de 2021, Oliveira autorizou a liberação de R$ 15,3 milhões à Conafer sem que estivessem comprovadas as filiações exigidas.

A PF afirma que a decisão permitiu a inclusão de listas fraudulentas que alcançaram centenas de milhares de benefícios.

A corporação também atribuiu a Oliveira o recebimento de pelo menos R$ 100 mil em vantagens indevidas relacionados à Conafer.

O ex-ministro contesta as acusações e, em depoimentos públicos, afirmou que os processos para celebração de ACTs passavam por análises técnicas e não dependiam de interferência pessoal do ocupante do cargo.

Antes de chegar ao ministério, Oliveira passou por diferentes posições dentro da Previdência, foi diretor de Benefícios e presidente do INSS durante a administração Bolsonaro.

Onyx, uma doação

Outro ex-ministro de Bolsonaro também aparece no histórico da entidade. O Brasilianista mostrou que Felipe Macedo Gomes, então ligado à Amar Brasil, doou R$ 60 mil à campanha de Onyx Lorenzoni ao governo do Rio Grande do Sul em 2022.

O pedido para que a associação pudesse realizar descontos havia sido protocolado enquanto Onyx ainda comandava o Ministério do Trabalho e Previdência.

Onyx confirmou ter recebido a contribuição, mas afirmou à CPMI que não conhece Felipe Macedo e negou qualquer relação entre a doação e os atos praticados pelo INSS.

As contas eleitorais da campanha foram aprovadas. O ex-ministro também foi questionado sobre a atuação de seu filho, Pietro Lorenzoni, para outra associação investigada, a Unibap, e negou tráfico de influência.

Não terminou com Bolsonaro

Embora parte importante dos acordos investigados tenha sido firmada durante o governo Bolsonaro, a fraude atravessou administrações e cresceu também no governo Lula.

A própria reportagem do Estadão registra que, depois do ACT da Amar Brasil, Felipe Macedo Gomes conseguiu outros três acordos relacionados a entidades do grupo já na gestão seguinte. Esses convênios movimentaram outros R$ 376 milhões, segundo a apuração.

Nesse período aparecem outros dirigentes do INSS, entre eles André Fidelis, ex-diretor de Benefícios, e Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, ex-procurador-geral.

Empresas e associações relacionadas aos “Golden Boys” contrataram Eric Fidelis, filho de André, e Thaissa Hoffmann, mulher de Virgílio.

Ambos os ex-dirigentes também foram alcançados pelas investigações; as relações financeiras são objeto de apuração e, por si sós, não comprovam responsabilidade pelos descontos fraudulentos.

Como O Brasilianista destacou em julho, a PF concluiu uma das frentes da Operação Sem Desconto com 48 indiciados, entre empresários, antigos dirigentes e operadores.

A estimativa dos investigadores é que o prejuízo total aos aposentados e pensionistas possa superar R$ 6 bilhões.

O Brasilianista permanece aberto à manifestação de todas as pessoas e instituições citadas nesta reportagem. Os canais de comunicação do portal estão à disposição para esclarecimentos, posicionamentos, contestações ou informações adicionais.

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