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Café Amargo

Uma eleição altamente judicializada

Neste ano, o título é merecido porque a organização da disputa foi afetada, assim como o humor do eleitor

Uma eleição altamente judicializada
O impacto não é limitado à corrupção dos candidatos, mas também sobre a percepção de beneficiamento de um ou outro político (Foto: Imagem criada por IA/O Brasilianista)

As eleições presidenciais de 2026 ainda não terminaram, mas já podem ser consideradas como o pleito mais afetado por decisões judiciais desde a redemocratização. 

Em 1989, a Justiça Eleitoral impediu Silvio Santos de disputar o pleito em que tinha chances reais de vitória. Em 2006, 2014 e 2018, as eleições presidenciais foram influenciadas pelas decisões judiciais do Mensalão e da Lava Jato.

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Neste ano, o título é merecido porque a organização da disputa foi afetada, assim como o humor do eleitor. O impacto não é limitado à corrupção de um ou outro candidato, mas também sobre a percepção de beneficiamento de um ou outro político.

Meu ministro?

Uma ordem de determinado ministro, principalmente do Supremo Tribunal Federal (STF) ou do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), coloca o julgador a favor de um candidato e, necessariamente, contrário a outro proponente à Presidência da República.

Alexandre de Moraes é visto pela população como aliado de Lula, mesmo as duas figuras da República estando em locais bem distantes um do outro quando o assunto é ideologia política. Essa imagem é resultado do enfrentamento, pelo ministro do STF, ao golpismo bolsonarista que culminou no 8 de Janeiro de 2023.

Gilmar Mendes, que nunca escondeu suas inúmeras resistências a Lula, também é colocado ao lado do petista só porque proferiu decisões que ajudaram a aliança formada pelo Supremo e o Executivo atual contra a Câmara dos Deputados, o Senado e o Bolsonarismo.

Flávio Dino e Cristiano Zanin são colocados ao lado de Lula pela fidelidade que ambos demonstraram nos últimos anos, seja na política (caso de Dino) ou no Judiciário (situação vivida por Zanin).

As decisões

Gilmar e Moraes proferiram decisões que atrapalharam os planos do bolsonarismo e deram ainda mais munição para Flávio Bolsonaro e seus aliados convocarem a militância.

Gilmar dificultou a abertura de um processo de impeachment contra ministro do STF ao igualar as regras desse procedimento ao previsto para presidente da República.

Moraes usou o Inquérito das Fake News para emparedar as estratégias de Flávio e de Eduardo Bolsonaro, principalmente as que envolveram o pedido a Donald Trump, para aplicar tarifas contra o Brasil e ajudaram a inflamar o bolsonarismo nas redes sociais.

Zanin decidiu diversas vezes na confusão instalada nas eleições do Rio de Janeiro (RJ) após a cassação de Cláudio Castro. As ordens impediram que o grupo de Castro, que é aliado de Flávio Bolsonaro, continuasse no poder mesmo depois do afastamento do então governador e da prisão de Rodrigo Bacellar, então presidente da Assembleia Legislativa do RJ.

Dino decidiu diversas vezes para barrar o pagamento de emendas parlamentares empenhadas sem transparência e para barrar a influência de líderes partidários do Centrão sobre esses pagamentos. Muitos desses políticos apoiam Flávio, por exemplo, Valdemar Costa Neto e Gilberto Kassab, donos de PL e PSD, respectivamente.

Como ministro do STF, Dino tomou decisões que afetaram o Caso Master, principalmente quando o assunto é a relação de ministros da Corte com Daniel Vorcaro, e as eleições, ao liberar trechos das investigações sobre a intermediação de Flávio no financiamento concedido pelo banqueiro ao filme Dark Horse.

Morde e assopra

Para contornar essa imagem, parte do STF tomou decisões nos últimos dias que foram consideradas um aceno ao Bolsonarismo. Gilmar Mendes arquivou a investigação contra Alfredo Gaspar, vice de Flávio Bolsonaro investigado por estupro.

Mas também houve tapa em meio aos acenos. Alexandre de Moraes, ao mesmo tempo que aliviou a pena da Débora do Batom e permitiu que a presa progredisse de regime prisional, mandou prender Eduardo Bolsonaro no processo que condenou o deputado federal cassado por coação. 

Seu ministro?

Enquanto os exemplos acima colocam o quarteto de ministros ao lado de Lula, outras decisões colocam Luiz Fux, André Mendonça e Kassio Nunes Marques como aliados de Flávio Bolsonaro.

Foi André Mendonça quem divulgou as investigações da Polícia Federal (PF) que mostraram a relação de Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, com Daniel Vorcaro.

Kassio Nunes Marques, como ministro do TSE, tem proferido decisões consideradas tendenciosas por petistas. A primeira delas foi a que proibiu uma pesquisa da Quaest em que era apresentado ao eleitor a gravação de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Vorcaro para o filme Dark Horse.

Mas recentemente, outra decisão de Nunes Marques colocada em dúvida por petistas foi a que proibiu o canal Exército do Lula no WhatsApp sob a justificativa de divulgação de Fake News.

Já Luiz Fux é colocado na conta do Bolsonarismo pelo posicionamento que adotou durante o julgamento sobre os golpistas responsáveis pelo 8 de Janeiro. Fux foi o único ministro a votar pela absolvição da maioria dos investigados, inclusive Jair Bolsonaro, e pela redução das penas de muitos daqueles que destruíram a Praça dos Três Poderes há mais de 3 anos.

Conservadorismo fluminense

Fux e Mendonça têm sido bastante requisitados, e muito bem tratados, pelos operadores do Direito conservadores que moram e trabalham no Rio de Janeiro. Foram (e têm sido) organizados inúmeros eventos aos dois ministro do STF.

Os convescotes sempre contam com representantes da seccional da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (OAB-RJ), onde os dois ministros têm apoio quase que irrestrito.

A ajuda de Janja

Janja ajudou Hugo Motta indiretamente na busca pela Presidência da Câmara dos Deputados. O primeiro cotado do Centrão, principalmente Arthur Lira, para a vaga era André Fufuca.

Porém, Lira e Fufuca queriam usar o Ministério do Esporte para calcificar o nome do escolhido para a campanha. A ideia era usar o dinheiro extra que as Bets destinariam ao setor.

Mas Janja brigou dentro do governo pela manutenção de Ana Mozer, então ministra do Esporte. A primeira-dama teve uma vitória parcial, pois Mozer ficou no cargo por mais um tempo.

Esse lapso temporal foi o suficiente para acabar com os objetivos de Lira e Fufuca e ajudar no surgimento do nome de Hugo Motta como alternativa para a presidência da Câmara.

Receita Master

Ibaneis Rocha se afastou da política após o escandâlo do Caso Master. O ex-governador do Distrito Federal, apontado pela PF como principal tomador de decisão que ajudou a viabilizar a aquisição do Master pelo BRB, diz que Vorcaro apenas lhe pagou alguns poucos vinhos.

Mas enquanto a fervura da política não baixa para Ibaneis Rocha, o ex-governador usa esse calor para gravar vídeos culinários que são publicados em suas redes sociais. Num dos mais recentes, Ibaneis mostra o cardápio que será servido a alguns convidados em seu escritório de advocacia instalado no DF.

No vídeo, Ibaneis dá a entender que foi ele o autor das receitas com cabrito e cordeiro, mas o uso de roupa social pelo ex-governador, mais a participação ativa das cozinheiras, mostram que o político foi usar garfo e faca, não colher de pau.

Assista aqui.