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Geopolítica

Da cabine do Gripen às fronteiras: quanto da defesa brasileira depende de Israel

Empresas israelenses participam de caças, drones, blindados, comunicações militares e vigilância de fronteiras

tecnologia israelense
Presença é estratégica, mas parte da tecnologia já é produzida no Brasil Foto: creative commons

Não existe um percentual oficial que mostre quanto da defesa brasileira depende de tecnologia israelense.

Os contratos estão espalhados entre Exército, Marinha e Aeronáutica, e parte das informações sobre componentes, estoques, códigos e manutenção é sigilosa.

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O que os documentos públicos permitem identificar é uma presença relevante em áreas sensíveis.

Empresas ligadas a Israel aparecem em aviônicos de caças, drones, sistemas de comunicação, sensores de fronteira, blindados, mísseis e projetos de artilharia.

Para Cássio Eduardo Zen, doutor em Direito Internacional e docente do Centro Universitário de Pinhais (Fapi), essa relação não ocorre apenas pela importação direta.

“Existem empresas israelenses que têm tecnologia muito utilizada no Brasil. Eu destaco a Elbit Systems, a Israel Aerospace Industries e a Rafael Advanced Defense Systems. Elas têm papel importante na nossa base de defesa, inclusive por meio de subsidiárias instaladas no país”, explica Zen.

Gripen brasileiro

Um dos exemplos está no caça mais moderno da Força Aérea Brasileira. O F-39 Gripen é produzido pela sueca Saab, mas a AEL Sistemas, empresa brasileira controlada pela israelense Elbit Systems, fornece equipamentos fundamentais do cockpit, entre eles o Wide Area Display, a grande tela panorâmica utilizada pelo piloto.

A empresa também participa dos sistemas de visualização instalados no capacete e no campo de visão do piloto.

Parte dessa tecnologia foi desenvolvida no Brasil dentro do programa de transferência tecnológica do Gripen e acabou adotada também pela própria Força Aérea Sueca.

Comunicação militar

A AEL também desenvolve o Link-BR2, sistema utilizado para compartilhar informações militares criptografadas entre aeronaves, unidades terrestres e outros meios das Forças Armadas.

O Ministério da Defesa identifica o projeto como desenvolvido pela AEL/Elbit. A tecnologia já foi utilizada para conectar aeronaves como Gripen, F-5M, A-29 e E-99 durante exercícios militares.

Esse tipo de sistema é estratégico porque permite que um sensor detecte uma ameaça e distribua a informação para outras unidades quase em tempo real.

Zen ressalta, porém, que fabricar uma tecnologia dentro do país não significa necessariamente possuir todo o conhecimento necessário para reproduzi-la de forma independente.

“É muito difícil que a transferência tecnológica seja plena. Muitas vezes uma parte é produzida aqui e outra continua no país de origem porque é considerada sensível estrategicamente”, pondera o professor.

Drones israelenses

A dependência é mais direta nas aeronaves remotamente pilotadas. A FAB utiliza os Hermes 450 e Hermes 900, fabricados pela Elbit Systems, além do Heron I, produzido pela Israel Aerospace Industries.

Os equipamentos são empregados em missões de inteligência, vigilância e reconhecimento.

Em 2022, a Elbit anunciou novo contrato para fornecer Hermes 900 e peças sobressalentes ao Brasil.

Já os Heron foram incorporados por meio de cooperação entre a FAB e a Polícia Federal.

Nesse segmento, uma eventual ruptura prolongada poderia atingir peças, sensores, manutenção e atualizações, embora não existam informações públicas suficientes para calcular durante quanto tempo o Brasil conseguiria operar a frota sem apoio externo.

Fronteiras brasileiras

Tecnologia israelense também aparece no Sisfron, sistema criado pelo Exército para monitorar as fronteiras brasileiras.

A AEL forneceu equipamentos eletro-ópticos utilizados no programa, incluindo câmeras, visão noturna e sensores térmicos.

Parte dos componentes inicialmente vinha do exterior, enquanto integração e manutenção foram internalizadas no Brasil.

Blindados Guarani

A israelense Elbit também está presente indiretamente nos blindados Guarani por meio da Ares Aeroespacial e Defesa, empresa instalada no Rio de Janeiro e controlada pelo grupo.

A Ares fabrica sistemas como o REMAX, estação de armas remotamente controlada utilizada pelo Exército. Em 2016, foram contratadas 215 unidades por aproximadamente R$ 328 milhões.

Apesar do controle israelense da empresa, o REMAX foi desenvolvido no Brasil em parceria com o Centro Tecnológico do Exército.

Portanto, classificá-lo apenas como tecnologia israelense esconderia o grau de participação brasileira no projeto.

Mísseis e sensores

Outra fabricante israelense importante é a Rafael Advanced Defense Systems.

A FAB utiliza armamentos como o míssil Python, empregado nos caças F-5M, e já contratou sistemas israelenses de guerra eletrônica destinados à proteção de aeronaves contra radares e outras ameaças.

Nesse tipo de equipamento, a substituição de fornecedor não ocorre apenas pela compra de um produto equivalente.

Um novo míssil precisa ser integrado ao avião, testado, certificado e incorporado aos sistemas eletrônicos e aos procedimentos operacionais da Força.

“O custo de substituição não é apenas adquirir outro equipamento. É adaptar, integrar, certificar e treinar novamente”, observa Zen.

Artilharia israelense

A presença pode aumentar nos próximos anos. O Exército selecionou em 2024 o ATMOS 155 mm, da Elbit Systems, como vencedor da concorrência para seu novo obuseiro autopropulsado sobre rodas. A intenção inicial envolve 36 equipamentos.

A contratação sofreu atrasos depois da deterioração das relações políticas entre Brasil e Israel e ainda não havia sido concluída durante esta apuração.

O caso demonstra que política externa pode interferir diretamente em decisões militares.

Mesmo depois da escolha técnica de um equipamento, uma crise diplomática pode dificultar contratos, entregas ou aprofundamento da cooperação.

Risco tecnológico

Zen aponta que a vulnerabilidade mais difícil de enxergar pode estar no software e na propriedade intelectual.

Equipamentos militares modernos dependem de códigos, sistemas criptográficos e atualizações que não são necessariamente transferidos integralmente ao país comprador.

“Quem fornece a atualização? Quem fornece os algoritmos sensíveis? Muitas vezes parte da tecnologia continua no outro país”, questiona o internacionalista.

O especialista também cita riscos teóricos envolvendo acessos ocultos ou mecanismos de bloqueio remoto.

Não há, porém, qualquer evidência pública de que equipamentos israelenses utilizados pelo Brasil possuam backdoors ou sistemas capazes de ser desligados remotamente por Israel.

Um possível embargo

Uma ruptura diplomática também não faria os equipamentos brasileiros pararem imediatamente.

O país possui oficinas, estoques, equipes treinadas e capacidades de manutenção próprias.

Parte das tecnologias fornecidas por empresas israelenses também já possui produção nacional.

O problema apareceria conforme fossem necessárias peças específicas, atualizações ou componentes que não pudessem ser produzidos internamente.

Zen chama esse fenômeno de aprisionamento tecnológico, quanto mais integrado um equipamento estrangeiro está a outros sistemas militares, mais caro e demorado se torna trocar o fornecedor.

“A interrupção de novas compras ou um embargo teria impacto na reposição de peças e na manutenção de longo prazo. A substituição exigiria negociação com outros países e depois a integração dos novos sistemas”, avalia.

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