O anúncio do presidente Donald Trump de que os Estados Unidos deixarão de fornecer aproximadamente US$ 4 bilhões (R$ 21,54 bilhões) anuais em ajuda militar a Israel, a partir de 2027, coloca em discussão a capacidade do governo israelense de financiar sua defesa sem os repasses americanos.
A declaração, feita em 3 de novembro, contraria o calendário de um acordo bilateral que prevê US$ 38 bilhões (R$ 204,44 bilhões)em assistência entre 2019 e 2028.
Enquanto Trump sustenta que Israel já possui condições de custear seus equipamentos, os números mostram uma dependência que ultrapassa o financiamento direto.
Entre 2021 e 2025, os EUA responderam por 68% das importações israelenses de grandes armamentos, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri).
A possível interrupção ocorre em meio ao aumento das despesas militares de Israel e às consequências das operações em Gaza, no Líbano e contra o Irã.
O país destinou aproximadamente 143 bilhões de shekels ao Ministério da Defesa em seu orçamento de 2026, equivalentes a cerca de US$ 46 bilhões (R$ 252,08 bilhões) na conversão utilizada durante a aprovação das contas.
Ao mesmo tempo, Washington permanece responsável por financiar parte das compras de aeronaves, munições e sistemas antimísseis israelenses.
Acordo ameaçado
O financiamento americano está previsto em um memorando de entendimento assinado em 2016, durante a presidência de Barack Obama.
O compromisso estabelece US$ 38 bilhões (R$ 204,44 bilhões) ao longo de dez exercícios fiscais, dos quais US$ 33 bilhões (R$ 179,49 bilhões) são destinados à aquisição de equipamentos militares e US$ 5 bilhões (R$ 26,9 bilhões) a programas conjuntos de defesa antimísseis.
Anualmente, a divisão corresponde a US$ 3,3 bilhões (R$ 17,75 bilhões) para o programa Foreign Military Financing (FMF) e US$ 500 milhões (R$ 2,69 bilhões) para sistemas de interceptação.
Trump, entretanto, anunciou que o financiamento será encerrado antes do prazo originalmente estabelecido.
Em entrevista à Fox News, declarou que havia discutido a mudança com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e que Israel não precisava mais do auxílio.
O presidente americano também afirmou que a assistência financeira se tornou um argumento utilizado por adversários políticos nos Estados Unidos.
A declaração não veio acompanhada de um instrumento que estabeleça como os repasses serão interrompidos.
Segundo o Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA (CRS), os valores anuais previstos no acordo também foram incorporados à legislação americana em 2021.
Portanto, a suspensão antecipada exige considerar autorizações orçamentárias e compromissos já existentes.
Orçamento israelense
O Parlamento de Israel aprovou, em março, um orçamento federal de aproximadamente 850,6 bilhões de shekels para 2026.
Desse total, 143 bilhões foram destinados diretamente à Defesa, com outros 22 bilhões classificados como despesas condicionadas à arrecadação de receitas, categoria que inclui a assistência americana e outras fontes.
O orçamento também prevê 82,2 bilhões de shekels em autorizações para compromissos futuros.
Para dimensionar o peso da assistência dos EUA, os US$ 3,8 bilhões anuais correspondem a aproximadamente 8% dos US$ 46 bilhões (R$ 250,24 bilhões) equivalentes ao orçamento principal israelense de Defesa de 2026.
A comparação é aproximada, pois envolve moedas, critérios orçamentários e fontes de financiamento diferentes.
Ainda assim, indica que o governo israelense financia a maior parte de suas despesas militares com recursos próprios.
Segundo o Sipri, os gastos militares efetivos de Israel alcançaram US$ 48,3 bilhões (R$ 259,85 bilhões)em 2025, equivalentes a 7,8% do Produto Interno Bruto (PIB).
O montante foi 4,9% menor, em termos reais, que o registrado no ano anterior, mas permaneceu 97% acima do nível de 2022.
Em 2024, o instituto havia estimado despesas militares de US$ 46,5 bilhões, com crescimento real de 65% em relação a 2023.
Dependência tecnológica
A capacidade de substituir os repasses financeiros não elimina a dependência de equipamentos e tecnologias americanas.
O Sipri identificou que os Estados Unidos forneceram 68% dos grandes armamentos importados por Israel entre 2021 e 2025. A Alemanha respondeu por outros 31%.
Entre os equipamentos adquiridos estão aeronaves de combate, veículos blindados, bombas guiadas e mísseis.
No encerramento de 2025, Israel ainda possuía pelo menos 55 aeronaves militares de combate encomendadas aos EUA, segundo o instituto.
A continuidade dessas compras depende de contratos, autorização para exportação de determinados equipamentos e disponibilidade das fabricantes.
O programa americano de financiamento militar também estabelece condições sobre onde os recursos podem ser utilizados.
Em 2026 e 2027, Israel deverá destinar 92% das verbas do FMF à aquisição de produtos de defesa fabricados nos EUA. Em 2028, a exigência chegará a 100%.
Portanto, o fim dos subsídios também afetaria a indústria americana, que recebe encomendas financiadas pelo próprio governo dos Estados Unidos.
Contratos pendentes
A interrupção antecipada pode criar dificuldades para compras negociadas antes do anúncio de Trump.
Um documento do Departamento de Estado americano registra aproximadamente US$ 10 bilhões (R$ 53,86 bilhões) em encomendas israelenses que ainda precisarão ser financiadas depois de 2028.
O levantamento utilizou contratos pendentes em 1º de abril, de modo que o valor pode ter sofrido alterações posteriores.
O documento também identifica quase US$ 7 bilhões (R$ 37,66 bilhões) em assistência já comprometida para os dois próximos exercícios do acordo vigente.
Parte desses recursos está relacionada à aquisição de aeronaves F-35, cuja fabricação e entrega podem se estender por vários anos.
A substituição dos repasses por recursos israelenses exigiria definir quais contratos continuariam financiados, quais poderiam ser renegociados e como seriam distribuídas as despesas futuras.
Defesa antimísseis
Um dos pontos sensíveis da mudança envolve os sistemas utilizados por Israel para interceptar foguetes, mísseis e outras ameaças aéreas.
Os programas Iron Dome, David's Sling e Iron Beam fazem parte da cooperação militar desenvolvida entre os dois países.
O financiamento anual previsto no memorando inclui US$ 500 milhões (R$ 2,74 bilhões) para projetos conjuntos de defesa antimísseis.
Entretanto, os recursos extraordinários podem superar esse valor em períodos de conflito.
Em 2024, o Congresso americano aprovou aproximadamente US$ 4 bilhões (R$ 21 bilhões) adicionais para os sistemas Iron Dome e David's Sling, além de US$ 1,2 bilhão (R$ 6,6 bilhões) para o Iron Beam.
Ajuda histórica
A parceria militar entre Estados Unidos e Israel foi consolidada ao longo de décadas, mas o volume de recursos cresceu especialmente depois da Guerra do Yom Kippur, em 1973.
A assistência americana acumulada entre 1946 e 2025 alcançou aproximadamente US$ 175 bilhões (R$ 963,1 bilhões) em valores nominais, considerando programas militares, econômicos e de defesa antimísseis.
Quando os valores históricos são corrigidos pela inflação, o total é significativamente superior.
Dados do governo americano, apontavam aproximadamente US$ 298 bilhões (R$ 1,64 trilhão), a preços de 2024, em assistência acumulada até aquele ano.
A guerra em Gaza provocou uma ampliação extraordinária dos repasses.
Em 2024, a assistência registrada pelo CRS chegou a US$ 12,5 bilhões (R$ 68,7 bilhões) , incluindo US$ 6,8 bilhões em financiamento militar e US$ 5,7 bilhões relacionados à defesa antimísseis.
No ano seguinte, o volume voltou ao patamar regular de US$ 3,8 bilhões (R$ 20,9 bilhões).
Relação política
A declaração de Trump ocorreu no mesmo dia das eleições legislativas americanas, que terminaram com a conquista das duas Casas do Congresso pelos democratas.
O financiamento a Israel tornou-se tema de divergências dentro dos próprios partidos dos EUA, especialmente diante da guerra em Gaza e da participação americana no conflito contra o Irã.
Entre os democratas, parlamentares questionam o envio de recursos militares diante das consequências humanitárias das operações israelenses.
Setores conservadores americanos também passaram a defender a redução de despesas destinadas a aliados estrangeiros.
Em Israel, a oposição criticou a maneira como a decisão foi anunciada.
O ex-chefe militar Gadi Eisenkot questionou a condução das relações com Washington pelo governo Netanyahu, enquanto Yair Golan, também integrante da oposição, alertou para possíveis prejuízos à segurança israelense.
Netanyahu já havia defendido uma redução gradual da dependência financeira em entrevistas anteriores, mas em um horizonte de aproximadamente dez anos, diferente da interrupção anunciada para o fim de 2026.
Nova parceria
Os dois governos discutem alternativas para transformar a assistência tradicional em uma cooperação baseada em desenvolvimento tecnológico, produção conjunta e comercialização de equipamentos.
Uma proposta incluída na legislação americana de Defesa para 2027 prevê ampliar a integração entre as indústrias militares dos dois países.
As áreas contempladas incluem inteligência artificial, computação quântica, cibersegurança, biotecnologia e tecnologias de interceptação de drones e mísseis.
A proposta, contudo, ainda depende da conclusão de sua tramitação legislativa.
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