As eleições parlamentares realizadas em Israel na terça-feira (27) deixaram o país sem uma maioria definida para formar o próximo governo e abriram uma disputa que poderá influenciar as operações militares em Gaza, os confrontos com o Irã e as relações diplomáticas com os países árabes.
Com a apuração ainda em andamento nesta quinta-feira (29), o bloco do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu projetava 53 das 120 cadeiras do Knesset, enquanto a oposição liderada pelo ex-chefe militar Gadi Eisenkot somava 48.
Os partidos árabes, com aproximadamente 19 assentos, passaram a ocupar uma posição decisiva, já que nenhum dos grupos alcançou as 61 cadeiras necessárias para governar.
A composição do Parlamento coloca Israel diante de negociações que envolvem partidos religiosos, ultranacionalistas, representantes árabes e forças de centro e direita secular.
Para Cássio Eduardo Zen, doutor em Direito Internacional e docente de Direito Internacional Público e Privado no Centro Universitário de Pinhais (Fapi), a fragmentação política poderá alterar a relação do país com seus aliados internacionais, mas não significa necessariamente uma mudança na política de segurança.
As posições defendidas pelos principais candidatos em relação ao Hamas e à criação de um Estado palestino indicam que mesmo uma alternância de governo poderá manter restrições às negociações territoriais.
Desgaste de Netanyahu
A eleição ocorreu após um período de desgaste político do primeiro-ministro, marcado por manifestações contra a reforma judicial de seu governo, investigações de corrupção e críticas à condução da segurança nacional.
Antes dos ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023, Netanyahu já enfrentava protestos contra uma proposta de reforma que pretendia reduzir o poder de intervenção da Suprema Corte em decisões do Executivo.
A iniciativa provocou manifestações de integrantes da sociedade civil, reservistas e setores da oposição.
Posteriormente, a guerra em Gaza, os confrontos no Líbano e as tensões com o Irã passaram a influenciar a avaliação sobre sua liderança.
Em novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu mandados de prisão contra Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant por suspeitas de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Israel rejeita as acusações e contesta a jurisdição do tribunal.
Segundo Cássio Eduardo Zen, a deterioração da imagem internacional israelense tornou-se um dos elementos do desgaste político do primeiro-ministro.
"As acusações internacionais e os mandados de prisão solicitados pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) incomodam profundamente o eleitorado, que culpa o premiê pela deterioração da imagem global do país", avalia.
Outro fator de instabilidade envolve a dispensa do serviço militar concedida a integrantes de comunidades judaicas ultraortodoxas, defendida por partidos religiosos aliados de Netanyahu.
"Com as Forças Armadas sofrendo escassez de pessoal por conta de múltiplos conflitos, a recusa de setores religiosos em se alistar gerou uma ruptura quase intransponível com os aliados seculares", explica Zen.
Coalizões sem maioria
O sistema parlamentar israelense exige que o primeiro-ministro obtenha apoio suficiente para formar um governo.
Como as eleições não produziram maioria absoluta para nenhum dos blocos, a definição dependerá de acordos entre partidos com posições distintas.
Netanyahu conta com o Likud e aliados religiosos, como Shas e Judaísmo Unido da Torá, além de legendas ultranacionalistas, entre elas Otzma Yehudit e Sionismo Religioso.
Eisenkot, líder do Yashar, reúne parte da oposição, incluindo partidos de centro, direita secular e esquerda.
Entretanto, as diferenças ideológicas entre essas forças dificultam a negociação de um programa comum.
Para Zen, o principal obstáculo está nas condições que cada legenda estabelece para integrar uma coalizão.
"A dificuldade de construir uma coalizão está em 'linhas vermelhas' ideológicas", afirma.
O professor ressalta que Netanyahu depende de parceiros que defendem interesses religiosos específicos, enquanto a oposição enfrenta divergências sobre a participação de representantes árabes nas decisões do governo.
"Do lado da oposição, a única argamassa que une os partidos é o sentimento anti-Netanyahu", observa.
O presidente Isaac Herzog deverá consultar os partidos após a divulgação oficial dos resultados e designar um parlamentar para tentar constituir o próximo gabinete.
Questão palestina
A escolha dos aliados será determinante para a política israelense em Gaza e na Cisjordânia.
Os líderes ultranacionalistas Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich rejeitam a criação de um Estado palestino e defendem a ampliação dos assentamentos israelenses em territórios ocupados.
Caso Netanyahu permaneça no poder dependendo dessas legendas, a composição parlamentar poderá restringir as possibilidades de concessões nas negociações com representantes palestinos.
Uma eventual vitória de Eisenkot nas negociações também não eliminaria os obstáculos.
Ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, ele defende uma política de segurança rigorosa e o desmantelamento da capacidade militar do Hamas.
"Apesar de Eisenkot defender a restauração das relações diplomáticas internacionais, ele também mantém uma postura militar rígida (rejeita um Estado palestino e foca no desmantelamento bélico do Hamas), o que significa que grandes concessões territoriais aos palestinos são improváveis em ambos os cenários", analisa Zen.
Peso dos árabes
Os partidos árabes israelenses conseguiram ampliar sua representação parlamentar e passaram a deter uma quantidade de assentos que poderá influenciar a escolha do próximo primeiro-ministro.
As projeções apontavam aproximadamente 19 cadeiras para essas legendas, número suficiente para permitir que o campo contrário a Netanyahu superasse a maioria parlamentar, caso seus integrantes aceitassem uma aliança.
Entretanto, parte da oposição rejeita a participação dos partidos árabes na composição do governo.
Zen avalia que a alternativa exigiria uma mudança importante nas relações entre os partidos israelenses.
"Para que Gadi Eisenkot chegue a 61 assentos, há forte pressão para que quebre um tabu histórico e forme aliança (ou receba apoio indireto) dos partidos árabes-israelenses, que surpreenderam nas urnas e se encaminham para cerca de 18-19 cadeiras", explica.
Uma possibilidade seria a formação de um gabinete sustentado externamente por representantes árabes, sem a presença dessas legendas nos ministérios.
O modelo permitiria apoio parlamentar em votações específicas, mas não eliminaria as divergências entre as partes.
"No entanto, o abismo ideológico entre generais israelenses e líderes árabes sobre os direitos palestinos torna essa coalizão extremamente frágil", acrescenta o professor.
A dificuldade está nas posições distintas sobre o reconhecimento de um Estado palestino, a expansão dos assentamentos e a condução das operações militares nos territórios ocupados.
Relações com Washington
As negociações em Israel também ocorrem às vésperas das eleições legislativas dos Estados Unidos, marcadas para novembro.
A nova composição do Congresso americano poderá influenciar discussões sobre financiamento militar, fornecimento de armamentos e a política externa do presidente Donald Trump.
Netanyahu mantém proximidade com o presidente americano e considera o Irã uma das principais ameaças à segurança israelense.
Para Zen, a continuidade de um governo liderado pela direita poderá reforçar a cooperação militar entre os dois países.
"Netanyahu já declarou publicamente que vê na presidência de Donald Trump uma oportunidade estratégica para eliminar o que classifica como a ameaça existencial do Irã, indicando que um governo de direita em Israel buscaria alinhar-se à Casa Branca para endurecer ações militares e operações na região", afirma.
A relação entre os dois governos envolve assistência militar americana, sistemas de defesa, inteligência e operações de segurança no Oriente Médio.
Entretanto, uma eventual mudança no equilíbrio de forças do Congresso dos EUA poderá ampliar a pressão sobre decisões da Casa Branca.
Nesse cenário, parlamentares democratas poderiam aumentar a fiscalização sobre o uso de recursos federais e questionar novas iniciativas militares.
O impacto dependerá dos resultados eleitorais e das prerrogativas do Legislativo americano.
O professor considera que as indefinições políticas dos dois países dificultam a previsibilidade das ações regionais.
"Essas duas indefinições — a paralisia em Jerusalém e a disputa acirrada em Washington — impactam diretamente qualquer perspectiva de normalização com países árabes", avalia.
Diplomacia regional
Os governos árabes acompanham a formação da coalizão israelense diante de possíveis mudanças nas políticas de segurança e nas negociações diplomáticas.
Os Acordos de Abraham, estabelecidos a partir de 2020, permitiram a normalização das relações entre Israel e países como Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Marrocos.
A ampliação desses entendimentos, especialmente em relação à Arábia Saudita, depende de negociações que incluem a situação dos palestinos e garantias de segurança regional.
O próximo gabinete também poderá influenciar a atuação de Israel diante do Hezbollah, no Líbano, e as relações com Egito e Jordânia, países que já possuem tratados de paz com o governo israelense.
Os desdobramentos militares envolvendo o Irã têm consequências para as rotas comerciais do Mar Vermelho e do Estreito de Ormuz, utilizadas no transporte internacional de petróleo e mercadorias.
Zen destaca que a ausência de uma maioria governista prolonga a incerteza sobre decisões estratégicas.
"Até que haja clareza sobre quem deterá a caneta em Israel e qual será a força do Congresso americano, o Oriente Médio permanecerá em compasso de espera estratégico", afirma.
Negociação presidencial
A legislação israelense estabelece etapas para a formação do governo depois da eleição parlamentar.
O presidente Isaac Herzog deverá indicar um parlamentar para tentar formar uma coalizão, inicialmente com prazo de 28 dias, que poderá ser prorrogado por mais 14.
Caso a tentativa fracasse, outro candidato poderá receber a responsabilidade de negociar uma maioria.
O esgotamento das alternativas previstas na legislação pode resultar na dissolução do Knesset e na convocação de novas eleições.
Zen considera que a continuidade da indefinição política poderá levar Israel a uma nova disputa eleitoral.
"Se ninguém obtiver sucesso nas negociações conduzidas pelo presidente Isaac Herzog, o Knesset poderá ser dissolvido para novas eleições em até 90 dias, mantendo Netanyahu no poder de forma interina", explica.
Enquanto o processo estiver em andamento, Netanyahu poderá permanecer como primeiro-ministro interino, responsável pela administração do país até a formação de um novo gabinete.
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