A proibição das bets no Brasil não encerrou as investigações sobre as estruturas financeiras utilizadas por plataformas clandestinas.
Nesta quinta-feira (05), a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) deflagrou a Operação Azzardo para investigar um esquema suspeito de movimentar aproximadamente R$ 1 bilhão por meio de empresas de fachada, fintechs e transações com criptoativos.
A ação cumpre 50 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, São Paulo, Goiás, Paraná, Ceará e Rio Grande do Norte.
A Justiça também autorizou bloqueios de até R$ 3,483 bilhões, valor que representa o limite das medidas cautelares, não uma quantia já apreendida.
A investigação começou cinco meses antes, após alertas da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda sobre plataformas que operavam sem autorização federal.
O caso surge em meio à disputa jurídica e política provocada pela Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu as apostas de quota fixa no país.
Como mostrou O Brasilianista, o fechamento das plataformas autorizadas abriu questionamentos sobre a devolução de recursos aos apostadores, os contratos comerciais e a possibilidade de migração para operadores clandestinos.
Agora, os investigadores buscam esclarecer como empresas aparentemente desvinculadas dos jogos recebiam e redistribuíam o dinheiro dos usuários.
Empresas fictícias
Técnicos do Ministério da Fazenda realizaram simulações de apostas e identificaram que os pagamentos por Pix eram direcionados a empresas registradas em atividades sem relação com jogos.
Entre os estabelecimentos identificados estavam uma clínica de assistência psicossocial e uma loja de tarô, ambas com endereços em Sobradinho, no Distrito Federal.
As diligências encontraram empresas abertas entre fevereiro e julho de 2026, com capitais sociais semelhantes e endereços concentrados em Sobradinho, Sobradinho II e Ceilândia.
Em alguns locais, os investigadores encontraram imóveis vazios. Em um único lote de Ceilândia, dez empresas utilizavam o mesmo número de telefone.
A PCDF suspeita que essas estruturas funcionavam como intermediárias para receber pagamentos dos apostadores e dificultar a identificação dos verdadeiros responsáveis pelas plataformas.
Dinheiro rastreado
As informações financeiras examinadas pela polícia apontam movimentações de aproximadamente R$ 739 milhões em contas vinculadas à investigação.
Parte dos recursos teria sido transferida entre empresas e instituições de pagamento, incluindo operações de conversão em criptoativos.
O esquema também alcançou uma fintech sediada em São Paulo, autorizada pelo Banco Central a funcionar como sociedade de crédito direto.
As simulações realizadas pelo Ministério da Fazenda mostraram que pagamentos destinados aos sites investigados eram encaminhados a contas mantidas nessa instituição.
Em 30 de julho, o Banco Central havia divulgado a intenção de cancelar a autorização de funcionamento da fintech.
A empresa, outras duas sociedades do mesmo grupo e seus dirigentes estão entre os alvos da operação.
As restrições judiciais atingem os recursos próprios da instituição, preservando as contas de clientes não investigados.
A Justiça também determinou medidas sobre 64 pessoas físicas e 120 pessoas jurídicas, incluindo a suspensão dos registros de 100 empresas e empresários individuais.
Autorizações estaduais
Outra frente da investigação envolve três empresas que possuíam autorizações relacionadas às loterias estaduais da Paraíba e do Rio de Janeiro.
Segundo a PCDF, essas permissões eram restritas a determinados territórios, marcas e sites.
Nenhuma das plataformas examinadas estava abrangida pelas autorizações apresentadas.
As empresas passaram a ser investigadas por vínculos societários e movimentações financeiras consideradas suspeitas.
Uma delas apresentava sucessivas alterações de sócios e procuradores. Outra integrava um consórcio constituído pouco antes de receber autorização, enquanto a terceira apareceu nos relatórios como concentradora de recursos recolhidos de apostadores.
Proibição contestada
A operação ocorre enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) examina questionamentos à medida provisória que proibiu as bets.
Como destacou O Brasilianista, a audiência pública conduzida pelo ministro Luiz Fux reuniu representantes do governo, clubes de futebol e entidades empresariais.
O Executivo defendeu a restrição com argumentos relacionados ao endividamento, à dependência em jogos e aos riscos de utilização das apostas para lavagem de dinheiro.
Em sentido contrário, representantes do setor apontaram prejuízos para contratos de patrocínio, empregos e arrecadação.
O Flamengo estimou perdas anuais de R$ 430 milhões, enquanto o Fluminense apresentou uma projeção de R$ 200 milhões.
Dinheiro dos apostadores
A interrupção das operações autorizadas também levantou questionamentos sobre os recursos mantidos nas contas dos usuários.
O Brasilianista mostrou, que R$ 1,325 bilhão permanecia nas plataformas quando elas deixaram de funcionar, valor que deveria ser devolvido a aproximadamente 26,5 milhões de apostadores.
A reportagem também explicou que os diferentes números utilizados para dimensionar o setor não representam necessariamente a mesma coisa.
Em 2025, as plataformas autorizadas registraram aproximadamente R$ 37 bilhões em receita bruta de jogos, indicador conhecido como GGR, correspondente à diferença entre os valores recebidos pelas casas e os prêmios pagos.
Resistência política
A continuidade da proibição depende de disputas que ultrapassam o Judiciário.
O Brasilianista revelou, que empresários do setor trabalhavam com a expectativa de que a medida provisória perdesse validade sem aprovação do Congresso.
Segundo fontes ouvidas pelo veículo, a avaliação estava relacionada à interlocução de representantes das apostas com os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre.
Até 13 de outubro, prazo para apresentação de emendas, os parlamentares haviam protocolado 99 propostas de alteração ao texto.
O Congresso poderá aprovar, modificar ou rejeitar a medida. Caso ela não seja convertida em lei dentro do prazo constitucional, perderá eficácia, observadas as regras aplicáveis aos efeitos produzidos durante sua vigência.
Conexões financeiras
As relações entre plataformas de apostas, empresários e estruturas de investimento também apareceram em outras apurações.
O Brasilianista informou que mensagens apreendidas pela Polícia Federal revelaram negociações envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e empresários ligados ao mercado de bets.
Os registros incluíam conversas sobre participações societárias e operações comerciais.
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