O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, amarga uma derrota das eleições de meio mandato que ocorreram na última terça-feira (03).
Os democratas voltaram a ter maioria da Câmara dos Representantes e do Senado americanos e, agora, Trump perde boa parte de sua governabilidade nos próximos dois anos de mandato.
O Partido Democrata recuperou o controle da Câmara dos Representantes, que possui 435 cadeiras e exige pelo menos 218 para formar maioria. Os democratas também conquistaram a maioria das 100 cadeiras do Senado.
A partir de janeiro de 2027, os democratas terão condições de ampliar investigações parlamentares, dificultar nomeações, questionar decisões administrativas e impor maiores custos políticos à agenda presidencial de Donald Trump.
Por outro lado, há benefícios políticos, institucionais, econômicos e sociais dessa mudança.
No plano partidário, José Renato Ferraz da Silveira, professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), explica que os democratas conquistaram maior capacidade de influenciar a agenda legislativa e fiscalizar a administração presidencial. Entretanto, também assumirão maior responsabilidade pelos resultados políticos produzidos em Washington.
"Quando você sai de uma oposição parlamentar e menor número, para uma oposição parlamentar e maior número, aumenta a responsabilidade ou as responsabilidades, aumentam também os custos políticos", afirma Silveira.
A oposição parlamentar, no caso dos democratas, deixa de ser apenas uma posição de contestação e passa a envolver responsabilidades de negociação e governabilidade. No interior do Partido Democrata, poderá encontrar maior espaço para apresentar propostas mais progressistas relacionadas à desigualdade, aos direitos sociais, à proteção das minorias e à regulação econômica.
Mas isso não significa que suas propostas serão automaticamente aprovadas. A composição ideológica da bancada e as negociações com setores moderados continuarão sendo decisivas.
Os grupos historicamente subrepresentados também conquistaram avanços importantes. Isso é inegado em termos de presença institucional: eleição de mulheres, negros, indígenas e representantes de minorias religiosas e sexuais possui um significado simbólico e político relevante. Esse é um dos símbolos principais da eleição de meio mandato. Ainda assim, representatividade não deve ser confundida com transformação social automática.
No campo republicano, a nova conjuntura pode intensificar o debate sobre a relação entre o partido e Donald Trump. Setores mais identificados com o presidente terão de avaliar os efeitos eleitorais desta associação. Outros poderão defender maior autonomia partidária.
Os efeitos econômicos
Já no setor empresarial, os efeitos serão heterogênios. O professor explica que empresas afetadas por tarifas comerciais poderão encontrar oportunidades de revisão legislativa.
Por outro lado, a intensificação dos conflitos entre Executivo e Legislativo pode ampliar a incerteza regulatória e segmentária.
Na política externa, governos que enfrentam pressões da administração Trump poderão encontrar maior espaço de negociação, como é o caso do Brasil.
"Esse é um ponto também importante e decisivo. Mas não devemos esquecer que a política internacional norte-americana possui continuidades estratégicas que ultrapassam a alternância partidária", afirma Silveira.
Beneficiário institucional
O especialista ainda destaca um beneficiário institucional potencial com o resultado das eleições: o próprio sistema de freios e contrapesos.
A ampliação da fiscalização parlamentar pode fortalecer mecanismos de responsabilização do Executivo, mas seus efeitos dependerão da capacidade das instituições de exercer essas funções de maneira efetiva.
"Então o resultado não representa simplesmente uma transferência de poder entre os partidos, representa uma redistribuição da capacidade de controlar, negociar e limitar o exercício do poder presidencial. E essa é a consequência institucional mais importante", afirma o professor.
Brasil se deu bem
Para o Brasil, que recentemente elegeu à Presidência o adversário do aliado de Donald Trump, a mudança na composição do Congresso norte-americano representa uma alteração importante no ambiente político bilateral.
Ainda assim, vale lembrar que a relação entre Brasil e Estados Unidos não depende exclusivamente das preferências pessoais de seus presidentes. Ela envolve interesses comerciais, instituições, investimentos, segurança, tecnologia e disputas geopolíticas.
O resultado desta terça poderá ampliar a fiscalização sobre decisões tarifárias questionadas, determinadas iniciativas de política externa e principalmente aumentar o custo político de medidas unilaterais adotadas pela Casa Branca. Dessa forma, a diplomacia brasileira terá mais oportunidades de diálogo em diversas áreas.
Silveira alerta que o cenário não é totalmente otimista, visto que o próprio partido democrata possui setores protecionistas, preocupados com a indústria norte-americana, com a competição internacional e a preservação da liderança econômica dos Estados Unidos.
Portanto, uma maioria democrata não significa necessariamente uma política comercial favorável ao Brasil, mas o governo Lula deve aproveitar esse momento para ampliar sua negociação e preservar sua autonomia diplomática.
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