Israel chega à segunda semana após as eleições parlamentares de 27 de outubro sem um acordo para formar governo.
Embora o Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, tenha conquistado o maior número de cadeiras, com 27 dos 120 assentos do Parlamento, seu bloco político ficou abaixo da maioria necessária para governar.
Nas consultas encerradas nesta quinta-feira (05), o presidente Isaac Herzog recebeu recomendações de 67 parlamentares favoráveis ao ex-chefe militar Gadi Eisenkot, contra 46 que apoiaram Netanyahu.
A diferença, contudo, não garante a formação de uma coalizão, pois partidos que recomendaram Eisenkot divergem sobre a participação de representantes árabes no próximo governo.
O impasse ocorre enquanto Israel enfrenta as consequências das operações militares em Gaza, do confronto com o Irã e das mudanças na relação com os Estados Unidos.
Netanyahu permanece no cargo interinamente, mas a composição da próxima administração poderá influenciar desde a expansão dos assentamentos na Cisjordânia até o financiamento de sistemas de defesa e a cooperação com Washington.
Herzog deverá anunciar no domingo (08) quem receberá a primeira oportunidade de organizar uma maioria parlamentar. O escolhido terá inicialmente 28 dias para concluir as negociações.
Parlamento fragmentado
A Comissão Central de Eleições de Israel confirmou em 4 de novembro a distribuição das cadeiras da 26ª legislatura.
Dos aproximadamente 7,33 milhões de eleitores registrados, 77,9% compareceram às urnas, a maior participação em décadas.
O bloco que sustentava Netanyahu conquistou 53 assentos, oito abaixo dos 61 necessários para uma maioria parlamentar.
A oposição formada por quatro partidos de liderança judaica obteve 48 cadeiras, enquanto duas legendas de maioria árabe conquistaram 19.
A distribuição partidária revela a dimensão da fragmentação:
- Likud, de Netanyahu — 27 cadeiras.
- Yashar, de Eisenkot — 21.
- BeYahad, de Naftali Bennett — 12.
- Lista Conjunta — 11.
- Democratas, de Yair Golan — 8.
- Ra'am, de Mansour Abbas — 8.
- Yisrael Beiteinu, de Avigdor Lieberman — 7.
- Otzma Yehudit, de Itamar Ben-Gvir — 7.
- Judaísmo Unido da Torá — 7.
- Shas — 6.
- Sionismo Religioso–Zehut, ligado a Bezalel Smotrich — 6.
Apesar de Netanyahu permanecer à frente da maior legenda, seu grupo perdeu a maioria que possuía antes da eleição.
A oposição, por sua vez, não conquistou cadeiras suficientes para governar sem acordos adicionais.
Recomendações divididas
O resultado das consultas presidenciais modificou a posição dos dois principais candidatos.
As recomendações favoráveis a Eisenkot chegaram a 67 deputados com a adesão da Lista Conjunta e do Ra'am, que representam conjuntamente 19 parlamentares.
Entretanto, o apoio ao nome do ex-militar não significa concordância sobre a composição de seu eventual gabinete.
O partido Judaísmo Unido da Torá, aliado histórico de Netanyahu, decidiu não recomendar nenhum candidato. Com sete cadeiras, sua posição reduziu o apoio formal ao premiê para 46 deputados.
Herzog reconheceu que os vetos recíprocos entre as legendas dificultam a formação de uma maioria, apesar da diferença numérica nas recomendações.
Coalizões possíveis
Eisenkot conta com 48 parlamentares em seu bloco original. Uma aliança que incluísse as duas legendas árabes alcançaria 67 cadeiras, seis acima da maioria exigida.
O problema é que integrantes da oposição, especialmente Avigdor Lieberman, rejeitam a formação de um governo dependente desses partidos.
Na terça-feira (03), Eisenkot, Bennett, Lieberman e Yair Golan iniciaram negociações para uma administração conjunta, mas não apresentaram um acordo sobre a participação árabe.
Outra possibilidade envolve as legendas ultraortodoxas. Se Eisenkot conseguisse incorporar o Judaísmo Unido da Torá e o Shas à aliança de 48 deputados, chegaria exatamente a 61 assentos.
Essa composição, porém, exigiria superar divergências sobre o serviço militar obrigatório.
Os partidos religiosos defendem isenções para estudantes de instituições tradicionais, enquanto integrantes da oposição querem ampliar o alistamento.
Netanyahu também busca preservar sua influência. O Likud defendeu a formação de um governo de unidade nacional, proposta rejeitada até agora pelo Yashar de Eisenkot.
Existe ainda a possibilidade de um governo minoritário sustentado por abstenções ou apoio externo de outras legendas, desde que obtenha os votos necessários para sua aprovação parlamentar.
Serviço militar
A convocação de homens ultraortodoxos tornou-se uma das principais dificuldades das negociações.
O Judaísmo Unido da Torá condiciona seu apoio a garantias legais para preservar isenções do serviço militar de estudantes de escolas religiosas, conhecidas como yeshivas.
Eisenkot, que comandou as Forças de Defesa de Israel entre 2015 e 2019, defende a ampliação do recrutamento.
O tema também é importante para Lieberman, que construiu parte de sua atuação política em oposição às dispensas concedidas a determinadas comunidades religiosas.
A divergência envolve não apenas princípios políticos, mas a distribuição das responsabilidades militares depois de anos de conflitos.
Em 2024, a Suprema Corte israelense determinou que o governo não poderia continuar concedendo determinadas isenções sem fundamento legal.
Desde então, a elaboração de novas regras tornou-se uma fonte recorrente de disputas entre partidos seculares e religiosos.
Palestinos e Gaza
Uma mudança de primeiro-ministro não significaria necessariamente uma alteração completa da política israelense em relação aos palestinos.
Antes das eleições, Netanyahu e Eisenkot rejeitam atualmente a criação de um Estado palestino independente e defendem que o Hamas seja desarmado antes de uma retirada militar israelense de Gaza.
Ambos também admitem a retomada de operações militares caso considerem que as condições de segurança não foram cumpridas.
Netanyahu governou com ministros como Ben-Gvir e Smotrich, que defendem medidas de expansão territorial e anexação de áreas da Cisjordânia.
Eisenkot, por outro lado, se opõe à construção de assentamentos não autorizados pela legislação israelense, à violência de colonos e ao projeto de expansão na região E1, próxima de Jerusalém Oriental.
Grande parte da comunidade internacional considera ilegais os assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada. Israel contesta aspectos dessa interpretação jurídica.
Eisenkot também propõe substituir a administração do Hamas em Gaza em um prazo de 18 meses, por meios diplomáticos ou militares. Ainda não existe um acordo sobre qual estrutura assumiria essa responsabilidade.
O partido Democratas, integrante da oposição, defende uma solução de dois Estados, posição que não é compartilhada por todos os seus possíveis parceiros de governo.
Confronto com Irã
O próximo governo também terá de definir sua participação nas decisões de segurança relacionadas ao Irã, após a guerra iniciada em fevereiro de 2026 com ataques americanos e israelenses.
A disputa política israelense inclui os custos de defesa, a avaliação das capacidades iranianas e as condições necessárias para eventuais negociações diplomáticas.
Netanyahu apresenta o enfrentamento ao Irã como uma prioridade de segurança nacional.
Eisenkot, embora seja adversário político do premiê, possui trajetória militar e também defende uma posição rígida em relação às ameaças iranianas.
O orçamento de Defesa israelense aprovado para 2026 prevê 143 bilhões de shekels (R$ 246,4 bilhões), enquanto o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri) estima que os gastos militares efetivos do país tenham alcançado 7,8% do PIB em 2025.
Relação com EUA
As negociações em Israel coincidem com mudanças relevantes em Washington.
Em 3 de novembro, Donald Trump anunciou a intenção de encerrar, a partir de 2027, a assistência militar americana anual a Israel, apesar de o acordo bilateral vigente prever repasses até setembro de 2028.
O memorando assinado em 2016 estabelece US$ 38 bilhões (aproximadamente R$ 209,7 bilhões) em dez anos, dos quais US$ 33 bilhões (R$ 182,1 bilhões) são destinados ao financiamento militar e US$ 5 bilhões (R$ 27,6 bilhões) aos programas de defesa antimísseis.
A suspensão antecipada ainda depende de definições políticas e orçamentárias nos Estados Unidos.
A decisão ocorre depois das eleições legislativas americanas, nas quais os democratas conquistaram o controle das duas Casas do Congresso.
Embora Trump mantenha atribuições próprias na política externa, a nova composição parlamentar poderá ampliar a fiscalização sobre as relações militares com Israel.
Integrantes da oposição israelense utilizaram o resultado americano para criticar a proximidade política de Netanyahu com os republicanos.
Eisenkot defende a reconstrução de relações com representantes dos dois principais partidos americanos.
Entretanto, um eventual governo liderado por ele continuaria dependendo de Washington para determinadas aquisições e tecnologias militares.
Dados do Sipri mostram que os Estados Unidos responderam por 68% das importações israelenses de grandes armamentos entre 2021 e 2025, enquanto a Alemanha forneceu outros 31%.
A dependência tecnológica envolve aeronaves, munições e sistemas de defesa, cujos contratos podem continuar em execução mesmo depois de mudanças no financiamento.
Governo interino
Enquanto os partidos negociam, Netanyahu continua exercendo o cargo de primeiro-ministro em caráter interino.
A ausência de uma nova coalizão não significa que Israel esteja sem governo ou que as instituições tenham interrompido suas atividades.
O Parlamento eleito tomará posse em 10 de novembro. Antes disso, Herzog deverá escolher o parlamentar que receberá a primeira oportunidade de formar uma administração.
O prazo inicial será de 28 dias, com possibilidade de extensão por mais 14. Se a tentativa não produzir um acordo, o presidente poderá consultar outros parlamentares e atribuir a tarefa a outro candidato, conforme as regras eleitorais israelenses.
Caso as etapas de negociação terminem sem uma coalizão viável, o país poderá realizar outra eleição em 2027.
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