A Procuradoria-Geral da República (PGR) assinou um acordo de colaboração premiada com João Carlos Mansur, fundador e ex-CEO da Reag Investimentos, em mais um desdobramento das investigações sobre as fraudes financeiras envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master.
A colaboração é a primeira formalizada pela PGR dentro da Operação Compliance Zero. Mansur apresentou provas e informações consideradas novas sobre as operações atribuídas a Vorcaro.
A proposta que antecedeu o acordo era composta por 17 anexos sobre diferentes temas e previa o pagamento de R$ 40 milhões em multas, valor equivalente ao que Mansur teria recebido da Reag enquanto comandava a gestora.
O material já foi encaminhado ao ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), que deverá decidir se homologa o acordo.
O que aconteceu
Nos depoimentos e documentos apresentados à PGR, Mansur forneceu novos detalhes sobre o funcionamento das operações financeiras atribuídas ao grupo de Vorcaro e também mencionou outros personagens relacionados ao esquema investigado.
Uma das informações consideradas relevantes pelos investigadores é a descrição do caminho percorrido pelos recursos retirados do Banco Master.
A Reag administrava fundos utilizados em operações sob suspeita. Segundo a apuração, recursos saíam do Master para empresas que, posteriormente, direcionavam parte do dinheiro para fundos geridos pela gestora.
A Polícia Federal investiga se essas estruturas criavam diferentes camadas financeiras para dificultar a identificação da origem e do destino final dos valores.
Mansur afirmou ainda que fundos da Reag teriam sido utilizados com laranjas e estruturas offshore para movimentar recursos relacionados ao Master.
R$ 40 milhões
O acordo prevê que Mansur pague R$ 40 milhões em multas. O valor já constava da proposta apresentada à PGR no fim de agosto e corresponde ao montante que o empresário teria recebido da Reag enquanto a empresa ainda estava em operação.
O pagamento integra as condições negociadas para a colaboração, mas não significa que todas as informações fornecidas pelo empresário estejam automaticamente comprovadas.
Em acordos desse tipo, declarações precisam ser acompanhadas de elementos que permitam sua confirmação pelos investigadores.
Reag e Master
A posição de Mansur tornou sua colaboração particularmente relevante porque a Reag aparece em diferentes operações financeiras investigadas no caso Master.
Como mostrou O Brasilianista, a Polícia Federal apura um esquema de triangulação envolvendo Master, Reag e Banco de Brasília (BRB).
Os investigadores sustentam que o Master concedia empréstimos a determinadas empresas e que parte desses recursos era posteriormente direcionada para fundos administrados pela Reag.
A suspeita é de que as operações tenham sido utilizadas para inflar patrimônios e esconder a origem ou o destino do dinheiro.
Entre os fundos associados à estrutura aparecem Verbier, Cabreúva, Borneo e Delta, que adquiriram participação equivalente a 23,5% do capital do BRB em uma operação analisada pela Polícia Federal.
Mansur é apontado nas investigações como um dos articuladores dessas movimentações.
Dinheiro desviado
Os investigadores consideram que a colaboração pode ajudar a reconstruir como recursos saíam do sistema financeiro e terminavam no patrimônio de Vorcaro ou eram destinados a outros pagamentos.
Segundo informações divulgadas após a assinatura, fundos operados pela Reag teriam sido utilizados para retirar valores do Master e encaminhá-los ao patrimônio pessoal do então banqueiro ou para possíveis pagamentos de propina, hipótese que ainda depende da conclusão das investigações.
É justamente a capacidade de Mansur de detalhar essas estruturas que teria levado a PGR a considerar sua proposta mais relevante do que outras tentativas de colaboração apresentadas no caso.
BRB aparece
A conexão da Reag com o BRB é uma das frentes já conhecidas da investigação.
O Brasilianista destacou que o banco brasiliense aumentou seu capital durante uma operação que envolveu a compra de R$ 21,9 bilhões em carteiras de crédito do Master, sendo R$ 12,2 bilhões considerados fraudulentos pelas investigações.
Fundos ligados à Reag participaram da estrutura montada em torno do BRB.
A PF também investiga o ex-presidente do banco brasiliense Paulo Henrique Costa por sua participação nas operações e pela relação mantida com Vorcaro.
As suspeitas envolvendo as duas instituições estão entre as razões pelas quais a Reag se tornou peça importante para reconstruir o funcionamento financeiro do Master.
Escritório de Ibaneis
Outra operação analisada envolve o escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria, ligado à família do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha.
Em maio de 2024, o escritório vendeu R$ 38 milhões em honorários de precatórios ao fundo Reag Legal Claims, posteriormente chamado Pedra Azul.
O diretor do fundo, Marcos Ferreira Costa, também representou outro veículo ligado à Reag em assembleias do BRB.
A defesa de Ibaneis afirma que o governador está afastado das atividades do escritório desde 2018 e que não participou das negociações realizadas com a gestora.
A existência dessas operações não significa, isoladamente, que tenham integrado as fraudes investigadas. A PF analisa as conexões financeiras para determinar se houve irregularidades.
Nomes políticos
A proposta apresentada por Mansur antes da assinatura do acordo também mencionava personagens políticos.
Entre os nomes citados estavam o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União).
O acordo de Mansur é particularmente importante porque outras tentativas de colaboração relacionadas ao Master não conseguiram avançar da mesma maneira.
Daniel Vorcaro já apresentou propostas às autoridades, mas investigadores avaliaram que o material oferecido pelo ex-banqueiro não acrescentava informações suficientemente novas ao que PF e PGR já conheciam.
Reag liquidada
A Reag deixou de operar no início deste ano. Em janeiro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição, um dia depois de uma operação da Polícia Federal atingir a empresa.
O Brasilianista mostrou que a decisão foi tomada após o BC identificar problemas relacionados a ativos sem garantia real e operações que não atendiam aos requisitos de conformidade.
O Master também havia informado às autoridades que garantias relacionadas a ativos da Reag não possuíam lastro.
Antes da liquidação, a gestora administrava uma ampla estrutura de fundos utilizada por diferentes investidores e empresas.
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