Publicidade
Economia

As relações entre Brasil e Argentina em um eventual governo Flávio Bolsonaro

Milei fez ofensas recorrentes a Lula desde o início da gestão e reforçou que não pediria desculpas ao presidente brasileiro

As relações políticas e econômicas entre Brasil e Argentina em um eventual governo Flávio Bolsonaro
Lula rebaixou o nível das relações diplomáticas com a Argentina após escalada de declarações e apoio ostensivo de Milei a Flávio (Maura Martins/TV Brasil)

Brasília e Buenos Aires podem voltar a ter relações harmoniosas no próximo ano, caso Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seja eleito neste domingo (25).

Javier Milei declarou apoio público ao candidato brasileiro e já deixou claro em diversas ocasiões que não fará retratações nem pedirá desculpas ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), após seguidos atritos diplomáticos.

Publicidade

Em um cenário com Flávio Bolsonaro na Presidência, predomina a avaliação de que haveria o restabelecimento imediato dos canais de diálogo direto e público em nível de chefes de Estado.

A pauta econômica entre os dois políticos se assemelha no compromisso com a redução da intervenção estatal e no combate a agendas progressistas. Ambos também alinham-se no debate ideológico. Milei autodeclara-se anarcocapitalista, corrente que defende a abolição do Estado e o livre-mercado absoluto.

Brasil e Argentina

Historicamente, o Brasil manteve laços diplomáticos pragmáticos com a Argentina, mas a tensão política escalou após a posse de Javier Milei.

O estilo de gestão do argentino é simbolizado pelo uso da imagem da motosserra, que representa o corte drástico de gastos públicos e a extinção de ministérios.

Em paralelo, Flávio Bolsonaro adota discurso convergente. Em pronunciamentos e no seu plano de governo, o candidato brasileiro aponta que pretende reduzir a esplanada para no máximo 10 ministérios, ante os cerca de 37 atuais, além de cortar cargos comissionados e reavaliar a estrutura e atribuições de órgãos e autarquias públicas como Incra, Ibama e Funai.

A escalada entre Milei e Lula

Em 2023, Milei manifestou forte irritação com o presidente brasileiro, referindo-se a Lula como socialista com vocação totalitária e corrupto.

Após vencer o pleito argentino, Milei enviou um convite formal para que Lula comparecesse à sua posse, mas o presidente brasileiro optou por enviar em seu lugar o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

Ao longo do mandato, o presidente argentino reiterou acusações contra Lula, chamando-o de corrupto, ladrão e ex-presidiário.

Ofensas e atuação do Itamaraty

O ápice da crise ocorreu em 2026. Em julho, Javier Milei esteve no Brasil para participar de um evento político do PL que oficializou a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.

Durante a visita, o presidente argentino proferiu ofensas diretas a Lula e ao ministro do STF Alexandre de Moraes, a quem chamou de "lixo careca", em reação a decisões judiciais.

A conduta motivou nova reação do Palácio do Planalto. O Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Júlio Bitelli, para consultas, gesto de forte descontentamento no rito diplomático.

Apesar de a Argentina ter descartado o rompimento formal de acordos bilaterais e comerciais, o governo brasileiro decidiu rebaixar o nível das relações diplomáticas com o país vizinho em agosto.

A mestre em Direito Internacional e Relações Internacionais e doutoranda em Direito, Sheila Torquato Humphreys, explica que o desdobramento mais severo em crises deste tipo é a declaração de persona non grata, situação em que as relações comerciais e institucionais passam a ser conduzidas temporariamente por encarregados de negócios.

Milei e Flávio

O Brasilianista conversou com o cientista político e especialista em Relações Internacionais, Alan Camargo, bacharel pela Unesp e mestre em Política Internacional e Comparada pela Universidade Federal de Brasília (UnB).

O analista avaliou as dinâmicas diplomáticas e o futuro das negociações no âmbito do Mercosul, bloco frequentemente criticado pelo presidente argentino Javier Milei, sob a alegação de que as regras vigentes favorecem precipuamente a indústria brasileira.

Caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente, quais mudanças concretas poderiam ocorrer na relação entre Brasil e Argentina em comparação com o cenário atual?

Embora não seja possível prever o futuro com exatidão, a análise das tendências históricas das relações políticas fornece indicativos claros sobre o que esperar. Brasil e Argentina compartilham laços profundamente consolidados. Cabe recordar que a Argentina foi o primeiro país a reconhecer a independência brasileira, antes mesmo dos Estados Unidos, o que estabeleceu uma proximidade de caráter estrutural.

Trata-se de duas economias complementares. A Argentina figura como o principal parceiro econômico do Brasil no Mercosul, absorvendo volume expressivo de veículos, produtos industrializados e bens agrícolas, além de manter peso decisivo na balança comercial brasileira global. Nesse sentido, uma vitória de Flávio Bolsonaro não alteraria a condição de grande parceria econômica entre as nações. Podem ocorrer ajustes de ênfase em setores específicos, com eventual liberalização ou incremento em determinadas áreas, mas sem rupturas estruturais. Por outro lado, no campo político, as mudanças seriam imediatas.

A proximidade ideológica entre Javier Milei e setores da direita brasileira poderia facilitar uma aproximação entre os governos ou existem interesses econômicos e estratégicos que se sobrepõem às afinidades políticas?

É fundada a expectativa de uma alteração significativa no clima político, haja vista tratar-se de duas lideranças que compartilham alinhamentos ideológicos e visões convergentes sobre políticas públicas. Atualmente, verifica-se um quadro de acentuada tensão diplomática entre o Executivo brasileiro e o argentino.

Na hipótese de vitória de Flávio Bolsonaro, a dimensão política seria a primeira a registrar uma inflexão, marcada pela mitigação dos atritos entre os chefes de Estado. Haveria maior aproximação ideológica e diálogo direto, sem que isso modifique a estruturação dos laços econômicos que já são históricos entre os dois países.

Como um eventual governo Flávio Bolsonaro poderia se posicionar em relação ao Mercosul e quais reflexos isso teria para a Argentina e para a integração regional?

Sob a perspectiva integracionista, é possível projetar um processo de arrefecimento do próprio Mercosul. Brasil e Argentina constituem as duas maiores economias do bloco. Em momentos anteriores de convergência à direita, como na gestão de Jair Bolsonaro, observou-se a preferência por alianças flexíveis e acordos bilaterais ad hoc, em detrimento da tramitação pela burocracia do bloco regional.

Portanto, é provável a adoção de posturas focadas no bilateralismo em detrimento de uma pauta de integração regional multilateral, ainda que mantida a interdependência econômica estrutural entre Brasília e Buenos Aires.

Quais áreas da relação bilateral, como comércio, energia, investimentos e cooperação fronteiriça, tendem a permanecer estáveis independentemente das diferenças ideológicas entre os governos?

A experiência recente demonstra a resiliência das trocas comerciais. Durante a gestão de Jair Bolsonaro no Brasil, a Argentina era governada por Alberto Fernández, de centro-esquerda. No cenário subsequente, com a presença de Lula e a ascensão de Milei à Presidência argentina, observou-se uma nova inversão ideológica. Em ambos os contextos, o fluxo de comércio bilateral manteve-se estável.

Assim, no âmbito econômico, a tendência é de consolidação e continuidade. Já no campo político, a convergência ideológica entre Flávio Bolsonaro e Milei tenderia a arrefecer as tensões, impulsionando iniciativas focadas no bilateralismo pragmático, em substituição às pautas multilaterais dos blocos regionais, frequentemente criticados por ambas as correntes políticas.

Historicamente, mudanças de orientação política nos governos brasileiro e argentino costumam provocar alterações significativas na política externa entre os dois países ou a relação é guiada principalmente por interesses de Estado?

A relação com a Argentina é pautada por uma política de Estado consolidada. A embaixada brasileira em Buenos Aires figura entre as maiores representações diplomáticas do país no exterior, respaldada por uma extensa rede de acordos históricos mantidos ao longo de sucessivos governos.

Desde a criação do Mercosul nos anos 1990, quando coexistiram governos de orientação neoliberal e desenvolvimentista, o crescimento do intercâmbio e da cooperação preservou-se. A história do relacionamento bilateral demonstra que divergências ideológicas pontuais causam desacertos temporários, como discursos inflamados ou episódios atípicos de agendas paralelas sem visitas oficiais ao Executivo local, mas não evoluem para quadros agudos de ruptura diplomática. A tendência permanente é de continuidade e densidade nas relações institucionais e econômicas.

Siga nossas redes: O Brasiliansita!