A Procuradoria-Geral da República (PGR) fechou um acordo de colaboração premiada com Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido no mercado como Mineiro, um dos empresários que aparecem na rota financeira investigada entre Daniel Vorcaro e o filme Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Mineiro é dono da Entre Investimentos e Participações, empresa que, segundo a Polícia Federal, funcionava como uma espécie de braço operacional para repasses determinados por Vorcaro.
Parte dos recursos teria sido transferida ao Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos relacionado ao financiamento do longa.
O acordo é a primeira colaboração diretamente relacionada à investigação do financiamento de Dark Horse e a segunda firmada pela PGR dentro das apurações sobre as fraudes do Banco Master.
Um dia antes, o órgão havia fechado delação com João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos.
O material de Freixo foi encaminhado ao ministro André Mendonça, relator do caso Master e do inquérito sobre o filme no Supremo Tribunal Federal (STF), para análise de uma possível homologação.
Quem é Freixo?
Antônio Carlos Freixo Júnior construiu uma carreira de mais de 30 anos no mercado financeiro antes de seu nome aparecer entre os investigados da Operação Compliance Zero.
Natural de Minas Gerais, ele começou a trabalhar aos 14 anos como office-boy em uma agência do Banco Nacional em Santa Rita do Sapucaí.
Depois, mudou-se para São Paulo para cursar Administração de Empresas na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).
A trajetória profissional passou por instituições de peso. Freixo trabalhou no Banco Garantia e posteriormente no Credit Suisse, onde permaneceu até 2017.
Ainda no Garantia, participou da criação de uma operação offshore nas Bahamas. Com a compra do banco pelo Credit Suisse, continuou trabalhando no país caribenho antes de retornar ao Brasil em 2004.
Grupo Entre
Freixo fundou o Grupo Entre Investimentos em 2016. O negócio atua na gestão de investimentos e posteriormente ampliou sua presença para outros segmentos.
Em 2022, o empresário criou a Entrepay, instituição financeira voltada ao mercado de meios de pagamento.
O modelo da companhia era voltado para outras empresas, fornecendo infraestrutura para que terceiros oferecessem serviços de pagamento aos próprios clientes.
Em 2024, a Entrepay informou ter movimentado R$ 12,8 bilhões em transações, crescimento superior a 60% em relação ao ano anterior.
Freixo também entrou no setor de comunicação. Em 2022, venceu um leilão para adquirir ativos da Editora Três, responsável pela revista IstoÉ, por R$ 15 milhões.
Próximo de Vorcaro
Segundo a Folha de S.Paulo, Freixo é considerado próximo do antigo controlador do Banco Master e foi alvo de busca e apreensão em janeiro, durante a segunda fase da Operação Compliance Zero.
A ação cumpriu 42 mandados e determinou bloqueios que chegaram a R$ 5,7 bilhões.
O próprio O Brasilianista já havia mostrado que o empresário aparecia em conversas relacionadas ao grupo de Vorcaro.
Em mensagens encontradas nas investigações, Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro e um dos responsáveis por acompanhar pagamentos relacionados a Dark Horse, disse que iria cobrar “Mineiro” pelo andamento de um fluxo financeiro que havia repassado a ele.
Em outras apurações, Freixo também aparecia identificado pelo apelido de “Minas” na lista de contatos do ex-dono do Master.
Caminho do dinheiro
É justamente a função da Entre nessa estrutura que torna a delação de Freixo relevante para a PGR.
Segundo a Polícia Federal, a companhia intermediava pagamentos definidos por Vorcaro.
Os recursos destinados ao projeto cinematográfico passavam pela Entre antes de serem enviados ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos.
O fundo, sediado no Texas, tem entre os nomes ligados à administração o advogado Paulo Calixto, próximo de Eduardo Bolsonaro.
Depois de receber os valores, o Havengate repassava recursos à Go Up Entertainment, produtora responsável por Dark Horse.
As investigações procuram determinar se todo o dinheiro entregue por Vorcaro foi efetivamente aplicado no longa.
A Polícia Federal apura também a hipótese de que parte dos recursos possa ter beneficiado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Essa suspeita ainda não foi comprovada, e o ex-deputado nega ter recebido valores do esquema.
Primeiro repasse
O Brasilianista já havia mostrado que uma das primeiras transferências identificadas da Entre para o Havengate foi de aproximadamente US$ 2 milhões, equivalentes a cerca de R$ 10,3 milhões na cotação utilizada à época.
Documentos posteriormente revelados ampliaram a quantidade de pagamentos atribuídos à estrutura.
As parcelas destinadas por Vorcaro ao projeto haviam sido negociadas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, que admitiu ter procurado o banqueiro em busca de financiamento para o filme.
R$ 159 milhões
A relação entre Entre e as estruturas financeiras investigadas pelo caso Master vai além do filme.
Segundo levantamento já publicado pelo O Brasilianista, investigadores apontaram que o Grupo Entre teria recebido R$ 159,2 milhões de fundos investigados.
Desse montante, R$ 139,2 milhões teriam sido transferidos pela Sefer Investimentos. Outros R$ 20 milhões teriam origem no fundo Gold Style, administrado pela Reag.
A existência das transferências não significa, isoladamente, que todos os valores tenham sido desviados ou utilizados em atividades ilegais.
Elo com Reag
A Reag também aparece na trajetória recente de Freixo. A gestora fundada por João Carlos Mansur administrava fundos que mantiveram operações relacionadas ao universo financeiro do Master. Mansur fechou nesta semana o primeiro acordo de colaboração premiada da PGR na Compliance Zero.
Com Mineiro, a Procuradoria agora passa a contar com dois colaboradores posicionados em diferentes etapas das estruturas financeiras investigadas.
Mansur pode fornecer informações sobre os fundos administrados pela Reag. Freixo, por sua vez, esteve à frente da empresa que a PF aponta como intermediária de parte dos pagamentos determinados por Vorcaro.
Os dois acordos ainda precisam passar pelo controle do Supremo antes de produzirem os efeitos jurídicos previstos.
Transferência milionária
A Entre também aparece em uma investigação relacionada a uma empresa apontada pelas autoridades como parte de uma estrutura de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A companhia de Freixo transferiu R$ 26,2 milhões para a ACX ITX Serviços de Tecnologia Ltda. entre fevereiro e abril de 2025.
O proprietário formal da ACX afirmou à polícia que recebeu R$ 5 mil para figurar como dono da empresa e disse atuar profissionalmente como vendedor de pipas.
A companhia passou a ser tratada pelos investigadores como uma empresa de fachada utilizada em esquema criminoso.
A transferência é objeto de investigação. Não há conclusão definitiva de que Freixo soubesse da eventual utilização criminosa atribuída à empresa que recebeu os recursos.
Entrepay liquidada
Os problemas regulatórios do grupo também chegaram ao Banco Central. Em 27 de março, a autoridade monetária decretou a liquidação extrajudicial da Entrepay e de outras companhias integrantes do Grupo Entre.
A medida ocorreu depois de Freixo já ter sido atingido pela Operação Compliance Zero.
A empresa afirmou anteriormente que suas operações eram realizadas de forma regular e transparente e que permanecia à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
O Grupo Entre também sustentou que não possuía vínculo societário com Daniel Vorcaro nem com o Banco Master.
Processo na CVM
Mineiro e Vorcaro aparecem juntos ainda em um processo administrativo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
O caso envolve operações com cotas do fundo imobiliário Brazil Realty. Segundo a área técnica do órgão, haveria indícios de superavaliação de ativos e geração artificial de liquidez para proporcionar ganhos a partes relacionadas.
Os investigados negam irregularidades.
Uma proposta de acordo apresentada para encerrar o processo foi rejeitada pela CVM.
No caso específico de Freixo, O Brasilianista já havia noticiado uma oferta de R$ 800 mil que não foi aceita porque o comitê considerou insuficiente a reparação aos investidores potencialmente prejudicados.
Acompanhe O Brasilianista no Instagram

