A possível eleição de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República levanta uma dúvida sobre o futuro político do Brasil. Afinal, o país assistiria a uma ruptura com o modelo de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a uma nova versão do projeto político iniciado por Jair Bolsonaro ou até mesmo uma governança muito similar a atual?
Para entender o que poderia mudar na prática e quais seriam os limites de uma eventual nova administração, O Brasilianista conversou com Mayra Goulart, diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (IFCS).
A especialista entende que a gestão de Flávio daria continuidade ao plano de Jair. "O Flávio quase corporifica o próprio pai. A continuidade está na agenda conservadora e reacionária, com um discurso de combate ao PT, ao Supremo Tribunal Federal, endurecimento, punitivismo penal, aproximação com evangélicos, com as forças de segurança pública e privada, com o agronegócio e com setores da direita internacional", explica.
Contudo, Mayra pontua que a grande novidade se dá pela máquina partidária cada vez mais estruturada. O Partido Liberal ampliou a presença municipal, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.
Flávio x Jair
O programa de Flávio engloba redução da participação do Estado, privatização, punições mais severas, mas ao mesmo tempo, mantém programas sociais. A diretora enfatiza que Flávio é um político mais tradicional do que seu pai.
"Ele passou 16 anos na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e, nesses período, teve amplo trânsito entre os parlamentares", complementa.
Ela destaca outro ponto: "Existe uma grande diferença entre o que Flávio promete e o que ele vai conseguir aprovar, principalmente no que diz respeito a corte de gastos, corte da máquina pública e redução dos ministérios".
Flávio x Lula
Para Mayra, a principal diferença entre o candidato do PT e do PL se dá pela ideia de Estado: "O Lula reivindica o Estado como um ator importante para mediar as relações de trabalho, para proteger os mais vulneráveis. Já Flávio advoga em uma lógica mais de mercado, em que os atores vão negociar uns com os outros através de relações de oferta e demanda, a partir da entrega daquilo que eles precisam".
A especialista também destaca outra questão relevante: os direitos civis e a concepção de família. "Flávio defende uma 'família tradicional', em que as opressões de gênero, raça e econômicas estão presentes, enquanto Lula defende uma transformação nessas relações mediante a supressão das opressões de mulheres, negros e população LGBTQIPA+", pontua.
Mas apesar das distâncias ideológicas entre Lula e Flávio, Mayra garante que também existem semelhanças, principalmente em relação à necessidade de formar coalizão.
"O Flávio, mesmo tendo expandido a bancada do PL, não vai conseguir governar sem fazer coalizão com outros partidos. Em termos de agenda substantiva, existem temas que vão ser importantes para qualquer um que vença: a defesa do Pix, apoio ao agronegócio, às exportações...", finaliza.
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