A Bolsa brasileira acionou o circuit breaker (ferramenta regulatória que suspende os negócios na bolsa de valores para conter o pânico e evitar vendas ou quedas desordenadas) pela primeira vez desde março de 2020, durante a pandemia de Covid-19, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A interrupção ocorreu nesta segunda-feira (26), quando o Ibovespa atingiu queda de 10% na abertura do pregão.
Após a retomada das negociações, o índice chegou a despencar mais de 16%, aproximando-se dos 170 mil pontos.
O dólar, que havia encerrado a sexta-feira a R$ 4,99, disparou 12,52% na abertura, alcançando R$ 5,60. Por volta das 11h, a moeda americana era negociada a R$ 5,5092, ainda com valorização superior a 10%.
A reação à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começou horas antes, na Ásia, onde um fundo de ações brasileiras negociado em Tóquio chegou a despencar 15%.
Nos Estados Unidos, o iShares MSCI Brazil (EWZ), que reúne grandes empresas do país, registrou perdas próximas de 27% no pré-mercado, antecipando a pressão sobre os ativos nacionais.
Os movimentos ocorreram depois de semanas em que investidores apostaram na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado no segundo turno de domingo (25).
Antes do segundo turno, o Ibovespa acumulava ganhos de quase 7% desde a primeira votação, enquanto o real havia avançado aproximadamente 5% diante do dólar.
O resultado de domingo (25), que deu 51,79% dos votos válidos a Lula, contrariou as apostas de parte dos gestores e desencadeou uma revisão dos preços de ações, moedas e títulos brasileiros.
Primeiro impacto
O mercado japonês foi um dos primeiros a refletir o resultado eleitoral. O NEXT Funds Ibovespa Linked, fundo administrado pela Nomura que acompanha o principal índice acionário brasileiro, caiu aproximadamente 13% na abertura em Tóquio, segundo a Bloomberg Línea. A Reuters registrou desvalorização de até 15% durante as negociações.
O movimento foi contrário ao observado após o primeiro turno, quando o mesmo fundo avançou quase 8% diante da liderança inicial de Flávio Bolsonaro.
A comparação mostra como investidores estrangeiros passaram a ajustar suas posições conforme as expectativas eleitorais.
Na Coreia do Sul, o Kospi encerrou a sessão com recuo de 1,46%, enquanto o Nikkei 225, do Japão, perdeu 0,80%. O índice Shenzhen Composto, na China, caiu 1,13%.
Outros mercados fecharam em alta. O Hang Seng, de Hong Kong, avançou 0,51%, e o Xangai Composto subiu 0,19%. Na Austrália, o S&P/ASX 200 registrou valorização de 0,17%.
A cautela asiática também esteve relacionada às tensões entre Estados Unidos e Irã, aos riscos para o abastecimento de petróleo e às decisões de juros previstas para esta semana.
Bancos pressionados
Em Nova York, as maiores perdas atingiram instituições financeiras. A XP chegou a recuar mais de 45% nas negociações anteriores à abertura regular.
Os recibos de ações do Bradesco caíam 28,75%, enquanto os do Itaú Unibanco perdiam 27,1%.
A Petrobras também sofreu forte desvalorização. Às 6h17, seus papéis eram negociados a US$ 20, ante US$ 26,16 no fechamento de sexta-feira, uma queda de 23,53%. A Braskem chegou a perder 31,76%, e o Nubank apresentou recuo superior a 20%.
Mercados europeus
Enquanto os ativos brasileiros recuavam, as bolsas europeias apresentavam desempenho predominantemente positivo.
O índice Stoxx 600 avançava 0,45% por volta das 6h45, no horário de Brasília. Londres, Frankfurt, Paris e Milão operavam em alta, enquanto Madri e Lisboa registravam perdas.
O comportamento distinto estava relacionado às perspectivas de juros, à temporada de balanços empresariais e ao recuo do petróleo.
O Brent caía cerca de 1,8% durante a sessão asiática, após uma semana de valorização provocada pelas tensões no Oriente Médio.
Limites ampliados
No Brasil, a B3 anunciou uma alteração excepcional nos limites de oscilação de contratos futuros para esta segunda-feira.
O limite inferior dos futuros do Ibovespa passou de 10% negativos para 15% negativos. Para os contratos de dólar, o teto de variação positiva foi elevado de 6% para 8,4%.
O mecanismo interrompe inicialmente as negociações do Ibovespa por 30 minutos quando a queda atinge 10% em relação ao fechamento anterior.
O dólar havia encerrado a sexta-feira a R$ 4,993. Antes da abertura doméstica, contratos negociados em Chicago chegaram a indicar uma cotação equivalente a R$ 5,55, refletindo a demanda pela moeda americana durante a madrugada.
Risco fiscal
A principal preocupação dos investidores envolve a condução das contas públicas no próximo mandato.
Uma pesquisa do Citibank com 73 gestores, identificou que 80% esperavam queda superior a 5% no Ibovespa em caso de vitória de Lula.
Instituições financeiras aguardam compromissos mais claros sobre o controle das despesas, a trajetória da dívida pública e a formação da equipe econômica de 2027.
A B3 também publicou o informativo 661/2026-SSN, que estabelece procedimentos específicos para o leilão de abertura do mercado à vista.
Caso a formação inicial dos preços indique queda superior a 10% do Ibovespa, o leilão poderá ser interrompido antes do início das negociações contínuas.
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