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Geopolítica

A relação Trump e Lula vai mudar

Nos próximos dois e últimos anos de mandato do republicano, a postura diante do Brasil terá novas faces

Lula e Trump
Não haverá papel de subordinação do Brasil frente aos EUA (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) muda a estratégia do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação ao Brasil.

Seu aliado, Flávio Bolsonaro (PL), perdeu as eleições no segundo turno, que aconteceu no último domingo (25), por pouco mais de 4 milhões de votos de diferença.

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Agora em um quarto governo Lula, José Renato Ferraz da Silveira, professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) avalia que não haverá papel de subordinação do Brasil frente aos EUA.

Desde o ano passado, um importante lema da campanha do petista foi a importância da soberania nacional e o enfrentamento direto à Donald Trump sobre as sanções econômicas e políticas.

"O governo Lula sempre marcou, sempre caracterizou por essa autonomia estratégica, por essa autonomia por diversificação. A soberania não é uma concessão das grandes potências. É um princípio fundamental da ordem internacional, e o Brasil leva muito a sério, pelo menos a administração, a gestão Lula", avalia Silveira. 

A vitória de Lula modifica um pouco o contexto político das relações entre Brasil e EUA, mas é importante lembrar que o poder não está simplesmente nas mãos de Lula ou de Trump. Isso porque ele está distribuído de maneira simétrica entre os estados, as instituições, os mercados e as capacidades estratégicas.

"Os EUA são uma superpotência militar, tecnológica e financeira, uma potência de primeira grandeza e o Brasil possui relevância econômica, diplomática, ambiental, alimentar e é um ator regional. Então essa vitória eleitoral do Lula fortalece sua legitimidade democrática doméstica para conduzir uma política externa brasileira", afirma o professor.

Por outro lado, esses fatores não significam que Lula passe a dispor de maior poder material do que Donald Trump.

"Essa relação bilateral, eu imagino que continuará tensa e polarizada. Os interesses podem divergir entre Brasil e Estados Unidos no que tange o comércio, investimentos, tecnologia, meio ambiente, segurança e, principalmente, posicionamentos internacionais", reitera.

Para ele, a diplomacia brasileira deverá ser muito eficaz para preservar os canais de negociação sem transformar essas diferenças políticas em rupturas desnecessárias.

Silveira acredita que Lula deve manter a autonomia, pragmatismo e defesa inequívoca da soberania nacional brasileira. O grande problema agora está em Trump e as eleições de meio mandato. 

Se o republicano perder a maioria de aliados no Senado e na Câmara, o internacionalista prevê que Trump ficará um pouco menos ousado, atrevido e agressivo em relação à sua política externa. Vale lembrar que Trump possui apenas mais dois anos de mandato e não poderá mais ser eleito.

Os riscos da articulação entre Trump e os Bolsonaro

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil com destino aos EUA após descumprir a determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para entregar seus passaportes à Polícia Federal.

Pessoas próximas ao senador confirmaram a viagem nesta terça-feira (27). Uma fonte ligada à família Bolsonaro e ao governo de Donald Trump informou ter conhecimento da partida, enquanto outro interlocutor afirmou que o parlamentar chegaria à Flórida durante a tarde.

Uma fonte que mantém contato com integrantes do Partido Republicano há mais de uma década afirmou que Flávio poderia estabelecer uma atuação política a partir da Flórida.

O interlocutor levantou a possibilidade de o senador tentar organizar uma espécie de governo no exílio, sem apresentar evidências de que exista uma estrutura constituída ou de que Flávio tenha adotado essa estratégia.

O professor de Relações Internacionais indica que o clã Bolsonaro possui canais abertos no Departamento de Estado americano, além de proximidade de Marco Rubio, o secretário de Estado. 

"Marco Rubio é, de fato, um personagem importante nessa condução da política externa dos Estados Unidos na América Latina e principalmente a essa relação muito tensa, muito polarizada com o Brasil", afirma.

Segundo o especialista, os EUA devem seguir utilizando a pressão econômica, além de continuar "constrangendo" o Brasil com dois membros da família Bolsonaro por lá.

"Imagino que nos próximos dias Donald Trump e Marco Rubio dê em palavra, reforce o apoio a Flávio Bolsonaro", revela.

Uma situação muito similar aconteceu na Venezuela, de colocar o candidato supostamente derrotado como eleito na visão do governo Trump, como ocorreu com Juan Guaidó. Por isso, há o risco do republicano fazer o mesmo com o Brasil.

A diferença entre os casos de Juan Guaidó com a eleição de Lula em 2026 é que muitos países do mundo reconheceram de imediato a vitória do petista no pleito presidencial. No caso venezuelano, nem mesmo o Brasil reconhecia o resultado eleitoral.

"Tudo depende dessa questão no dia 3 de novembro, dessa eleição midterm. Se Donald Trump tiver um fracasso eleitoral, como eu suspeito que ocorrerá, essa influência e projeção da família Bolsonaro tende, então, a diminuir", afirma.

Para o Brasil, uma derrota de Donald Trump pode ajudar a política externa de um governo Lula 4.

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