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Geopolítica

Eleições em Israel podem acabar em impasse, diz especialista

Quase 40 partidos disputam o pleito, mas a maioria não deve atingir a quantidade mínima de votos para conquistar uma cadeira no parlamento

Benjamin Netanyahu
O atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, é um dos candidatos à reeleição (Foto: @netanyahu via Fotos Públicas)

Israel terá eleições nesta terça-feira (27) pela primeira vez desde o ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023. O atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, é um dos candidatos à reeleição.

São cerca de 7 milhões de eleitores israelenses que devem decidir entre o chanceler atual e outros dois partidos também liderados por candidatos da direita, com políticas duras nos setores militar e de segurança. 

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O voto em Israel é feito por meio de cédulas de papel e, portanto, o resultado final deve sair na quarta-feira (28).

Vale lembrar também que nenhum dos três blocos favoritos reconhece a possibilidade da criação de um Estado palestino e todos defendem a necessidade de desarmamento do Hamas. A principal diferença entre os candidatos está no projeto de expansão dos assentamentos na Cisjordânia.

No total, 37 partidos disputam o pleito, mas a maioria não deve atingir a quantidade mínima de votos necessária para conquistar uma cadeira no parlamento israelense.

Os candidatos favoritos para o governo de Israel são:

  • Benjamin Netanyahu, do partido Likud (atualmente há 19 anos no poder);
  • Gadi Eisenkot, ex-chefe militar de Israel e um dos principais adversários de Netanyahu;
  • Naftali Bennett e Yair Lapid, ex-primeiros-ministros, formando uma aliança;
  • Avigdor Lieberman, ex-ministro da Defesa, do partido Yisrael Beitenu
  • Yair Golan, ex-major-general das Forças de Defesa de Israel, do partido Democratas. 

Nas eleições em Israel, os cidadãos votam em listas apresentadas pelos partidos políticos, e não diretamente em candidatos a primeiro-ministros. A partir do resultado, o presidente do país divide as cadeiras do parlamento de acordo com a proporção de votos que cada partido ganhou.

O Knesset tem 120 cadeiras e, para formar um governo, a coalizão precisa reunir ao menos 61 assentos.

O que esperar das eleições em Israel?

Segundo Beny Fard, analista geopolítico e macroeconômico e sócio da Segundo Minuto, o cenário mais provável é o de impasse, pois nenhuma das pesquisas finais dos grandes canais deu os 61 assentos necessários a qualquer bloco: o Canal 13 projetou 50 para a coalizão de Netanyahu e 54 para o bloco de Gadi Eisenkot, o Canal 12 deu 50 a 56 e o Kan deu 50 a 52, com o Yashar, de Eisenkot, ligeiramente à frente do Likud (22 a 23 contra 19 a 21 cadeiras) e o partido de Naftali Bennett em terceiro (14).

A exceção foi o Canal 14, mais alinhado ao primeiro-ministro, que projetou 62 para Netanyahu.

O comparecimento é uma das informações mais relevantes. Cerca de 56% dos eleitores compareceram seis horas antes do fechamento, o maior desde 1973, o que costuma indicar um eleitorado mobilizado pela mudança.

"É importante ressaltar que em Israel a eleição não termina na urna, ela termina na negociação, e os partidos pequenos que ficarem perto da cláusula de barreira (3,25%) podem decidir sozinhos quem governa", afirma Fard.

Ou seja, o mais provável é que o resultado de hoje seja só o primeiro capítulo de semanas de articulação, com risco real de uma nova eleição em 2027.

Um novo mandato de Benjamin Netanyahu

Um provável novo mandato de Benjamin Netanyahu, para Israel, representa continuidade da doutrina de segurança que ele construiu, mas também a continuidade das feridas internas, pois o eleitor da oposição coloca a falha de 7 de outubro como o tema número um da eleição, enquanto o eleitor de Netanyahu coloca a guerra contra o Irã, ou seja, o país está votando em duas memórias diferentes do mesmo conflito.

O analista geopolítico afirma que para os Estados Unidos, uma reeleição do chanceler significa um aliado alinhado sem fricção, "tendo-se em vista que Trump fez algo raro, que foi declarar apoio explícito a um candidato estrangeiro, chegando a dizer que sem Bibi os americanos teriam de fazer esse trabalho sozinhos".

Já o Irã sob o regime dos aiatolás deve enfrentar o pior cenário possível no caso de um novo mandato de Netanyahu, pois ele faz campanha abertamente pela pressão máxima e pela queda do regime. Para a população iraniana, a pressão sobre a teocracia pode ser justamente a janela de libertação que ela espera há quase cinco décadas.

A dificuldade dos blocos de oposição

Dos quase 40 partidos em disputa ao pleito, apenas alguns conseguem firmar quantidades consideráveis no parlamento. Fard explica que essa é uma questão mais institucional do que eleitoral.

Israel tem um sistema proporcional puro, com um único distrito nacional, 120 cadeiras e cláusula de barreira baixa, o que estimula a fragmentação e transforma partidos pequenos em fiéis da balança.

Além disso, na visão do especialista, o bloco contrário a Netanyahu é unido mais pelo que rejeita do que pelo que propõe, juntando direita nacionalista, centro e esquerda, que divergem sobre Estado palestino, serviço militar dos ultraortodoxos e relação entre religião e Estado. 

"E há um nó aritmético que poucas pessoas se atentam, já que os partidos árabes somam de 14 a 16 cadeiras, mas quase todos os líderes da oposição descartam governar com eles. A única vez em que isso aconteceu, com a coalizão Bennett-Lapid e o Ra’am em 2021, o governo durou pouco mais de um ano", lembra o analista geopolítico. 

Para Fard, Israel vive o paradoxo de uma democracia vibrante com um sistema que produz governos frágeis. Vale lembrar que o país teve cinco eleições entre 2019 e 2022 em meio a uma democracia fragmentada que exige construir coalizões quase impossíveis.

Quem é Benjamin Netanyahu e qual sua trajetória política?

Benjamin Netanyahu é o atual primeiro-ministro de Israel e o primeiro político do país que ocupa o cargo por mais tempo desde a criação do Estado, em 1948.

Ele foi eleito pela primeira vez em 1996, depois em 2009 — momento em que ficou até 2021 — e novamente em 2022. No total, são seis eleições vencidas, sem precedentes no país.

Netanyahu nasceu em Tel Aviv em 1949, um ano após a fundação de Israel e se tornou o primeiro chefe de Estado nascido na região após a criação do Estado israelense.

No entanto, ele nem sempre esteve no setor político. O primeiro-ministro cresceu entre Israel e os Estados Unidos, devido à carreira de professor universitário do pai.

Ao completar 18 anos, em 1967, cumpriu cinco anos de serviço militar por Israel, o que mudou sua perspectiva sobre a região. Na época, ele fez parte da elite Sayeret Matkal, unidade antiterrorista de Israel, participando de diversas operações no Egito e na Síria e ganhou a patente de capitão.

Depois desse período ele retornou aos EUA, em 1972, para estudar Arquitetura e Administração de Empresas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). Porém, precisou voltar a Israel em outubro de 1973 para servir com o Sayeret Matkal na Guerra do Yom Kippur.

Na ocasião, seu irmão faleceu, o que o motivou a atuar novamente no país de origem. Pouco antes de retornar a Israel, ele trabalhou como consultor econômico no Boston Consulting Group em Massachusetts. Quando retornou, decidiu fundar e dirigir o Instituto Antiterrorismo Yonathan Netanyahu, uma organização não-governamental que estuda o terrorismo e busca combatê-lo — ele chegou a publicar três livros sobre o tema.

Já nos anos 1980, seu interesse por política começou a aparecer, quando trabalhou como gerente em uma empresa de fabricação de móveis em Jerusalém. Conheceu o ministro Moshe Arens, que o nomeou vice-chefe da Missão de Israel em Washington. Pouco depois, se tornou embaixador de Israel na ONU.

Em 1988, mergulhou na carreira política ao se filiar ao partido de direita Likud e servindo no Knesset, o parlamento nacional. Cinco anos depois, ele se tornou líder do Likud. Outros cinco anos e ele venceu as eleições para ser o primeiro-ministro.

Porém, nas eleições de 1999, Netanyahu foi derrotado por Ehud Barak. O substituto de Barak, Sharon, nomeou Netanyahu primeiro como seu ministro dos Negócios Estrangeiros e depois como ministro das Finanças.

As urnas mostraram resultado positivo novamente em 2009, iniciando o período mais longo do mandatário no país.

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