O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva volta a colocar em evidência um desafio histórico enfrentado pelo seu grupo político: a dificuldade persistente em consolidar um sucessor com forte apelo popular.
As circunstâncias que viabilizaram a eleição e o atual mandato de Lula ilustram a ausência de uma figura capaz de liderar a sucessão presidencial com a mesma envergadura eleitoral.
Nesse contexto, Fernando Haddad (PT) permanece como a escolha pessoal e o principal pupilo de Lula para o futuro da legenda.
A figura de Haddad reúne méritos amplamente reconhecidos, destacando-se pelo respeito no meio acadêmico, por um currículo sólido e pela ausência de envolvimento em escândalos de corrupção.
No entanto, o principal obstáculo do político persiste na atração de votos e na falta de popularidade em larga escala.
Disputas eleitorais
Ao longo de sua trajetória, o político foi eleito apenas uma vez para um cargo no Poder Executivo, quando assumiu o comando da Prefeitura de São Paulo ao vencer José Serra (PSDB) no segundo turno do pleito de 2012.
Em 2016, na tentativa de reeleição, não conseguiu se manter no cargo, sendo derrotado por João Doria (PSDB) ainda no primeiro turno.
A aposta do PT, na ausência de Lula, foi lançá-lo na disputa à Presidência da República contra Jair Bolsonaro em 2018, ocasião em que Haddad foi derrotado no segundo turno.
Nas eleições subsequentes ao Governo de São Paulo, em 2022 e 2026, Haddad disputou o comando do Estado contra Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Na primeira ocasião, o candidato perdeu no segundo turno. Já no pleito de 2026, Haddad foi derrotado ainda no primeiro turno.
Caso Lula contasse com Haddad no governo paulista, dividindo palanque, espaço e agenda institucional com um aliado, o cenário político seria diferente para a base governista no maior colégio eleitoral do país. O governador eleito, Tarcísio de Freitas, por sua vez, antecipou-se e colocou a sua estrutura de apoio à disposição da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Histórico
O histórico recente de derrotas em disputas executivas, tanto em âmbito estadual quanto presidencial, evidencia que o perfil técnico de Haddad encontra barreiras significativas para se traduzir em vitórias nas urnas.
Diante do desgaste político acumulado por sucessivos reveses, o futuro do ex-ministro aponta para novas direções dentro da estrutura de poder.
Constitui característica marcante do PT assegurar retaguarda aos seus principais quadros, evitando o isolamento político após o encerramento de ciclos governamentais.
Antes do término da atual administração, é provável que Lula procure realocar Haddad em posições de destaque institucional, como cargos internacionais, funções diplomáticas ou representações de classe, além de potenciais papéis na estrutura interna do próprio partido.
Recentemente, Haddad e a ex-ministra Simone Tebet (PSB-MS) foram alvos de ataques do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que os hostilizou por não terem vencido as disputas eleitorais recentes.
"Taxad"
A atuação de Fernando Haddad à frente do Ministério da Fazenda enfrentou temas impopulares ao longo do governo Lula. As negociações em torno de metas fiscais e ajustes orçamentários constituíram parte central das divergências, aproveitadas pela oposição em suas idas ao Congresso Nacional para questioná-lo sobre a evolução dos gastos públicos.
Para os opositores, Haddad transformou-se no símbolo da cobrança de tributos do governo Lula, sendo apelidado de "Taxad".
Uma das principais crises de imagem ocorreu em torno da implementação do programa Remessa Conforme e da taxação sobre compras internacionais de até US$ 50, medida popularmente conhecida como "Taxa das Blusinhas".
Desempenho político e técnico
O Brasilianista conversou com o analista e especialista em Gestão Pública Carlos Farah a respeito do desempenho do ex-ministro na pasta. Para Farah, o trabalho à frente da Fazenda fortaleceu as credenciais técnicas de Haddad, mas não garantiu o suporte político necessário.
"Ele deixa como legado a aprovação da reforma tributária, discutida por décadas, o desemprego na mínima histórica e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Por outro lado, a dívida pública subiu de cerca de 71% para 79% do PIB entre 2023 e 2026", analisa Farah, ressaltando que a taxação sobre as compras internacionais gerou desgaste acentuado.
Na avaliação do analista, o currículo técnico ajuda, mas não decide uma eventual disputa pela sucessão no PT: "O histórico dele na Fazenda é tecnicamente positivo, mas não resolve a questão política que ele precisa alcançar para suceder de fato o Lula dentro do PT."
Renovação de quadros
Nos bastidores do PT, dirigentes enfrentam cobranças da militância jovem pela falta de renovação de quadros. Argumenta-se que a manutenção de lideranças tradicionais, que disputam eleições há anos e concentram o capital político, cria a figura de uma "herança" definida, dificultando o surgimento de novos nomes.
Além da escassez de novas lideranças eleitas para o Poder Legislativo, o partido projeta dificuldades para os próximos pleitos ao Executivo, especialmente diante da ausência de um nome com a mesma capacidade de unificação eleitoral de Lula.
Dario Durigan assumiu a função de secretário-executivo do Ministério da Fazenda em junho de 2023, sucedendo a Gabriel Galípolo, que assumiu a presidência do Banco Central. Em março, Durigan tornou-se o titular do Ministério da Fazenda, após a desincompatibilização de Haddad para se dedicar à campanha eleitoral.
Para Carlos Farah, ainda é cedo para classificar Haddad como o herdeiro natural da sigla, embora continue sendo um nome em evidência. Em caso de reeleição de Lula, o ex-ministro tende a recuperar espaço institucional, lembrando que o presidente não poderá disputar um terceiro mandato consecutivo em 2030.
"Analistas e cientistas políticos veem Haddad como a liderança do PT com maior capital eleitoral fora do núcleo duro do partido, alguém capaz de furar a bolha. Por outro lado, ele vem de uma derrota para Tarcísio de Freitas no primeiro turno em São Paulo. O próprio Lula declarou em agosto que ele ainda precisa crescer como líder, apesar de reconhecer o seu empenho. O protagonismo dele cresce, mas a sucessão só se definirá conforme o governo e o PT se organizarem no novo mandato", explica Farah.
Durigan no comando da Fazenda
O atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem conseguido manter um diálogo fluido com parlamentares do centro e da direita no Congresso Nacional. Um exemplo dessa interlocução ocorreu nas tratativas com a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) durante as negociações da Medida Provisória sobre a anistia de dívidas rurais.
Carlos Farah entende que Durigan é um quadro de estrita confiança de Haddad e pode permanecer à frente do Ministério da Fazenda, a depender da composição de forças em uma eventual nova gestão de Lula. Durigan já atuava como braço direito e secretário-executivo durante a gestão de Haddad.
"Durigan reúne conhecimento técnico, a bagagem acumulada no governo e a confiança de Haddad. Acredito na hipótese de que ele permaneceria no cargo a pedido do próprio Haddad, garantindo a continuidade do trabalho técnico. Obviamente, existem pressões de outras alas dentro do PT que defendem nomes com perfil mais político e alinhados à esquerda. Do outro lado da balança, pesa a influência do grupo político em torno de Lula, que busca nomes mais politizados para o comando da economia", conclui o analista.
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