Entrevistas

Entenda os efeitos do novo acordo entre EUA, Dinamarca e Groenlândia

Os países assinaram o documento nesta terça-feira (22)

Groenlândia
Especialista responde o que o acordo muda na prática e os desdobramentos no mundo (Foto: Magnific)

Foi formalizado nesta terça-feira (22), um acordo entre Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia com o objetivo de fortalecer a segurança no Ártico e no Atlântico Norte.

Assinado durante a Assembleia Geral da ONU, o documento prevê um aumento da infraestrutura militar norte-americana na região e encerra meses de impasses e ameaças de Donald Trump

Muito mais do que um novo território conquistado, até porque a decisão não torna a Groenlândia uma área de domínio dos EUA, o movimento evidencia um interesse político e econômico claro de Trump: controlar uma região que se mostra cada vez mais estratégica e reduzir possíveis interferências de outras potências, como China e Rússia

Para ficar por dentro das principais mudanças e efeitos do novo acordo, O Brasilianista falou com Rafael Moredo, internacionalista e coordenador de políticas pública do Livres. 

O que, na prática, muda na segurança da Groenlândia com esse acordo entre Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia?

Na prática, os EUA ampliam e formalizam o que já tinham de forma mais limitada. O acordo permite que Washington desenvolva imediatamente uma grande presença militar na ilha, garante bases permanentes mesmo que a Groenlândia venha a se tornar independente no futuro, e proíbe que países não membros da OTAN (em especial China e Rússia) estabeleçam bases ou façam investimentos que os EUA considerem uma ameaça à segurança.

Os EUA já tinham presença militar histórica na Groenlândia desde a Segunda Guerra Mundial, com a base aérea de Thule. O que muda é a escala, a permanência formal e o veto americano sobre investimentos externos, o que transforma a ilha em zona de exclusão estratégica americana.

Por que a Groenlândia se tornou tão importante na disputa geopolítica pelo Ártico?

Três razões convergem. A primeira é geográfica: a Groenlândia é o ponto de controle do Atlântico Norte, o corredor entre a Europa e a América do Norte. Quem controla a ilha tem vigilância sobre os movimentos de submarinos e aeronaves entre os dois continentes, um ativo estratégico de primeira ordem.

A segunda é o degelo: com o aquecimento global abrindo novas rotas marítimas no Ártico, a Groenlândia deixa de ser um ponto remoto e passa a ser um ponto central de comércio e projeção de poder.

A terceira são os recursos: a ilha possui reservas enormes de minerais críticos (terras raras, níquel, cobalto, zinco) essenciais para a cadeia de semicondutores, baterias e tecnologia de defesa. Quem controlar esses recursos tem vantagem estrutural na disputa tecnológica das próximas décadas.

O que significa a afirmação de Donald Trump de que os EUA terão “controle permanente” sobre a segurança da ilha?

É uma afirmação politicamente maximizada, mas juridicamente imprecisa. O texto confirmado pelos dinamarqueses é mais cuidadoso: fala em fortalecer a segurança e reconhece a soberania da Dinamarca e o direito à autodeterminação da Groenlândia.

O que Trump está descrevendo como "controle permanente" é, na prática, um direito americano de veto sobre qualquer presença estrangeira que Washington considere ameaçadora, combinado com expansão das bases militares. É mais do que tinham antes, menos do que Trump anunciou.

A distância entre o que Trump diz e o que o texto acordado diz é, ela mesma, parte da estratégia: Trump vende para o público doméstico uma conquista territorial simbólica; a Dinamarca vende para o seu parlamento uma parceria voluntária que preserva formalmente a soberania.

Até que ponto esse “controle” americano é compatível com a manutenção da soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia?

É compatível na letra, mas cria uma tensão estrutural na prática. A soberania formal permanece dinamarquesa, o acordo não transfere território. Mas soberania não é apenas uma declaração jurídica; é também capacidade de decidir o que acontece no seu próprio território.

Quando os EUA passam a ter veto sobre investimentos estrangeiros na Groenlândia e presença militar permanente independente do que a Dinamarca ou a Groenlândia decidam no futuro, inclusive se a ilha se tornar independente, a soberania real é esvaziada de conteúdo prático.

É o que alguns analistas chamam de "soberania nominal": o papel diz que é seu, mas você não decide quem entra, quem investe e o que se constrói. A Dinamarca aceitou esse arranjo porque a alternativa (confronto direto com Trump) era ainda pior para a coesão da OTAN e para a própria relação bilateral.

Qual é a diferença entre ampliar a presença militar americana na Groenlândia e efetivamente transferir o controle da segurança do território para Washington?

A diferença é a reversibilidade e a reciprocidade. Ampliar presença militar dentro da OTAN é um arranjo que a Dinamarca pode, em tese, renegociar. Transferir controle significa que Washington decide autonomamente o que é necessário, sem precisar de autorização dinamarquesa caso a caso. O acordo parece estar mais próximo do segundo modelo do que o primeiro admite.

A cláusula que mantém as bases vinculantes mesmo em caso de independência da Groenlândia é o sinal mais claro disso: os EUA garantiram que a presença não depende de nenhuma decisão futura dinamarquesa ou groenlandesa. Isso é muito mais do que uma ampliação de presença, é uma garantia unilateral americana que opera acima das decisões soberanas dos demais signatários.

Por que o acordo é estratégico para os Estados Unidos neste momento?

Porque resolve em um só movimento três problemas simultâneos. O primeiro é a contenção da China e da Rússia no Ártico, que era o objetivo declarado desde o início. O segundo é doméstico: Trump consegue apresentar o acordo como uma vitória da sua política de pressão (ameaçou, pressionou e obteve concessões reais sem usar a força). O terceiro é estrutural para a disputa tecnológica: garantir acesso preferencial aos minerais críticos da Groenlândia reduz a dependência americana de cadeias de suprimento vulneráveis à China. É simultaneamente um ativo de segurança, um ativo eleitoral e um ativo econômico de longo prazo.

O acordo fortalece ou cria novas tensões dentro da OTAN?

Os dois ao mesmo tempo. Fortalece no sentido de que resolve uma crise que ameaçava a coesão da aliança (Trump tinha ameaçado tomar a Groenlândia a força de um aliado da OTAN), o que seria um precedente catastrófico. O acordo tira essa ameaça da mesa. Mas cria tensão porque normaliza uma dinâmica em que os EUA extraem concessões de aliados por coerção.

Outros membros da OTAN observam isso com preocupação: se funcionou com a Dinamarca, o modelo pode ser replicado. A UE reagiu enviando Ursula von der Leyen à Groenlândia e anunciando um pacote de 200 milhões de euros para a ilha antes da assinatura, um sinal claro de que a Europa não aceitou passivamente o resultado e tenta manter influência própria.

O episódio pode alterar a relação entre Estados Unidos e seus aliados europeus? E com a Rússia? E com a China?

Com os europeus, o dano de confiança é real e provavelmente duradouro. O fato de que os EUA ameaçaram um aliado com uso de força militar para extrair concessões territoriais é um precedente que não se apaga com um acordo. A Europa vai continuar aprofundando sua autonomia de defesa (não por ideologia, mas por necessidade) e vai buscar diversificar sua dependência estratégica de Washington.

Com a Rússia, o sinal é claro: o Ártico é domínio americano, ponto final. Isso endurece a posição americana na região e reduz o espaço de manobra russo em qualquer negociação futura sobre o Ártico. Moscou não tem como responder simetricamente, não tem presença na Groenlândia nem capacidade de projetá-la.

Com a China, o impacto é o mais estratégico de todos. A proibição explícita de investimentos chineses na Groenlândia fecha uma janela que Pequim havia identificado como prioritária. A China vinha tentando investir em infraestrutura e mineração na ilha há anos (todos bloqueados). O acordo formaliza esse bloqueio de forma permanente e vinculante, o que é uma derrota estratégica concreta para a agenda chinesa de acesso a minerais críticos.

Esse acordo deve ser entendido principalmente como uma questão militar, econômica ou geopolítica?

É intrinsecamente geopolítico, e as dimensões militar e econômica são instrumentos dessa geopolítica, não fins em si mesmos. A questão central não é ter mais soldados na Groenlândia, nem garantir acesso a minérios: é definir quem controla o Ártico nas próximas décadas, quando o degelo transformar a região no novo cruzamento estratégico do mundo.

O Ártico será para as próximas décadas o que o Mar do Sul da China é hoje: o principal palco de competição entre grandes potências por rotas, recursos e posição estratégica. O acordo americano com a Dinamarca é o primeiro movimento de tabuleiro nessa nova fase. Não é o último.

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