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Entrevistas

O Brasil pode virar uma potência geopolítica?

Especialista discute os caminhos dentro do cenário atual e como o país poderia se valer desse status

Bandeira do Brasil
Os Estados Unidos vem perdendo a hegemonia sobre o mundo nos últimos tempos (Foto: Magnific)

EUA, China, Rússia... Muito se fala nas potências mundiais que "controlam" o mundo. Se os Estados Unidos tem um foco maior na América, a China faz isso na Ásia, enquanto a Rússia age sobre o leste europeu. 

Mas afinal, com essa ascensão de países, como a própria China, e queda de outros, como os vinculados a União Europeia, é possível imaginar ou acreditar que o Brasil possa se tornar uma potência geopolítica?

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Para debater sobre essa questão, O Brasilianista falou com exclusividade com Daniel Rio Tinto, Professor Agregado na Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas, Doutor em Ciência Política e Estudos Internacionais pela Universidade de Birmingham, Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa e Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Quando falamos em “potência geopolítica”, o que isso significa na prática: poder militar, econômico, diplomático, tecnológico, energético ou uma combinação desses fatores?

A noção de potência geopolítica, ou potência internacional deriva de uma ideia mais primordial, que é o conceito de “poder”, um dos temas mais caros aos estudantes de Relações Internacionais. Não existe um conceito único de poder na política internacional; especialistas divergem sobre o que realmente é relevante para descrever o que é poder e como ele se aplica na política internacional.
Uma primeira visão, a mais intuitiva e tradicionalista, mede poder pela força bruta: população, riqueza, tamanho das Forças Armadas. Quanto mais gente, dinheiro e armamento, mais poder. O problema é a conversão (o que nós tradicionalmente chamamos de “fungibilidade”): ter recursos não garante capacidade real, e muitos países ricos em matéria-prima, com enormes populações ou com enormes capacidades bélicas não necessariamente conseguiram transformar isso em poder ou capacidade de influenciar seus pares.

Uma segunda visão olha para outro lugar: quem controla os sistemas fundamentais para o funcionamento do sistema internacional. Ter petróleo importa menos do que controlar o refino; ter dados importa menos do que controlar seu trânsito e disseminação; ter barras de ouro em um cofre importa menos do que controlar a infraestrutura que permite que o dinheiro circule pelo mundo. Nessa visão, o controle desses “nós sistêmicos" carrega muito mais capacidade de influenciar do que o mero acúmulo de capacidades. 

Uma terceira visão foca nas relações assimétricas de dependência mútua: poder é, essencialmente, precisar menos do outro do que o outro precisa de você. Quem consegue substituir o parceiro com menos dor tem mais poder de barganha, e é essa lógica que ajuda a explicar por que controlar uma rota marítima ou um elo de uma cadeia de suprimento vale tanto hoje. 

Uma quarta visão foca em algo menos material: a capacidade de convencer, pautar a conversa e fazer os outros aceitarem suas regras, mesmo na ausência de coerção. Um país pequeno pode ter mais dessa moeda do que um país militarmente forte, e essa capacidade de influenciar sem coagir se manifesta através de formas muito sutis (o chamado soft power) como por exemplo a presença global da culinária italiana, o reconhecimento internacional do futebol brasileiro, a cinematografia hollywoodiana ou até mesmo a pontualidade/precisão suíça.

É interessante pensar que essas quatro visões ou lógicas não são mutuamente excludentes, e os atores da política internacional pensam em como exercem poder e influência através destas várias lógicas ao mesmo tempo.

O Brasil tem condições reais de se tornar uma potência geopolítica ou esse é um projeto superestimado?

Acho que a pergunta mais útil (e possível de responder) não é se o Brasil tem as condições, e sim para que serviria esse poder. A resposta se conecta ao que discutimos antes: se poder significa coisas diferentes - força bruta, controle de sistema, menos dependência do outro ou capacidade de convencer - dizer que um país "quer ser potência" sem especificar qual dessas coisas e para qual finalidade é uma frase vazia. Buscar status sem saber o que fazer com ele não leva a lugar nenhum, porque nenhuma das quatro formas de poder tem sentido fora de um objetivo definido.

O momento internacional cria espaço real para quem sabe se posicionar. Os Estados Unidos vêm recuando do papel de garantidor único da estabilidade em rotas comerciais, alianças e mercados, papel que sustentaram desde o fim da Guerra Fria. Esse recuo abre uma janela: sem um único fiador, o sistema pode caminhar para um mundo mais multipolar, com vários países de peso médio ocupando espaço em domínios específicos, ou para uma volta a um arranjo bipolar entre Estados Unidos e China. Países capazes de se posicionar com clareza em áreas onde têm algo relevante a oferecer ajudam a inclinar o resultado para a primeira direção.

Nesse contexto, existe demanda real por atores que controlem recursos, rotas ou capacidades específicas, independentemente de estarem ou não a caminho de virar potência no sentido clássico. É uma oportunidade estrutural, não uma garantia de resultado.

O Brasil poderia exercer uma espécie de liderança do Sul Global ou Índia, China e outras potências já ocupam esse espaço?

Falar em liderança geralmente pressupõe um grupo coeso esperando ser liderado, e o chamado Sul Global não funciona assim. São vários países com interesses próprios, que se alinham em pautas específicas e seguem caminhos distintos em outros pontos da agenda. Faz mais sentido pensar em papéis complementares do que em uma disputa por liderança única, especialmente quando o que o próprio Brasil quer colocar no papel não é um sistema ou bloco liderado por um único ator (nem o Brasil nem nenhum outro) mas quer viver em um mundo ordenado com base em regras, onde países influentes - inclusive do Sul Global - montam, em conjunto, estas regras.

Cada grande país do Sul desenvolveu uma função diferente nesse espaço. A China concentra financiamento e infraestrutura em grande escala. A Índia, que preside o BRICS em 2026 e recebe a cúpula em Nova Délhi em setembro, organiza sua agenda em torno de infraestrutura pública digital, área em que acumulou experiência para exportar. O Brasil desenvolveu outra função: capacidade de convocar e de costurar texto de consenso entre posições distantes, além de uma “autoridade" em temas ligados ao meio ambiente. Foi essa capacidade que sustentou a presidência do G20 em 2024, a presidência do BRICS em 2025 e a organização da COP30 em Belém. Poucos países conseguem redigir uma proposta que o Norte aceite discutir a partir de posições do Sul, e isso é um ativo diplomático interessante que Brasília procura sempre cultivar.

No entanto, esse ativo tem um alcance bem específico, diferente do de instrumentos financeiros ou militares - que são entendidos como mais “fungíveis”. Capacidade de convocar e de redigir consenso funciona bem para colocar temas na mesa e ampliar margem de negociação; mas não substitui garantias de proteção comercial ou de segurança, que são mais dependentes de outro tipo de instrumento, especialmente em contextos de maior incerteza sobre o funcionamento das instituições e regulamentações internacionais. Nesse sentido, são funções complementares, não superpostas.

Existe espaço para o Brasil exercer influência global sem abandonar sua tradição diplomática de negociação e não alinhamento?

Diria que, ao pé da letra, o Brasil não é exatamente não-alinhado no sentido mais estrito e formal. A tradição da política externa brasileira é - acredito - melhor definida em termos de autonomia, equidistância e universalismo, a prática de tentar manter o máximo de portas abertas, evitando sempre os custos de ter que fechar alguma, mesmo quando é inevitável e acontece. Não me parece que essa tradição seja, por si só, obstáculo para exercer influência em qualquer nível. Manter as portas abertas é bom, mas não importa muito se você nunca entra ou sai através delas: o que achamos que autonomia gera para o Brasil, tanto em termos de influência como de posicionamento e da capacidade de moldar o sistema internacional? Em que medida equidistância é mais que passividade?

O termo mais técnico para o que o Brasil pratica é hedging, e não é só o Brasil que o faz. Hedging geralmente funciona quando você tem algo que os dois lados querem e pode credivelmente escolher a quem entregar. Onde essa condição vale, hedging funciona bem. Pense na lógica que se aplica ao que temos visto na discussão sobre minerais críticos: hoje, o governo brasileiro consegue sentar com americanos e chineses em uma mesma semana e demandar contrapartidas dos dois, porque os dois precisam e estão interessados. Ao mesmo tempo, isto não quer dizer que hedging é uma bala de prata. Onde a condição não vale ou, por qualquer razão a barganha não funciona, a tradição não entrega nada. Contra as tarifas americanas, o Brasil recorreu à Organização Mundial do Comércio (cujo Órgão de Apelação está paralisado desde 2019 por bloqueio americano às nomeações), em um gesto sabidamente simbólico, que em nada constrange ou influencia os EUA a mudarem sua postura. 

Um hedger é, fundamentalmente, um negociador autônomo e não-alinhado. Mas o negociador o faz em termos de uma barganha, se fala em ter “poder de barganha”. A discussão sobre poder volta a mesa, porque não-alinhamento é uma postura que, por si só, não é persuasora nem dissuasora.

O Brasil pode aproveitar a rivalidade entre EUA e China para aumentar sua influência?

Pode, e tenta. O resultado depende do setor, e é interessante refletir com base em dois casos de 2026 em que o Brasil precisou se posicionar: disputas comerciais e demandas sobre minerais críticos.

Em comércio, não funcionou tão bem. As sobretaxas americanas atingiram cerca de um quarto das exportações brasileiras aos Estados Unidos. Entre janeiro e julho as vendas ao mercado americano caíram na faixa de 10% a 15%, enquanto as exportações totais do Brasil subiram cerca de 10%. O país redirecionou fluxo, o que é adaptação, mas adaptação não é sem custo: segmentos que tinham no comprador americano um contrato de longo prazo ou um preço-prêmio por proximidade logística precisaram vender no mercado genérico, mesmo que a um preço mais baixo por unidade, o que foi minimizado por um aumento no volume total exportado que compensa no agregado. Do lado chinês, não houve resposta concreta visível no período: nem aumento perceptível de compra das commodities mais afetadas pela tarifa, nem crédito em condição melhor via banco chinês ou pelo Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS, nem gesto político de apoio ao Brasil na disputa. A rivalidade, nesse episódio, custou margem ao Brasil sem lhe render moeda de troca, o que faz parte do jogo, mas não é ideal.

Vale a pena ressaltar, no entanto, que a resposta brasileira aqui não se limitou somente à substituição reativa de mercado. O Mercosul acelerou uma frente de diversificação comercial que já vinha em curso antes das tarifas, mas que ganhou impulso com elas. O acordo com a União Europeia, assinado em janeiro, está em vigência provisória desde maio. Em junho, à margem da cúpula do G7 em Évian, Brasil e Japão anunciaram o início formal das negociações de um Acordo de Parceria Econômica entre o Japão e o Mercosul. As negociações com o Canadá avançam com meta de conclusão ainda em 2026. Vale notar que o Canadá vive um movimento parecido, de reduzir dependência do parceiro principal buscando outros mercados, um movimento relativamente novo para Ottawa, que não tem a tradição histórica de não-alinhamento que o Brasil tem.

Em minerais críticos, a disputa é mais assimétrica do que um leilão simétrico entre dois pretendentes, mas segue favorecendo a posição brasileira, me parece. Em fevereiro, o governo americano propôs um acordo de cooperação que combina financiamento, garantias, empréstimos, participação acionária, para projetos de refino e separação em solo brasileiro, com uma cláusula de "primeira oportunidade de investir" em ativos considerados prioritários. Parte do governo brasileiro leu essa cláusula como tentativa de exclusividade disfarçada; os negociadores americanos discordam, e apontam que o texto só garante prioridade. A proposta também veio sem dois elementos presentes no acordo equivalente entre Estados Unidos e Austrália: compromisso mínimo de investimento e reuniões periódicas de acompanhamento, o que reforçou a leitura brasileira de que o texto era mais genérico do que parecia à primeira vista. Surpreendentemente, o movimento americano mais concreto veio fora da mesa intergovernamental: a USA Rare Earth comprou a Serra Verde, produtora comercial de terras raras no estado de Goiás, com financiamento que tornou o próprio governo americano acionista da compradora. A mina, que antes exportava toda a produção para a China, passou a fornecer para uma cadeia de produção de ímãs integrada aos Estados Unidos e à Europa, com contrato de 15 anos.

Do lado chinês, a resposta até agora foi diplomática, não financeira: interlocutores chineses sinalizaram abertura para parceria, inclusive em tecnologia de separação, área que a China restringe para exportação desde 2023, justamente por ser sua vantagem estrutural na cadeia. Não houve oferta formal de governo ou de empresa chinesa, nem compromisso de capital equivalente ao dos americanos, mas, por outro lado, a obtenção de tecnologias de separação e refino é um gargalo importante que apresenta potencial significativo para o Brasil no médio e longo prazo. 

Aqui, o quadro completo não é exatamente o de um leilão simétrico. É uma janela real, em que os dois lados precisam de algo que o Brasil controla e nenhum consegue substituir no curto prazo, mas que exploram com instrumentos diferentes: capital concreto de um lado, sinalização diplomática e compromisso político do outro: a alavancagem rende quando o Brasil controla algo escasso e pode credivelmente ir para o outro lado. Onde essa condição não vale, hedging arrisca exposição.

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