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Política

O Lula da eleição é diferente

A campanha do presidente à reeleição reflete escolhas curiosas

Lula
A hipótese é de que Lula queira se fortalecer com sua base, mas garantir votos de setores que mais o rejeitam na reta final (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) optou por uma campanha eleitoral curiosa em 2026. Além de menosprezar o impacto do digital antes do primeiro turno, o candidato à reeleição e seus aliados passaram a fazer comentários e apoiar propostas controversas com a própria trajetória política pouco antes do pleito.

Vale lembrar que, no primeiro turno, que aconteceu em 4 de outubro, Lula 45,14% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47,04%. O resultado fora do esperado fez com que o presidente buscasse medidas populistas. 

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A hipótese é de que Lula queira se fortalecer com sua base, mas garantir votos de setores que mais o rejeitam na reta final.

Lula nunca foi esquerdista

Uma fala frequente de Lula nesta campanha eleitoral é a de que seu governo nunca foi de esquerda. Durante entrevista no podcast Flow, antes do primeiro turno, Lula concordou quando o entrevistador fez essa afirmação.

Em junho, na Cúpula do G7, na França, o presidente declarou que “nunca foi esquerdista” durante uma conversa com a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, ao ser questionado sobre sua identificação com a esquerda.

“O mundo não é de esquerda. O mundo é do caminho do meio. Essa é a verdade”, acrescentou na conversa.

Vale lembrar que Lula é fundador e principal liderança histórica do PT, partido que se identifica com a esquerda. Ainda assim, apesar das diversas declarações ao longo dos anos sobre se identificar com a esquerda política, muitos analistas concordam que seu governo não traz, de fato, um grande viés de esquerda em diversas propostas.

O próprio Lula já havia defendido uma atuação mais ao centro em outras ocasiões.

A nova fala é interpretada como uma apresentação de Lula ao eleitorado moderado e a interlocutores internacionais. Porém, negar o rótulo de “esquerdista” não equivale necessariamente a abandonar todas as posições políticas da esquerda.

A discussão do BPC

O ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e candidato ao governo de São Paulo no primeiro turno, indicou enquanto líder da pasta que a Fazenda iria revisar os gastos com o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos de baixa renda e pessoas com deficiência dentro dos critérios legais. 

O programa é um dos pilares da campanha de Lula e, nos últimos anos, o próprio governo vinha confrontando a defesa política de ampliação da proteção social com a decisão de revisar critérios e restringir pagamentos considerados irregulares. 

O ministro argumentou diversas vezes que não buscava cortar, mas corrigir irregularidades e adequar o programa à finalidade original, em meio ao esforço do governo para controlar as despesas públicas. Recentemente, com o reajuste do Bolsa Família em 15%, o BPC precisou ser cortado em partes. 

Segundo o governo, ainda em 2026, haveria uma economia de R$ 1,8 bilhão com BPC.

Reajuste do Bolsa Família

O governo anunciou logo antes do primeiro turno um reajuste do Bolsa Família para corrigir os valores da inflação. O valor do benefício estava fixado desde 2023, mas o aumento anunciado é de 15%.

Em sabatina no Jornal Nacional, semanas após a medida, Lula afirmou que não sabia que o Bolsa Família permanecia sem reajuste desde 2023 e disse ter determinado a correção após tomar conhecimento da situação.

“Eu não sabia. É impensável, mas aconteceu”, alegou em rede nacional.

A medida elevou o valor mínimo de R$ 600 para R$ 690, além de elevar o benefício médio. Entre as controvérsias da medida, o projeto não está incluído no PLOA 2027 enviado ao Congresso, mas Lula afirma que tudo o que foi aprovado está dentro do limite fiscal.

Maioridade penal

Lula teve uma grande mudança em seu discurso durante o período eleitoral de 2026. Forte crítico da redução da maioridade penal desde pelo menos 2015, quando afirmou que a medida seria um "crime contra o futuro do país", o presidente revelou recentemente ser favorável a uma redução da maioridade penal para 16 anos em crimes hediondos.

A fala aconteceu durante sabatina do presidente na Globo, após o Jornal Nacional, no dia 15 de outubro. 

“Todo e qualquer crime hediondo, eu sou favorável a diminuir a maioridade”, disse.

Ele ressalvou que a mudança deveria ser discutida fora da PEC da Segurança Pública. 

Transporte público gratuito aos fins de semana

O governo federal enviou ao Congresso na última quarta-feira (21) uma proposta de emenda à Constituição para tornar gratuito o transporte público nos fins de semana em todas as cidades brasileiras.

O projeto virou promessa de campanha na mesma sabatina de Lula na Globo em 15 de outubro, com proposta associada ao debate sobre o fim da escala de trabalho 6x1.

A ideia apresentada era permitir que trabalhadores tivessem mais tempo e condições de lazer nos dias de folga. O projeto seria financiado pelas emendas parlamentares impositivas.

Lula foi atrás dos empreendedores

O presidente também passou a promover, perto do primeiro turno, políticas de campanha que auxiliam os empreendedores. O governo divulgou a expansão do programa Contrata+ Brasil, plataforma que busca facilitar a contratação de microempreendedores individuais (MEIs) de pequenos serviços para órgãos públicos. 

A gestão do Executivo também lançou uma ferramenta online para a compras de bens e itens padronizados por gestores públicos. Os esforços camuflam uma brecha na campanha de Lula: os empresários brasileiros.

Um dos grupos mais relevantes para conquistar votos em 2026, os empreendedores representam uma larga escala dos trabalhadores atualmente. Para além do eleitorado que o presidente já conquista, o real desafio de Lula será conversar com essa grande massa que enfrenta uma série de dificuldades, especialmente por falta de leis trabalhistas.

Na última quarta-feira (21), Lula sancionou o Projeto de Lei Complementar (PLP) nº 186/2026, que prevê o perdão de dívidas de MEIs com a União e amplia o limite anual de faturamento da categoria de R$ 80 mil para R$ 110 mil em 2027 e para R$ 140 mil em 2028. O PLP foi enviado pelo Executivo ao Congresso e integra o Prospera MEI, pacote lançado pelo governo federal para reduzir o endividamento, facilitar o acesso a recursos para investimentos e simplificar a rotina dos microempreendedores individuais. 

Além do aumento do teto MEI, foram aprovadas as seguintes medidas:

  • Perdão de dívidas – remissão integral dos débitos inscritos ou não na dívida ativa da União;
  • Contratação de empregados – até dois funcionários, em vez de um;
  • Compras públicas – limite das licitações exclusivas para micro e pequenas empresas sobe de R$ 80 mil para R$ 130.984,20;
  • Contrata+Brasil – teto de valor para contratações de MEIs subirá de R$ 13 mil para R$ 32 mil.

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