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Economia

O tamanho da dor de cabeça que o El Niño pode gerar na economia

O setor do agronegócio pode ser um dos mais impactados pelas mudanças climáticas

Imagem de satélite do El Niño
Quando a produção do agro recua, o efeito se propaga em ondas, segundo especialistas (Foto: Wikimedia Creative Commons/ NASA Earth Observatory/Lauren Dauphin)

O Brasil já está sofrendo com os efeitos do El Niño e os impactos climáticos e na economia podem aumentar ao longo dos próximos meses.

Para o agronegócio, um dos principais setores do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, a preocupação é o desencontro entre chuva e fases decisivas da produção. 

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"O atraso ou irregularidade das precipitações pode atrapalhar o plantio e o desenvolvimento das culturas, enquanto chuva excessiva impacta afeta a colheita, pode prejudicar a qualidade da produção e prejudica a logística. O efeito concreto depende do tipo de cultura, da região e do calendário agrícola", explica Gustavo Verardo, meteorologista da Climatempo.

Nesse cenário, há risco de aumento no preço dos alimentos para os consumidores, mas vale destacar que o El Niño não significa alta automática e uniforme dos alimentos.

"Se o excesso ou a falta de chuva afetar produtividade, qualidade, colheita ou transporte em regiões produtoras, a oferta de determinados produtos pode diminuir e pressionar seus preços. Hortifrutigranjeiros, por sua perecibilidade, também são sensíveis a perdas e dificuldades logísticas. O efeito no consumidor depende da cultura atingida, da escala da quebra, dos estoques, das importações, do câmbio e de outros custos. Portanto, é mais correto identificar produtos e regiões expostos do que projetar uma alta generalizada apenas pela presença do fenômeno", afirma o especialista.

Ainda assim, há um canal de transmissão praticamente direto na inflação. Estudo da EQI Research obtido por O Brasilianista mostra que a janela crítica para o agronegócio brasileiro é o período entre outubro e março, que coincide com o plantio e o desenvolvimento das principais culturas de verão, incluindo soja e milho primeira safra.

Quando a produção desses grãos recua, o efeito se propaga em ondas: primeiro os preços no campo, depois as gôndolas, e por fim a pecuária, via custo de ração. Há ainda um segundo canal relevante: a energia elétrica. A estiagem no Centro-Oeste e no Norte reduz os níveis dos reservatórios e aciona as termelétricas, com repasse direto à tarifa e efeito difuso sobre a inflação de serviços.

O que é o El Niño?

O El Niño é um fenômeno oceânico atmosférico de aquecimento acima do padrão das águas da porção central e leste do Pacífico Equatorial, acompanhado por mudanças na circulação da atmosfera. Essa combinação altera a distribuição de chuvas e temperaturas em várias partes do mundo.

No Brasil, o sinal mais conhecido é o aumento da chuva no Sul, sobretudo na primavera e no início do verão. No Norte e em parte do Nordeste, cresce o risco de chuva abaixo da média e estiagem. Já no Sudeste e no Centro-Oeste, os efeitos dependem mais da época e de uma combinação de outros sistemas meteorológicos atuantes.

Em função disso, podem ocorrer calor acima da média e chuva irregular, sem que isso signifique seca generalizada. O fenômeno influencia probabilidades, mas não explica, sozinho, cada tempestade, enchente ou onda de calor que ocorra enquanto o El Niño estiver ocorrendo.

Gustavo Verardo, o meteorologista da Climatempo, revela que já há sinais de influência do El Niño no Brasil, como as chuvas intensas registradas no Sul em julho.

Especialistas ainda trabalham com a possibilidade de um “Super El Niño” , ou seja, um episódio do fenômeno excepcionalmente intenso. Verardo alerta, no entanto, que não é correto tratar essa expressão como uma confirmação de recorde.

De todo modo, a tendência é de intensificação do fenômeno entre a primavera e o começo do verão de 2026/2027, com efeitos possíveis ao longo de todo o verão, e as projeções atuais apontam que o enfraquecimento deve se dar no decorrer do outono de 2027.

"Trata-se de uma previsão sujeita a atualização, pois o momento e a intensidade dos impactos em cada local exigem acompanhamento contínuo. A partir dessa segunda quinzena de setembro os efeitos passam a ser diretos pelo fenômeno El Nino, sobretudo com temporais e muita chuva na Região Sul, e estiagem com temperaturas elevadas entre Nordeste e Norte por exemplo", afirma o meteorologista.

O efeito na inflação

O estudo da EQI Research mostra que, em cenário forte a muito forte do fenômeno, o impacto acumulado sobre a inflação de alimentos pode superar 3 p.p., com efeito direto sobre o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) cheio entre 0,4 e 0,7 p.p. pelo canal alimentar isolado.

Impactos do cenário de El Niño na inflação de alimentação no domicílio (%)

TrimestreFracoModeradoForteMuito forte
10,410,821,371,92
20,801,602,683,74
30,891,782,984,16
40,761,522,553,57
50,601,202,022,81
60,511,021,722,40
70,501,001,672,33
80,521,041,742,43
90,541,091,822,54
100,561,121,872,61
110,561,131,892,64
120,561,131,902,65

Fonte: EQI Research

Esse número deve ser lido como piso: o canal de energia e o repasse indireto para serviços adicionam pressão não quantificada aqui.

Vale lembrar que os resultados têm implicação direta para a condução da política monetária.

"As expectativas de inflação para 2027 já estão acima da meta, o que significa que o choque climático chega num momento em que a âncora já está comprometida. Um choque altista sobre expectativas desancoradas é qualitativamente diferente de um choque sobre expectativas ancoradas: o custo de desinflação é mais alto, o tempo de convergência é mais longo e a tolerância do Copom para surpresas inflacionárias deve ser menor", afirmam os analistas. 

El Niño e o risco no agronegócio

Mara Rubia Domingues, economista e integrante do Fórum de Economia Solidária e Responsabilidade Social do Corecon-SP, revela que o principal caminho de aumento no preço dos alimentos nesse cenário é pela oferta, visto que as mudanças climáticas podem afetar a produtividade do agro.

"Se há redução da oferta ou aumento dos custos para produzir e fazer o alimento chegar ao mercado, alguns preços podem subir. 
Mas não é uma relação automática. O resultado depende de quais culturas e regiões foram afetadas, dos estoques disponíveis, das importações, do câmbio, dos preços internacionais e das condições de cada mercado", explica Domingues. 

Ela reitera que o El Niño pode aumentar o risco de pressão sobre determinados preços. No entanto, os efeitos no setor agro não são iguais para todas as produções.

"Então, a ocorrência do El Niño não significa necessariamente uma queda generalizada da produção agrícola. Esse cuidado é importante neste momento. A Conab projeta uma produção de até 366,6 milhões de toneladas de grãos na safra 2026/27, acima da temporada anterior, embora ressalte que o desempenho das culturas continuará dependendo das condições climáticas ao longo do ciclo", afirma a economista. 

O problema econômico do próximo governo

Os impactos do El Niño — ou um possível "Super El Niño" — podem aparecer em diferentes pontos da economia. Uma condição climática adversa pode afetar a produção agropecuária, aumentar custos, reduzir a renda de produtores e criar dificuldades de abastecimento e logística.

Dependendo da intensidade, esses efeitos podem chegar aos preços, à inflação e ao poder de compra das famílias. Eventos extremos também podem trazer perdas de infraestrutura e exigir recursos públicos para atendimento emergencial e reconstrução.

"Caso realmente venha um El Niño forte, [...] pode ocasionar uma certa piora na questão do crédito no agro que eventualmente o governo pode ver como necessário algum tipo de ajuda adicional para o setor, caso tenha realmente perdas relevantes na produtividade. Isso está fragilizando ainda mais o produtor agrícola que já vem sofrendo há alguns anos com uma margem já muito baixa e ter um impacto de produtividade sem ter a compensação pelo preço poderia ser necessário algum tipo de subsídio por parte do governo para que o produtor se mantivesse solvente", descreve Felipe Marques, CFO da Boa Safra.

Seguro rural, diversificação da produção, gestão da água, estoques, infraestrutura mais preparada, sistemas de monitoramento e instrumentos de financiamento são algumas formas de reduzir a vulnerabilidade e as perdas, de acordo com os especialistas.

"Eu evitaria falar em 'blindagem', porque não existe proteção completa contra um fenômeno dessa natureza. Faz mais sentido falar em prevenção, adaptação e gestão de riscos", complementa Domingues, do Corecon-SP.

Antecipar riscos e fortalecer a capacidade de resposta antes que os impactos ocorram pode ser mais eficiente do que atuar apenas depois das perdas.

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