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Geopolítica

Derrota de Trump nos EUA pode mudar o rumo de eleições pelo mundo?

Democratas conquistam o Congresso e ampliam o poder de fiscalização sobre a política externa americana

Trump
Especialista analisa possíveis reflexos nas disputas eleitorais da Europa, África e América Latina (Foto: creative commons)

A vitória do Partido Democrata nas eleições legislativas dos Estados Unidos, realizadas em 3 de novembro, alterou o equilíbrio de poder em Washington e abriu uma nova disputa sobre a política externa do presidente Donald Trump.

Com o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, os democratas poderão ampliar investigações, fiscalizar gastos militares e pressionar o governo em decisões relacionadas às guerras no Irã e na Ucrânia, além da assistência a Israel.

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A mudança ocorre às vésperas de eleições em países como Espanha, Nova Zelândia, Gâmbia, França e Argentina, onde as relações com Washington também fazem parte do debate político.

Embora o resultado americano possa influenciar o discurso de partidos e movimentos políticos estrangeiros, as eleições de cada país também dependem de fatores internos, como inflação, emprego, segurança e aprovação dos governos.

Para Cássio Eduardo Zen, doutor em Direito Internacional e docente de Direito Internacional Público e Privado no Centro Universitário de Pinhais (Fapi), a nova composição do Congresso poderá modificar a atuação diplomática dos EUA e oferecer referências políticas para campanhas em outros países.

Congresso dividido

Os democratas conquistaram as duas Casas do Congresso após dois anos de maioria republicana.

A nova legislatura começará em janeiro de 2027, quando Trump passará a enfrentar um Legislativo comandado pela oposição.

O partido poderá presidir comissões, convocar autoridades, exigir documentos e negociar limites para despesas federais.

No Senado, também terá influência sobre a confirmação de indicados pelo presidente para cargos diplomáticos e de segurança nacional.

Entretanto, Trump manterá o poder de veto e competências próprias na condução das relações internacionais.

Como os democratas não conquistaram uma maioria suficiente para derrubar vetos sem apoio republicano, mudanças legislativas continuarão dependendo de negociações.

"Então haverá uma influência, uma mudança da política externa dos Estados Unidos em relação a outros países? Certamente haverá. Porque a pressão financeira, a pressão fiscalizatória que o Congresso passa a exercer a partir de janeiro de 2027 é muito maior", afirma Zen.

A possibilidade de maior fiscalização já aparece nas discussões sobre a atuação americana na América Latina. 

A deputada democrata Pramila Jayapal pretendia investigar possíveis iniciativas do governo Trump em favor de Flávio Bolsonaro no Brasil.

A parlamentar também mencionou o interesse em examinar a atuação da Meta nas eleições brasileiras. 

Guerra no Irã

O conflito iniciado pelos EUA e por Israel contra o Irã, em fevereiro de 2026, tornou-se um dos temas da disputa eleitoral americana.

A elevação dos preços do petróleo, as despesas militares e as consequências econômicas da guerra passaram a integrar o debate sobre o custo de vida nos Estados Unidos.

Parlamentares democratas pretendem utilizar o controle do orçamento e os mecanismos de fiscalização para questionar a continuidade das operações militares sem autorização específica do Congresso.

A possibilidade inclui audiências públicas, pedidos de esclarecimento ao governo e restrições a determinadas despesas.

Zen relaciona a repercussão doméstica do conflito aos custos enfrentados pelos consumidores americanos, especialmente no transporte e na distribuição de mercadorias.

O controle democrata, contudo, não determina o encerramento da guerra. O presidente continua responsável pelo comando das Forças Armadas, e eventuais restrições aprovadas pelo Congresso poderão enfrentar disputas jurídicas e políticas.

Israel e Ucrânia

A relação entre Washington e Israel também poderá passar por maior fiscalização parlamentar.

Integrantes do Partido Democrata pretendem questionar o fornecimento de armas e a assistência militar americana, especialmente diante das operações israelenses em Gaza e na Cisjordânia.

O apoio a Israel, historicamente sustentado por representantes dos dois partidos americanos, enfrenta divergências crescentes entre parlamentares democratas e também críticas de setores republicanos.

Na Ucrânia, a nova maioria poderá defender a ampliação de recursos e equipamentos militares destinados a Kiev, além de pressionar pela manutenção de sanções contra a Rússia.

"Então a gente pode ter aí uma pressão maior do Congresso dos Estados Unidos para que Trump dê mais apoio ao governo ucraniano", destaca Zen.

Mesmo que o Legislativo aprove novos recursos, sua utilização dependerá das regras orçamentárias, da execução pelo Executivo e das condições operacionais dos programas de assistência.

Eleições europeias

A Espanha será um dos primeiros países a realizar eleições gerais depois da votação americana.

O pleito antecipado está marcado para 29 de novembro, após a decisão do primeiro-ministro Pedro Sánchez de dissolver o Parlamento.

O governo espanhol mantém divergências com Trump sobre comércio internacional, segurança e relações com aliados europeus.

Essas questões poderão integrar os debates eleitorais, juntamente com problemas internos da Espanha, como habitação, emprego e serviços públicos.

A França realizará o primeiro turno de sua eleição presidencial em 18 de abril de 2027, com eventual segundo turno em 2 de maio. Emmanuel Macron não poderá disputar um terceiro mandato consecutivo.

O cenário inclui partidos de centro, esquerda e direita, além do Reagrupamento Nacional, associado a Marine Le Pen.

O posicionamento diante de Trump poderá aparecer nas campanhas, mas não substitui debates franceses sobre imigração, poder de compra, segurança e integração europeia.

Zen considera que movimentos políticos internacionais podem oferecer referências de mobilização eleitoral.

"Pode, em dois sentidos. Primeiro, ela é mais um elemento nessa sequência de guinadas progressistas que a gente teve e também você pode ter um controle maior sobre as atitudes do governo dos Estados Unidos, a diplomacia estadunidense em relação ao mundo inteiro", avalia o professor.

Partidos com orientações diferentes continuam competindo em condições específicas em cada país.

A Finlândia também terá eleições parlamentares em 18 de abril de 2027, em um contexto no qual a segurança europeia e as relações com a Rússia fazem parte das discussões nacionais.

América Latina

Na Argentina, a eleição presidencial está prevista para outubro de 2027. O presidente Javier Milei mantém afinidades políticas com Trump, mas enfrenta desafios econômicos internos.

A redução do consumo e as dificuldades enfrentadas por setores industriais e comerciais têm pressionado a atividade econômica argentina.

Ao mesmo tempo, a política econômica de Milei produziu queda expressiva da inflação e mudanças nas contas públicas, resultados que também integram a disputa sobre seu governo.

O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, aparece entre os nomes discutidos pelo peronismo, mas as candidaturas ainda não estão formalmente definidas.

Em El Salvador, eleições presidenciais, legislativas e municipais estão previstas para 28 de fevereiro de 2027.

A relação do governo de Nayib Bukele com os EUA envolve cooperação migratória, segurança e questões diplomáticas.

Na Guatemala, que também escolherá presidente e parlamentares em 2027, o relacionamento com Washington poderá influenciar discussões sobre migração, comércio e combate ao crime organizado.

África e Oceania

Na Nova Zelândia, os eleitores irão às urnas em 7 de novembro, apenas quatro dias após a eleição americana. A votação decidirá a composição do Parlamento e a formação do próximo governo.

Questões como custo de vida, serviços públicos e políticas econômicas integram o debate nacional. 

Na África, a Gâmbia realizará sua eleição presidencial em 5 de dezembro de 2026, seguida pelas legislativas de 10 de abril de 2027.

 O país discute os limites do poder presidencial e a consolidação das instituições após o período autoritário de Yahya Jammeh.

Já a Guiné-Bissau enfrenta uma situação diferente. As eleições presidenciais e legislativas previstas para 6 de dezembro foram adiadas em outubro, após a ruptura institucional de 2025. Até esta quinta-feira (05), não havia uma nova data definida.

A Nigéria tem eleições gerais programadas para janeiro de 2027, enquanto o Quênia realizará seu próximo pleito nacional em agosto do mesmo ano.

Nesses países, temas como segurança, inflação, desenvolvimento econômico e funcionamento das instituições políticas compõem as disputas locais.

Limites da influência

Além das decisões oficiais do governo americano, campanhas políticas podem adaptar estratégias de comunicação utilizadas em outros países, incluindo vídeos, discursos e formas de mobilização nas redes sociais.

Zen menciona a circulação internacional de conteúdos eleitorais brasileiros e americanos como uma possível referência para movimentos políticos estrangeiros.

Entretanto, a semelhança entre manifestações e campanhas não comprova uma coordenação internacional nem estabelece relação direta entre resultados eleitorais.

No campo institucional, o primeiro teste concreto da nova maioria democrata ocorrerá com a instalação do Congresso em janeiro de 2027.

A partir desse momento, as comissões poderão definir investigações sobre a política externa de Trump e examinar propostas orçamentárias relacionadas a conflitos internacionais.

Em Israel, outro processo político estará em andamento. A eleição parlamentar de 27 de outubro deixou o bloco associado a Benjamin Netanyahu com 53 das 120 cadeiras, abaixo das 61 necessárias para formar maioria.

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