Após as eleições do Brasil, agora é a vez dos americanos irem às urnas no dia 3 de novembro para redefinir as cadeiras do Congresso. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta um grande desafio nesta eleição.
O cenário é complexo para o republicano, que tenta manter um Congresso favorável nas eleições de meio mandato enquanto lida com a maior rejeição de seu governo entre a população. Para isso, ele é capaz de juntar Washington e Moscou em parceria curiosa da geopolítica.
As eleições de midterm renovam toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado. O presidente não aparece na cédula, mas o resultado costuma funcionar como um julgamento político dos dois primeiros anos de governo.
Neste ano, o próprio Trump decidiu assumir papel central na campanha: anunciou uma maratona eleitoral de 32 dias e pediu aos republicanos que tratem novembro como se seu próprio nome estivesse nas urnas.
O cenário é particularmente importante na Câmara. Os republicanos possuem uma maioria mínima e enfrentam risco real de perdê-la. No Senado, os democratas precisam obter quatro cadeiras líquidas para assumir o controle.
Se Trump mantiver as duas Casas, terá muito mais espaço político para aprofundar a agenda externa durante os dois últimos anos de mandato. Já se perder uma ou ambas, continuará controlando a diplomacia e possuindo amplos poderes presidenciais, mas poderá enfrentar mais investigações, bloqueios orçamentários e resistência legislativa.
A dor de cabeça é grande: pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 19 de outubro mostra que a aprovação do presidente dos EUA caiu para o nível mais baixo já registrado, com somente 31% dos americano avliando seu governo como positivo. As principais preocupações estão na inflação e preço dos combustíveis.
Segundo José Renato Ferraz da Silveira, professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o que está em disputa não é apenas a composição do Congresso, mas a capacidade de Donald Trump continuar implementando sua agenda política com respaldo legislativo.
"Eu chamo a atenção para três variáveis fundamentais: o custo de vida, a percepção sobre a condução dos conflitos internacionais e a mobilização do eleitorado", avalia o internacionalista.
Ele ainda destaca que há uma dimensão simbólica importante. A derrota de um aliado internacional, no caso de Flávio Bolsonaro (PL), demonstra que o alinhamento com Washington não assegura por si só sucesso exito eleitoral.
"Então, a política não funciona por transferência automática de prestígio. Na minha avaliação, o ponto central é compreender se estamos diante de uma cristalização do Trumpismo como força política duradoura ou de um processo de desgaste de sua capacidade de mobilização", afirma.
Porém, a resposta dependerá dos resultados eleitorais e da reorganização das forças políticas estadunidenses.
As tentativas de Trump para sustentar as eleições
Donald Trump tem procurado combinar três instrumentos políticos para manter a maioria republicana no Congresso americano: mobilização de sua base eleitoral, a utilização da agenda presidencial para estabelecer prioridades públicas e iniciativas econômicas destinadas a reduzir um amplo desgaste do seu governo.
Uma política migratória, discurso de segurança nacional e a defesa da soberania econômica continuam sendo elementos centrais da sua comunicação política, que fez sucesso e êxito durante a campanha presidencial, mas perdeu um pouco o efeito nesses dois anos.
"O presidente Donald Trump prometeu prosperidade econômica e uma política externa menos intervencionista. Agora ele encontra-se diante das consequências econômicas de uma guerra com o Irã. A elevação dos preços, dos combustíveis então passou a representar um desafio político relevante", afirma o professor.
Nesse contexto, o acordo para ampliar a oferta de diesel russo precisa ser compreendido também com uma tentativa de responder às expressões domésticas. Para o especialista, Trump procura apresentar decisões internacionais como demonstrações de sua capacidade de negociação.
Um dos principais desafios republicanos é transformar a narrativa da força presidencial de Trump, agora um pouco impopular, em resultados econômicos percebidos pela população.
"Há uma diferença fundamental entre mobilizar — isso ele sabe fazer muito bem, uma base eleitoral — e conquistar o apoio suficiente para sustentar uma maioria parlamentar", diz.
O acordo de diesel
O Brasilianista mostrou como Trump abandonou seu aliado histórico, a Ucrânia, e se tornou mais próximo à Rússia neste momento.
Nas últimas semanas, Trump se esforça para reintegrar o presidente russo Vladimir Putin à diplomacia global, emplacando o líder ucraniano Volodmir Zelenski como o principal obstáculo do acordo de paz com a guerra entre Rússia e Ucrânia — a qual o americano insiste que está fazendo um bom papel como mediador das negociações.
Enquanto a Ucrânia é forçada a aceitar recuos estratégicos e cláusulas prejudiciais no acordo de paz, Trump aperta a mão de Putin ao se beneficiar de um contrato de diesel com a Rússia enquanto o conflito com o Irã persiste.
Trump anunciou recentemente seus planos de importar diesel da Rússia, buscando diminuir o impacto do aumento do combustível e inflação nos EUA causado pela guerra contra o Irã.
O republicano indicou que Vladimir Putin deve liberar imediatamente 300 mil toneladas de diesel "para o mercado americano e global", seguidas por várias outras remessas. A Rússia ainda forneceria mais 500 mil toneladas e em novembro e outras um milhão de toneladas em seguida.
Por outro lado, há poucas semanas, Trump sancionou uma lei que impõe sanções e tarifas aos países que importarem petróleo e gás russos. Legisladores ainda se questionam se a medida é legal.
Já os líderes da Ucrânia e seus apoiadores ficaram preocupados, visto que a receita proveniente das exportações de energia ajuda a financiar a guerra da Rússia contra o país vizinho.
Contudo, Silveira alerta que é preciso ter cautela ao entender se os EUA sacrificaram a Ucrânia nesse momento. Ainda assim, ele confirma que houve uma mudança significativa na orientação da política externa norte-americana em relação à Rússia.
"Durante anos os Estados Unidos pressionaram seus aliados europeus para reduzir a dependência energética da Rússia. E agora Donald Trump diante das pressões inflacionárias e dos custos políticos da guerra no Oriente Médio que ele mesmo causou, ele está procurando ampliar a disponibilidade do combustível russo", avalia o professor de Relações Internacionais.
O entendimento é de que o governo norte-americano parece atribuir prioridade crescente às consequências domésticas no preço da energia. No entanto, isso não comprova que Trump tenha de forma deliberada decidido sacrificar a Ucrânia para vencer as eleições.
A pressão sobre a política migratória
A política migratória é uma das principais dimensões da identidade política do Trumpismo. Agora, também é um dos principais problemas do governo.
A Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês), órgão federal responsável por atividades de fiscalização e aplicação da legislação migratória, ocupa a posição central nesse processo.
O ICE já matou imigrantes em protestos, além de realizar uma série de prisões e deportações violentas durante o segundo mandato de Trump. A operação do órgão se tornou uma das principais marcas do governo do republicano, o que também virou um tiro no pé para as eleições de meio mandato.
"Eu devo aqui destacar e distinguir duas questões. A primeira é o direito de um Estado estabelecer e executar sua política migratória. A segunda é a obrigação de respeitar garantias legais, direitos fundamentais e princípios humanitários durante sua execução", afirma Silveira.
Para o professor, o desafio político, surge quando ações de fiscalizaçãopossam produzir controvérsias sobre proporcionalidade, devido processo legal, e tratamento dispensado aos imigrantes. E justamente essas controvérsias que podem ampliar a polarização.
"Para determinados segmentos do eleitorado estadunidense, uma política migratória rigorosa representa o cumprimento de uma promessa presidencial. Para uma outra parcela, especialmente quando envolve denúncios de abusos, ela pode representar uma ameaça a direitos e garantias fundamentais", explica.
Ainda assim, nem toda a ação do ICE diminui automaticamente a aprovação de Donald Trump.
O especialista lembra que essa legitimidade do poder estatal não depende exclusivamente de sua capacidade de coerção. Dessa forma, a democracia constitucional não se define apenas pelo poder de decidir, mas também pelos limites impostos à autoridade.
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