O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, contou com a proximidade de dirigentes e parlamentares do Centrão para ampliar a presença da instituição no setor público e estabelecer relações com autoridades.
Mensagens apreendidas pela Polícia Federal (PF) revelam a atuação do presidente do União Brasil, Antônio Rueda, e do ex-prefeito de Salvador ACM Neto na aproximação do banco com institutos de previdência estaduais.
Empresas ligadas aos dois receberam, respectivamente, R$ 6,4 milhões e R$ 5,4 milhões do Master.
As novas revelações acrescentam elementos à relação do empresário com outros nomes influentes do Congresso, entre eles Davi Alcolumbre, Hugo Motta, Ciro Nogueira e Elmar Nascimento.
A rede de contatos envolvia intermediação de investimentos de fundos públicos, propostas legislativas, apoio em disputas internas do Parlamento e benefícios pessoais.
Parte das suspeitas aparece em uma proposta de delação premiada apresentada por Vorcaro, mas rejeitada pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
Negócios de Rueda

As mensagens mostram que Antônio Rueda estabeleceu contato com Vorcaro em novembro de 2023, quando o Master buscava ampliar a captação de recursos junto aos regimes próprios de previdência de servidores públicos.
Em uma conversa de 12 de novembro, o diretor comercial do banco, Fernando Mascarenhas, avisou ao empresário que Rueda pretendia visitá-lo.
Nos dias seguintes, começaram os preparativos para reuniões em estados como Rondônia e Amazonas.
O roteiro previa o deslocamento de Rueda, Mascarenhas e dois intermediários, identificados como Ricardo e Raphael, no avião particular de Vorcaro.
Após as tratativas, o diretor comercial demonstrou entusiasmo com a possibilidade de captar R$ 1,2 bilhão até o fim daquele ano.
O dirigente do União Brasil, entretanto, negou ter participado da viagem e afirmou que estava em São Paulo na data mencionada.
A aproximação também aparece nas negociações com a Amapá Previdência. Em julho de 2024, quando o instituto avaliava investimentos no Master, o tesoureiro Alberto Felix informou que Rueda pretendia segurar as operações em razão de uma notícia negativa sobre a instituição financeira.
No mesmo dia
Na mesma manhã, o dirigente apagou dez mensagens consecutivas de sua conversa com Vorcaro e pediu ao banqueiro que também excluísse os registros.
Pouco depois, Mascarenhas comunicou a aprovação de R$ 200 milhões em aplicações no Amapá.
O instituto transferiu R$ 300 milhões ao Master até agosto daquele ano. As conversas registram ainda discussões sobre comissões pagas a intermediários, entre eles Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido como Ricardo Gordo, apontado pela PF como lobista do banco no Rioprevidência.
A relação entre Rueda e Vorcaro também incluía benefícios pessoais. Em dezembro de 2023, o banqueiro colocou seus aviões à disposição do político.
Meses depois, organizou transporte aéreo para familiares de Rueda acompanharem uma corrida de Fórmula 1 em Miami.
Os registros mencionam hospedagens de luxo e a disponibilização de um apartamento em São Paulo.
O Master também contratou serviços do escritório Rueda & Rueda Advogados. Em agosto de 2024, documentos internos indicavam quatro processos com honorários previstos de R$ 15,4 milhões.
Na proposta de delação rejeitada pelas autoridades, Vorcaro afirmou que o dirigente teria acertado uma comissão equivalente a 10% das aplicações de institutos de previdência.
As mensagens divulgadas, porém, não comprovam o pagamento direto desse percentual a Rueda.
O presidente do União Brasil classificou sua relação com a instituição como “eminentemente profissional” e afirmou que os serviços advocatícios foram prestados regularmente, mediante contratos, emissão de notas fiscais e recolhimento de tributos.
Também declarou que os diálogos foram retirados de contexto para produzir suspeitas contra sua reputação.
ACM Neto

A relação de ACM Neto com o Banco Master também envolveu contratos de consultoria e conversas sobre a captação de recursos públicos.
Uma empresa ligada ao ex-prefeito de Salvador recebeu R$ 5,4 milhões da instituição financeira.
Na proposta de delação apresentada por Vorcaro, o político foi citado como possível beneficiário de comissões sobre investimentos realizados por institutos de previdência, acusação que ele nega.
O BNews já havia revelado, em setembro de 2026, que a defesa de ACM Neto confirmou ao Supremo Tribunal Federal a prestação de serviços de consultoria particular ao Master.
Os advogados sustentaram que a atividade começou quando ele não ocupava cargo público e negaram qualquer irregularidade nos contratos.
A explicação foi apresentada após a retirada do sigilo de documentos da Operação Compliance Zero por determinação do ministro André Mendonça.
Novas conversas
Mensagens de setembro de 2024 também mostram que ACM Neto passou um fim de semana na residência de Vorcaro em Trancoso, na Bahia, acompanhado de Rueda e do deputado Elmar Nascimento.
No mês seguinte, o ex-prefeito solicitou uma conversa reservada com os dois. O encontro ocorreu em uma charutaria de São Paulo.
Nove dias depois, ACM Neto comunicou ao empresário que as articulações políticas em Brasília haviam avançado conforme o esperado.
As investigações identificaram ainda mensagens de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, que mencionavam cobranças feitas por pessoas associadas ao ex-prefeito.
Um dos nomes citados era Marcos Moura, conhecido como Rei do Lixo e integrante da Executiva do União Brasil.
Na proposta de colaboração rejeitada pela PF e pela PGR, Vorcaro afirmou que ACM Neto teria recebido valores em espécie.
O ex-prefeito negou ter utilizado influência política para incluir o Master na lista de instituições habilitadas a receber aplicações de regimes próprios de previdência.
Também afirmou que não conhece Fabiano Zettel e classificou como falsas as tentativas de vinculá-lo a conversas das quais não participou.
ACM Neto declarou que os valores recebidos decorreram de serviços efetivamente prestados e que está à disposição das autoridades desde março de 2026.
Fundos de previdência
As mensagens relacionadas a Rueda e ACM Neto também expõem a disputa por recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões de servidores públicos.
Entre 2023 e 2025, o Banco Master captou aproximadamente R$ 4,5 bilhões de regimes próprios de previdência estaduais e municipais.
Diferentemente de determinados depósitos e investimentos bancários, essas aplicações não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
No Amapá, o investimento de R$ 400 milhões foi aprovado por um comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha de Davi Alcolumbre e indicado ao cargo pelo senador, segundo a investigação.
Já no Rio de Janeiro, o Rioprevidência destinou aproximadamente R$ 2 bilhões ao Master durante a gestão de Deivis Marcon Antunes, preso pela Polícia Federal em fevereiro de 2026.
Segundo os investigadores, Antunes chegou à presidência do instituto por indicação de Rueda, em articulação com o então governador Cláudio Castro.
No Amazonas, uma aplicação de R$ 50 milhões recebeu autorização de um dirigente que havia assumido a presidência do instituto 28 dias antes e que atuara na contabilidade da campanha de reeleição do governador Wilson Lima, do União Brasil.
O acesso do Master aos recursos previdenciários também dependeu de decisões administrativas federais.
Em abril de 2024, o banco ficou de fora de uma relação do Ministério da Previdência com instituições habilitadas a receber esses investimentos.
Após movimentações de dirigentes do banco e contatos políticos envolvendo ACM Neto e o então ministro Carlos Lupi, a instituição foi incluída na atualização publicada em 2 de maio. O ministério afirmou que a decisão seguiu critérios técnicos e exigências legais.
Alcolumbre e Amapá

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), aparece nas investigações por sua relação com dirigentes ligados à previdência dos servidores do Amapá e por ter sido mencionado em preparativos de eventos privados de Vorcaro.
Jocildo Silva Lemos, que presidiu o comitê responsável pela aprovação de R$ 400 milhões em aplicações do instituto estadual no Master, havia atuado como tesoureiro de campanha do senador e foi indicado ao cargo por ele, segundo as apurações.
A relação política entre o senador e a administração do fundo ganhou relevância após a identificação dos investimentos realizados na instituição financeira.
Os investigadores procuram esclarecer as circunstâncias das decisões e a atuação dos intermediários que buscavam captar recursos.
A indicação de Jocildo por Alcolumbre, por si só, não comprova que o parlamentar tenha participado da aprovação dos investimentos ou recebido vantagens financeiras.
Alcolumbre também foi mencionado por Fábio Faria na organização de uma festa de Halloween realizada por Vorcaro em São Paulo, em outubro de 2023.
Conversas extraídas do celular do empresário apontam que o senador estava entre os possíveis convidados e que os organizadores deveriam dispensar atenção especial a ele.
Alcolumbre negou ter comparecido ao evento. As mensagens de planejamento não demonstram sua presença efetiva.
Hugo Motta

A relação de Hugo Motta (Republicanos-PB) com Vorcaro envolveu a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados e o uso de imóveis particulares do empresário.
Mensagens mostram que o banqueiro acompanhou a candidatura de Motta ao comando da Casa, em fevereiro de 2025, e ofereceu recursos e contatos ao parlamentar durante sua ascensão política.
A proximidade aparece em conversas nas quais Vorcaro se referia a Motta como um aliado próximo.
Antes de assumir a presidência da Câmara, o deputado utilizou um apartamento do empresário em São Paulo e pediu autorização para receber Arthur Lira, então presidente da Casa. Vorcaro permitiu a reunião e colocou o imóvel à disposição.
Depois da eleição, Motta passou a utilizar uma residência de Vorcaro no Lago Sul, em Brasília.
As mensagens identificam pelo menos seis visitas entre junho e novembro de 2025, inclusive uma programada para o dia em que o banqueiro foi preso.
O funcionário responsável pelo imóvel avisava Vorcaro sempre que receberia o presidente da Câmara, mas os registros não esclarecem o conteúdo das reuniões.
A Polícia Federal também analisa um empréstimo de R$ 22 milhões concedido pelo Banco Master a uma empresa da cunhada de Motta.
Segundo a investigação, o pedido foi apresentado diretamente pelo deputado ao empresário em 2024.
Motta nega irregularidades relacionadas à operação e não comentou os registros de utilização da residência.
O parlamentar esteve ainda entre as autoridades identificadas em eventos de luxo financiados por Vorcaro em Londres, em abril de 2024.
A presença nesses encontros foi documentada em registros da programação internacional do banco, que reuniu empresários e integrantes dos três Poderes.
Ciro Nogueira

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) aparece entre os políticos cuja relação com Vorcaro envolvia suspeitas de pagamentos periódicos, benefícios pessoais e atuação em assuntos de interesse do Banco Master no Congresso.
Conforme revelou O Brasilianista, informações reunidas nas investigações apontam que o empresário teria realizado repasses mensais ao parlamentar desde pelo menos 2021, inicialmente de R$ 300 mil e posteriormente de R$ 500 mil.
A apuração também identificou uma viagem de Ciro aos Alpes Franceses, em janeiro de 2023, com despesas custeadas por Vorcaro.
Os gastos teriam alcançado aproximadamente R$ 2 milhões, incluindo hospedagem em hotel cinco estrelas e refeições em restaurantes de luxo.
A defesa do senador negou as acusações e afirmou que os relatos sobre os pagamentos se baseiam em mensagens de terceiros, sem provas concretas.
A investigação também examina a possível relação entre o empresário e propostas legislativas defendidas por Ciro.
Um dos episódios envolve uma emenda à PEC 65/2023, que trata da autonomia do Banco Central.
Segundo as suspeitas apuradas, a atuação do senador poderia atender a interesses da instituição financeira. A apresentação de uma emenda, isoladamente, não demonstra que tenha havido contrapartida ilícita.
Outro desdobramento alcançou Raimundo Neto Nogueira, irmão do senador, citado em investigações sobre movimentações financeiras envolvendo empresas privadas.
A Operação Compliance Zero impôs medidas cautelares relacionadas aos contatos entre os irmãos. O Brasilianista também identificou o recebimento de R$ 14,2 milhões por uma empresa ligada à família Nogueira, em operação envolvendo negócios associados à Refit.
Ciro esteve entre os convidados de eventos internacionais financiados pelo Banco Master e aparece nas mensagens relacionadas à atuação política do empresário. Sua defesa contesta a existência de um acordo de benefícios mútuos com Vorcaro.
Elmar Nascimento

O deputado Elmar Nascimento (União Brasil-BA) aparece nas reportagens sobre a proximidade pessoal de Vorcaro com dirigentes do União Brasil.
Em setembro de 2024, participou de um encontro na residência utilizada pelo empresário em Trancoso, na Bahia, ao lado de ACM Neto e Antônio Rueda, segundo mensagens e relatos divulgados pela imprensa.
O parlamentar também foi mencionado nas investigações sobre festas privadas promovidas pelo banqueiro.
Relatos publicados pela revista piauí apontam que Elmar esteve em uma ocasião com mulheres convidadas pelo empresário e que manteve conversas sobre a organização de outros encontros reservados.
O deputado negou inicialmente a participação e contestou a divulgação das informações.
A aproximação aconteceu em um período no qual Elmar disputava espaços de influência na Câmara e mantinha articulações com integrantes do Centrão.
Arthur Lira

O ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) também aparece nas mensagens sobre a circulação de políticos em imóveis particulares de Vorcaro.
Em outubro de 2024, Hugo Motta pediu autorização ao banqueiro para receber Lira em seu apartamento em São Paulo.
O empresário concordou, e Motta informou posteriormente que o então presidente da Câmara estava a caminho.
A conversa ocorreu durante as articulações para a sucessão no comando da Casa. Lira exercia influência sobre a escolha de seu sucessor, e Motta buscava construir apoio para a eleição de fevereiro de 2025.
Os registros identificam o uso do imóvel para a reunião, mas não revelam os assuntos discutidos nem indicam que Lira tenha negociado benefícios financeiros com o Master naquela ocasião.
Marcos Pereira

O presidente do Republicanos, Marcos Pereira, aparece entre os parlamentares que participaram de eventos de luxo financiados por Vorcaro.
Em 2024, durante a programação internacional promovida pelo Banco Master, ele esteve entre os deputados contemplados com uma degustação de uísque Macallan 25 anos, bebida cujas garrafas foram avaliadas em aproximadamente R$ 30 mil, segundo apuração de O Brasilianista.
O evento reuniu também Hugo Motta, Isnaldo Bulhões (MDB-AL), Doutor Luizinho (PP-RJ) e Ciro Nogueira, entre outras autoridades.
Os registros mostram a aproximação do banqueiro com lideranças de diferentes partidos do bloco parlamentar, mas a participação na degustação não comprova atuação em favor dos interesses financeiros do Master.
Outros parlamentares
O deputado Isnaldo Bulhões (MDB-AL), que integra a direção política de uma das principais bancadas do Centrão, também aparece na relação de convidados dos eventos internacionais promovidos por Vorcaro.
O parlamentar participou da programação que incluiu experiências gastronômicas, recepções privadas e distribuição de bebidas de alto valor.
O deputado Doutor Luizinho (PP-RJ) foi igualmente identificado entre os participantes dessas atividades.
As informações divulgadas até agora associam ambos à programação financiada pelo banqueiro, mas não demonstram que tenham recebido pagamentos pessoais para defender o Banco Master ou interferir em investigações.
Rodrigo Pacheco, ex-presidente do Senado, foi mencionado em conversas sobre possíveis convidados para uma festa de Halloween organizada por Vorcaro em 2023.
A referência ocorreu durante os preparativos conduzidos por Fábio Faria. As mensagens não comprovam que o senador tenha efetivamente comparecido ao evento.
Socorro bancário
As relações entre políticos do Centrão e o sistema financeiro também voltaram ao debate legislativo nesta semana.
Na quinta-feira (15), a Câmara rejeitou por uma diferença de cinco votos uma proposta que alteraria os mecanismos de intervenção em instituições financeiras em dificuldades.
O texto previa a possibilidade de utilização de recursos privados e, em determinadas circunstâncias, instrumentos de socorro relacionados ao Fundo Garantidor de Créditos.
O projeto foi defendido por integrantes do Republicanos e por parlamentares que argumentavam pela necessidade de aperfeiçoar a legislação bancária.
A proposta beneficiaria potencialmente instituições em dificuldades, entre elas o BRB e o Digimais, mas não há comprovação de que sua votação tenha sido determinada por Daniel Vorcaro ou que os parlamentares tenham recebido vantagens para apoiá-la.
O relator, Marcelo Queiroz, defendeu a criação de regras mais claras para responsabilização de controladores e administradores de bancos.
Críticos da proposta questionaram a possibilidade de flexibilização de obrigações e de transferência de riscos para mecanismos de garantia financeira.
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