Nas eleições de 2026, 918.876 brasileiros que vivem no exterior estão aptos a votar.
Eles representam pouco mais de 0,5% do eleitorado nacional e estão distribuídos por 186 cidades fora do país.
Diferentemente de quem vota no Brasil, porém, esse grupo vai às urnas apenas para escolher presidente e vice-presidente da República.
O número cresceu 31,8% em relação a 2022, quando havia 697.078 eleitores registrados no exterior.
Em uma década, o avanço é ainda mais expressivo, em 2014 eram pouco mais de 354 mil.
Entre os brasileiros habilitados a votar fora do país neste ano, 57% são mulheres, 52% são solteiros e 38% têm ensino superior completo.
A faixa etária mais numerosa é a de 40 a 44 anos, seguida por 45 a 49 e 35 a 39 anos. Os dados são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Para Marcos Valle, economista, doutor em Sociologia e docente da Escola de Negócios da Universidade Positivo (UP), entender esse eleitor exige olhar além dos dados demográficos.
A distância física do Brasil não rompe necessariamente o vínculo político com o país e pode, em alguns casos, alterar os temas que pesam na decisão eleitoral.
Cidadania exercida de fora
O primeiro desses eixos está relacionado à própria possibilidade de continuar participando politicamente do país depois de estabelecer residência no exterior.
Como esse eleitor só participa da disputa presidencial, sua relação institucional com a eleição brasileira é diferente da mantida por quem vive no território nacional.
“Ao votarem exclusivamente para presidente da República, esses mais de 918 mil eleitores exercem uma cidadania transnacional, o que mantém o vínculo político direto com o chefe de Estado e o governo, mesmo sob regimes jurídicos e fiscais de outros países”, explica.
O pesquisador considera que essa condição precisa ser observada junto ao ambiente econômico e institucional em que o brasileiro passou a viver.
Quem mora fora acompanha os mesmos debates eleitorais, mas experimenta no cotidiano políticas públicas, preços, instituições e relações de trabalho de outro país.
“O comportamento desse eleitorado é profundamente moldado pelo seu contexto de inserção socioeconômica”, diz Valle.
Para ele, morar em economias e sistemas institucionais diferentes pode mudar a forma como determinados assuntos brasileiros são avaliados.
“A percepção desse eleitor sobre temas como inflação, câmbio, segurança jurídica e imagem internacional do Brasil diverge da percepção do eleitor residente”, afirma.
Longe do SUS
Uma das diferenças apontadas por Valle está na relação cotidiana com o Estado brasileiro.
Quem mora permanentemente fora do país não depende, em regra, da mesma maneira de serviços públicos brasileiros de saúde, educação ou transporte.
Isso não significa que esses temas deixem de importar, mas, segundo o professor, pode mudar o peso atribuído a eles no momento da escolha presidencial.
“Como não são impactados diretamente pela oferta cotidiana de serviços públicos ligados à saúde, transporte e educação primária, a própria decisão do voto tende a ser menos pragmática no âmbito imediato”, avalia.
Nesse cenário, outros elementos podem ganhar espaço.
“Ela pode ser mais orientada por alinhamentos ideológicos, valores morais e pela visão da política externa do país”, acrescenta.
Quando o real sobe ou cai
Se a distância reduz a exposição direta a determinados serviços públicos, ela pode aumentar a importância de outras variáveis econômicas. O câmbio é uma delas.
Brasileiros que enviam dinheiro para parentes, mantêm imóveis, investimentos ou outros compromissos financeiros no país convivem diretamente com a relação entre a moeda em que recebem e o real.
“As mudanças na cotação do real impactam diretamente o envio de remessas financeiras para famílias do Brasil ou a própria manutenção do patrimônio no país”, explica Valle.
É justamente por isso que o professor associa o voto no exterior também à percepção da política econômica.
“A política macroeconômica e a credibilidade das instituições brasileiras se convertem em variáveis centrais para o cálculo eleitoral desse eleitor”, afirma.
Essa relação pode funcionar de maneiras diferentes. Uma desvalorização do real, por exemplo, altera o poder de compra de quem envia recursos em moeda estrangeira ao Brasil, ao mesmo tempo que pode afetar patrimônio, investimentos e expectativas sobre a economia brasileira.
Campanha sem palanque
Outra característica particular desse eleitorado está na maneira como as campanhas conseguem alcançá-lo.
Os quase 919 mil brasileiros estão espalhados por 186 cidades, o que dificulta reproduzir fora do país a estrutura tradicional de uma campanha presidencial.
“Para os partidos políticos há uma certa dificuldade de criar uma manutenção em 186 cidades fora do país. Até por não ter palanque eleitoral, não ter esse tipo de inserção, o custo acaba ficando um pouco alto”, diz Valle.
Nesse espaço deixado pela campanha presencial, as redes sociais ganham relevância.
“A influência acaba caindo mais por meio das redes sociais, das mídias sociais e de lideranças personalistas, aquela figura que tem impacto e seguidores dentro das redes sociais”, afirma.
A consequência é um eleitor que pode continuar acompanhando intensamente a política brasileira, mesmo a milhares de quilômetros de distância, mas por canais diferentes daqueles presentes no cotidiano eleitoral de uma cidade brasileira.
Um eleitor pequeno em proporção
Embora representem pouco mais de meio por cento dos aproximadamente 158,7 milhões de eleitores de 2026, os brasileiros no exterior formam um contingente que aumentou em mais de 221 mil pessoas apenas desde a eleição presidencial de 2022.
Valle chama atenção para o fato de esses votos entrarem normalmente na totalização nacional para presidente.
Para ele, o crescimento do grupo aumenta a relevância de observar como a diáspora brasileira acompanha a disputa.
“Embora esses eleitores votem apenas para a Presidência, o resultado do pleito no exterior integra a apuração geral”, afirma.
Em disputas presidenciais apertadas, acrescenta, o eleitorado registrado fora do país pode adquirir maior importância numérica.
“Em disputas acirradas, o eleitorado no exterior atua como um fiel da balança para a composição do segundo turno ou para a definição da vitória presidencial”, avalia Valle.
O Brasil visto de fora
Para Valle, há ainda uma dimensão menos ligada à quantidade de votos e mais à maneira como a diáspora percebe o país onde nasceu.
O brasileiro que acompanha a eleição a partir dos Estados Unidos, Europa, Ásia ou de outros países compara instituições, economia e políticas públicas brasileiras com aquelas que encontra no lugar onde vive. Ao mesmo tempo, acompanha de fora a reputação internacional do Brasil.
“O alinhamento desse eleitorado reflete a percepção da diáspora brasileira sobre a estabilidade institucional do país”, afirma.
Essa percepção, segundo o professor, dialoga também com temas que ultrapassam a urna.
“Isso impacta indiretamente as narrativas de atração de investimento, diplomacia corporativa e ambiente de negócios globais”, diz.
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