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Geopolítica

Por que os Bancos Centrais estão vendendo seus dólares?

Japão tenta sustentar o iene, Índia e Coreia do Sul contêm a desvalorização de suas moedas e Brasil injeta liquidez diante da saída de recursos

Edifício do Banco Central
Juros elevados nos EUA, petróleo caro e maior aversão ao risco aparecem como fatores em comum Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

O Japão vendeu o equivalente a quase US$ 100 bilhões (R$ 521,45 bilhões) em moeda estrangeira em menos de um mês para tentar interromper a queda do iene.

No Brasil, o Banco Central colocou US$ 1 bilhão (R$ 5,21 bilhões) à vista no mercado nesta quinta-feira (27).

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Nas últimas semanas, Índia e Coreia do Sul também recorreram à venda de dólares, enquanto a Indonésia intensificou intervenções cambiais para defender a rupia.

Embora os movimentos ocorram praticamente ao mesmo tempo, eles não significam que os Bancos Centrais decidiram abandonar o dólar como moeda de reserva.

Na maior parte dos casos, as autoridades estão utilizando os dólares acumulados nas reservas internacionais para comprar suas próprias moedas ou garantir oferta suficiente da divisa americana quando há uma concentração de demanda.

O elo entre os episódios está no aumento da pressão sobre diferentes moedas nacionais.

Juros elevados nos Estados Unidos tornam os ativos americanos mais atraentes, o petróleo encarece a conta dos países importadores de energia e períodos de maior aversão ao risco estimulam investidores a buscar ativos considerados mais seguros.

O resultado pode ser saída de capital, valorização do dólar e necessidade de intervenção por parte das autoridades monetárias.

Japão recordista

O caso mais expressivo é o Japão. O Ministério das Finanças informou nesta sexta-feira (28) que as intervenções realizadas entre 30 de julho e 26 de agosto chegaram a 15,399 trilhões de ienes.

Dependendo da taxa de câmbio utilizada para a conversão, o montante fica próximo de US$ 100 bilhões (R$ 521,45 bilhões) e representa um recorde para o país.

A operação ocorreu depois que o iene se aproximou de 164 unidades por dólar, menor nível da moeda japonesa em cerca de quatro décadas.

O governo vende dólares e compra ienes no mercado para aumentar a demanda pela moeda nacional e tentar impedir movimentos considerados excessivamente rápidos.

A diferença de juros entre Japão e Estados Unidos é uma das razões para a pressão.

Mesmo depois do aperto monetário japonês, os juros americanos permanecem mais elevados, favorecendo operações nas quais investidores captam recursos em ienes e aplicam em ativos de maior rendimento no exterior.

Esse movimento aumenta a oferta de ienes no mercado e pode pressionar sua cotação.

O iene fraco também aumenta o custo das importações japonesas, problema particularmente importante para um país altamente dependente da compra de energia no exterior.

O aumento dos preços do petróleo provocado pelas tensões no Oriente Médio adicionou pressão à conta de importação japonesa.

Coreia do Sul

A intervenção japonesa teve uma característica incomum. Em 30 de julho, autoridades da Coreia do Sul também venderam dólares e compraram sua moeda, em uma ação realizada no mesmo momento da operação japonesa.

A intervenção sul-coreana ocorreu depois que o won havia atingido o menor nível em 17 anos, chegando a aproximadamente 1.561,50 por dólar no mês anterior.

Após a atuação das autoridades, a moeda avançou e chegou a 1.418 por dólar. Foi uma intervenção considerada rara no mercado cambial do país.

Representantes sul-coreanos afirmaram que mantinham coordenação próxima com Japão e Estados Unidos diante das turbulências no câmbio.

Índia intervém

A Índia também passou a vender dólares de maneira mais agressiva. No fim de julho, o Reserve Bank of India (RBI) intensificou sua atuação depois que a rupia se aproximou da mínima histórica de 96,96 unidades por dólar.

Somente em uma sexta-feira, estimativas de bancos ouvidos pela Reuters apontaram vendas entre US$ 8 bilhões (R$ 41,73 bilhões) e US$ 9 bilhões (R$ 46,95 bilhões) nos mercados à vista e de contratos sem entrega física. 

O RBI continuou vendendo dólares nas sessões seguintes, ajudando a moeda indiana a retornar para abaixo de 96 rúpias por dólar.

A Índia possui um problema adicional, o petróleo. O país importa quase 90% do petróleo que consome, o que aumenta sua necessidade de dólares quando a commodity fica mais cara.

A escalada dos preços de energia provocada pelos conflitos no Oriente Médio ampliou a procura pela moeda americana e pressionou a rupia.

Dados posteriores do próprio RBI mostraram a dimensão da movimentação. Em junho, o banco comprou US$ 30,89 bilhões (R$ 161,15 bilhões) e vendeu US$ 30,33 bilhões (R$ 158,20 bilhões) no mercado.

Em maio, havia sido vendedor líquido de US$ 6 bilhões (R$ 31,28 bilhões) e, em abril, de US$ 8,9 bilhões (R$ 46,4 bilhões).

Rupia indonésia

A Indonésia enfrentou pressão semelhante. A rupia chegou a sucessivas mínimas históricas neste ano, levando o Bank Indonesia a combinar intervenções no mercado de câmbio com aumentos de juros.

Em junho, o Banco Central indonésio reconheceu que havia elevado a intensidade das intervenções nos mercados à vista, offshore e de contratos cambiais domésticos.

A estratégia tinha como objetivo estabilizar a moeda diante da incerteza internacional e do aumento da demanda por dólares das empresas locais.

A pressão também provocou redução das reservas. Até o início de junho, elas haviam recuado cerca de US$ 12 bilhões (R$ 62,57 bilhões) no ano, enquanto a rupia acumulava queda de aproximadamente 8% diante do dólar.

Além do choque do petróleo e da guerra no Oriente Médio, investidores demonstraram preocupação com planos de gastos do governo e com a condução da política econômica do país.

Caso brasileiro

O Brasil entrou nesta sequência nesta quinta-feira (27), mas com uma diferença importante.

O Banco Central vendeu US$ 1 bilhão (R$ 5,21 bilhões) no mercado à vista, ao mesmo tempo em que realizou uma operação de US$ 1 bilhão em swap cambial reverso.

A combinação é conhecida no mercado como “casadão”. O BC entrega dólares físicos em uma ponta da operação, mas assume na outra uma posição equivalente à compra de dólares no mercado futuro.

Por isso, o efeito direcional das duas operações sobre o câmbio tende, em teoria, a se anular.

Isso significa que o movimento brasileiro não deve ser interpretado simplesmente como uma tentativa de usar as reservas para valorizar o real, como ocorre nas intervenções mais diretas de Japão e Índia.

A principal função do instrumento é fornecer dólares à vista em um momento de maior demanda sem alterar, na mesma proporção, a exposição cambial do Banco Central.

A intervenção ocorreu em meio à saída de recursos estrangeiros. Até 21 de agosto, o fluxo cambial acumulava saldo negativo de US$ 2,55 bilhões (R$ 13,29 bilhões) no mês, enquanto investidores estrangeiros também haviam retirado aproximadamente R$ 20 bilhões da Bolsa brasileira.

Reservas brasileiras

O Brasil possui um colchão significativo para atuar nesses momentos. O próprio Banco Central define as reservas internacionais como ativos mantidos para enfrentar choques externos, interrupções nos fluxos de capital e problemas de funcionamento do mercado cambial.

Em junho, as reservas brasileiras estavam em US$ 367,6 bilhões (R$ 1,916 trilhão). Naquele mês, vendas à vista de dólares reduziram o estoque em US$ 2 bilhões (R$ 10,43 bilhões), embora outros fatores, como operações de linha e receitas de juros, tenham compensado parcialmente a queda.

O BC havia realizado outra operação semelhante em junho. Em 22 daquele mês, colocou até US$ 1 bilhão (R$ 5,21 bilhões) em dólares à vista no mercado e realizou simultaneamente operação de swap cambial reverso no mesmo montante.

Pressão americana

Parte do que aproxima Brasil, Japão e outras economias está nos Estados Unidos. Os títulos públicos americanos de longo prazo passaram por uma forte elevação das taxas neste ano, tornando mais caro o custo de captação global e aumentando o retorno exigido pelos investidores para aplicar dinheiro em outros países.

A taxa dos Treasuries de 30 anos chegou recentemente ao maior nível desde 2007.

Além da persistência da inflação e das preocupações com as contas públicas americanas, um novo concorrente passou a disputar recursos no mercado de dívida: as grandes empresas de tecnologia.

Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft e Oracle emitiram conjuntamente cerca de US$ 132 bilhões (R$ 688,29 bilhões) em títulos apenas nos primeiros sete meses de 2026, segundo levantamento da Vanguard citado pelo InfoMoney.

Entre 2020 e 2024, a média anual dessas cinco companhias havia sido próxima de US$ 35 bilhões (R$ 182 bilhões).

Quando o governo americano e empresas com elevada qualidade de crédito oferecem volumes maiores de títulos pagando taxas mais altas, investidores passam a exigir retornos maiores para manter recursos em economias emergentes.

Esse mecanismo afeta diretamente os juros domésticos, os fluxos de capital e, em determinados momentos, o câmbio.

Dívida brasileira

O efeito externo chega ao Brasil em um momento no qual o próprio Tesouro precisa administrar uma dívida pública maior e mais cara.

O estoque da Dívida Pública Federal chegou a R$ 9,289 trilhões em julho, enquanto o governo aumentou a projeção para a parcela da dívida indexada à taxa de juros.

O Tesouro passou a trabalhar com a possibilidade de os títulos atrelados à Selic representarem até 53% da dívida ainda em 2026, o maior percentual da série.

A mudança reflete a preferência dos investidores por papéis de menor risco de mercado em momentos de juros elevados e maior volatilidade.

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