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Justiça

A direita e a corrupção

Histórico do Mensalão e da Lava Jato expõe o envolvimento de dirigentes do PP, MDB e PL, partido de Flávio Bolsonaro, em grandes escândalos de corrupção

Daniel Vorcaro e Ciro
90% das interações políticas de Daniel Vorcaro eram com nomes da direita (Foto: reprodução)

Das 41,6 mil interações identificadas entre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e políticos ou autoridades brasileiras, 90% ocorreram com figuras classificadas como de direita. Outros 9% envolveram nomes de centro e 1%, de esquerda.

O levantamento, publicado pela revista piauí nesta segunda-feira (19), também revelou que 71% das mensagens, chamadas e outros registros de comunicação do banqueiro estavam associados a ex-integrantes do governo Jair Bolsonaro.

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Os dados foram extraídos de um celular apreendido pela Polícia Federal (PF) em novembro de 2025 e analisados pela revista em parceria com o InterSecLab, organização especializada em segurança digital.

A concentração de contatos de Daniel Vorcaro com políticos de direita também aparece em declarações do próprio empresário.

Em reportagem publicada em 18 de outubro, a Agência Pública revelou mensagens obtidas pela Polícia Federal nas quais o dono do Banco Master manifestou sua preferência política.

Em uma conversa com o pastor André Valadão, líder da Igreja Batista da Lagoinha, Vorcaro declarou que “apoiamos a direita”. 

No Mensalão, integrantes do PP, PTB e PL foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Na Lava Jato, PP, MDB e PT figuraram entre as principais legendas atingidas por investigações sobre corrupção na Petrobras.

Rede de Vorcaro

O levantamento identificou 56 políticos com quem Vorcaro manteve contato pelo WhatsApp.

Desse total, 36 foram classificados como de direita, 16 como de centro e quatro como de esquerda.

A divisão ideológica foi adotada pela própria pesquisa e considera os perfis dos interlocutores, não uma classificação judicial sobre participação em irregularidades.

O ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, que integrou o governo Bolsonaro, lidera o volume de registros, com aproximadamente 19,3 mil interações.

Em seguida aparecem Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União, com 4.782, e Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil, com 3.967.

Parte expressiva dessas comunicações não teve o conteúdo recuperado porque as mensagens eram temporárias ou haviam sido apagadas.

No caso de Faria, 7,9 mil registros não puderam ser lidos. Entre as interações de Bianco, 4.161 expiraram, enquanto 3.832 registros associados a Ciro Nogueira também estavam indisponíveis.

Faria declarou à piauí que conheceu Vorcaro somente no fim de 2023, depois de deixar o governo federal, e que sua relação com o empresário ocorreu na iniciativa privada.

Bruno Bianco sustentou que as conversas estavam relacionadas ao exercício regular da advocacia, iniciado após sua saída do serviço público.

Relações políticas

A investigação jornalística também identificou contatos com Antonio Rueda, presidente do União Brasil, que registrou 2.636 interações com Vorcaro. Desse total, 1.725 foram apagadas ou expiraram.

Os registros incluem conversas realizadas durante o período em que regimes de previdência de servidores públicos passaram a aplicar recursos em produtos financeiros do Banco Master.

Entre outubro de 2023 e dezembro de 2024, o banco recebeu aproximadamente R$ 1,87 bilhão de 18 regimes previdenciários estaduais e municipais, por meio de letras financeiras sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Em julho de 2024, data relacionada à aprovação de investimentos do instituto de previdência do Amapá no Master, a reportagem identificou mensagens apagadas entre Rueda e Vorcaro. Uma das mensagens preservadas continha um pedido para excluir as conversas.

Questionado pela piauí, Rueda informou que atuava como advogado do banco. ACM Neto, também mencionado nos registros, declarou que seus contatos com o empresário estavam ligados à prestação de serviços de consultoria.

O material analisado inclui ainda interlocutores ligados ao governo Lula e a outros grupos políticos.

Entre eles aparecem o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.

Dirceu negou ter mantido conversas com Vorcaro. Já Walfrido dos Mares Guia, que integrou o primeiro governo Lula, reconheceu contatos com o banqueiro, mas declarou que se tratavam de assuntos empresariais.

O Mensalão

A relação entre dinheiro, partidos e decisões políticas também esteve no centro da Ação Penal 470, conhecida como Mensalão.

O processo foi julgado pelo STF entre 2012 e 2013 e envolveu um esquema de pagamentos a integrantes de partidos da base parlamentar durante o primeiro governo Lula.

Entre os condenados estavam dirigentes petistas como José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, José Genoino, ex-presidente do partido, e Delúbio Soares, então tesoureiro do PT.

O empresário Marcos Valério foi identificado como um dos principais operadores financeiros do esquema.

A investigação também alcançou políticos de legendas que participavam da coalizão governista, entre elas o Partido Progressista (PP), o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Liberal (PL), que posteriormente adotou o nome PR e voltou a se chamar PL.

Valdemar Costa Neto, dirigente do antigo PL, foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Em dezembro de 2013, o Supremo determinou o cumprimento de sua pena de sete anos e dez meses de prisão. Atualmente, Valdemar preside o PL, partido de Jair Bolsonaro e de seu filho Flávio.

Pedro Corrêa e Pedro Henry, então ligados ao PP, também foram condenados. No PTB, o processo atingiu o ex-presidente da sigla Roberto Jefferson, além de Romeu Queiroz e Emerson Palmieri. O ex-deputado José Borba, do PMDB, integrou a relação de condenados.

Partido de Flávio

A presença do antigo PL no Mensalão representa um capítulo relevante da história da legenda que atualmente abriga o bolsonarismo.

Valdemar Costa Neto foi condenado por participação no esquema de pagamentos a parlamentares e retomou posteriormente a direção nacional do partido.

Outro condenado ligado à legenda foi Carlos Alberto Rodrigues Pinto, conhecido como Bispo Rodrigues.

O ex-deputado recebeu pena de seis anos e três meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O STF considerou que parte dos pagamentos realizados pelo esquema estava relacionada à obtenção de apoio político no Congresso Nacional.

As condenações alcançaram tanto integrantes do núcleo responsável pela distribuição do dinheiro quanto parlamentares e dirigentes que receberam valores indevidos.

Apesar dessa continuidade partidária, as condenações do Mensalão não podem ser atribuídas automaticamente aos atuais filiados do PL.

Flávio Bolsonaro não foi réu na Ação Penal 470, e o processo não investigou sua atuação política.

Lava Jato

A Operação Lava Jato, iniciada em 2014, atingiu partidos que integravam tanto a base dos governos petistas quanto a oposição.

Entre as legendas com maior número de investigados estavam PP, PMDB, atualmente MDB, e PT.

O PSDB também teve dirigentes e parlamentares envolvidos em apurações relacionadas a suspeitas de corrupção e financiamento político.

Na lista divulgada pelo STF em março de 2015, o PP concentrava o maior número de políticos investigados.

Um levantamento publicado na época identificou 31 integrantes da legenda, seguidos por sete do PMDB e sete do PT, conforme o universo considerado.

Os números variaram entre as primeiras publicações porque algumas incluíam ex-parlamentares e outros investigados, enquanto outras contabilizavam apenas ocupantes de cargos específicos.

O PP era uma das principais legendas associadas ao núcleo político do esquema investigado na Petrobras.

Entre os nomes citados estavam Ciro Nogueira, Nelson Meurer, Eduardo da Fonte, Aguinaldo Ribeiro e Arthur Lira.

A inclusão nesses inquéritos não significa que todos tenham sido posteriormente condenados.

Nelson Meurer, ex-deputado do PP, foi condenado pelo STF em 2018 por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Já Eduardo Cunha, então integrante do PMDB e presidente da Câmara dos Deputados, foi condenado em processos decorrentes da Lava Jato, embora decisões judiciais posteriores tenham modificado a situação de diferentes ações penais.

No PT, a operação alcançou dirigentes como José Dirceu, Antonio Palocci e João Vaccari Neto, além do próprio Lula.

As condenações do presidente nos processos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia foram anuladas pelo Supremo em 2021, depois do reconhecimento da incompetência da Justiça Federal de Curitiba.

No caso do tríplex, a Corte também reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro.

A operação sofreu reveses posteriores no Judiciário, incluindo anulações de provas e decisões condenatórias.

Negócios no Congresso

O levantamento da piauí sobre Vorcaro também identificou conversas envolvendo propostas legislativas de interesse do Banco Master.

Em novembro de 2024, o então deputado Marcelo Queiroz, à época filiado ao PP, encaminhou ao banqueiro uma minuta de projeto relacionado às regras de socorro e liquidação de instituições financeiras.

Segundo as mensagens examinadas pela revista, Vorcaro compartilhou o documento com advogados, recebeu sugestões e posteriormente encaminhou uma versão ao diretor do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza.

Entre as mudanças discutidas estavam alterações nas garantias do Fundo Garantidor de Créditos e na participação de órgãos públicos em sua administração.

As propostas apresentavam pontos semelhantes aos defendidos pelo senador Ciro Nogueira, associado à chamada Emenda Master.

A iniciativa previa elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do FGC, mecanismo que poderia beneficiar instituições financeiras com dificuldades de captação.

A reportagem também identificou 115 interações associadas a Flávio Bolsonaro cujo conteúdo não estava disponível na extração examinada.

A presença desses registros não permite determinar o teor das conversas nem demonstrar participação do senador em irregularidades.

Em outra frente, o banqueiro teria negociado o financiamento de um projeto cinematográfico sobre Jair Bolsonaro.

A piauí relatou que Flávio apresentou a Vorcaro uma proposta envolvendo US$ 24 milhões destinados a um fundo nos Estados Unidos, negócio que passou a integrar investigações conduzidas no Supremo.

Versões dos citados

Fábio Faria e Bruno Bianco negaram irregularidades nos contatos mantidos com Vorcaro e atribuíram as conversas a atividades privadas e profissionais realizadas depois de deixarem o governo Bolsonaro.

Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação da Presidência, declarou à piauí que foi contratado em abril de 2025 para atuar na comunicação do banqueiro.

Ele aparece em 1.151 interações, das quais 1.071 não tiveram o conteúdo recuperado.

Ao ser questionado sobre mensagens envolvendo pagamentos e divulgação de notícias favoráveis ao Master, afirmou que desempenhava funções de comunicação e distribuição de informações.

Antonio Rueda atribuiu seus contatos à atividade de advogado do banco. ACM Neto também sustentou que sua relação com Vorcaro decorria de serviços profissionais.

Ambos negaram as suspeitas relacionadas a uma proposta de colaboração do banqueiro sobre pagamentos vinculados à captação de recursos previdenciários.

José Dirceu negou ter conversado com Vorcaro, enquanto Walfrido dos Mares Guia reconheceu contatos comerciais.

Kátia Abreu, que também aparece no levantamento, declarou que conheceu o empresário depois de deixar o Senado e questionou a divulgação de suas conversas privadas.

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