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Economia

A história mal contada sobre o fim das bets e a renda das famílias

Plataformas autorizadas saíram do ar com R$ 1,325 bilhão ainda nas contas dos usuários, setor alerta para demissões, perda de arrecadação e migração para sites clandestinos

Apostas
Governo aposta na recuperação da renda das famílias e no combate ao vício Foto: reprodução

As plataformas de apostas autorizadas pelo governo federal deixaram de operar no Brasil em 6 de outubro.

A medida atingiu um mercado que, menos de dois anos antes, havia passado por um processo de regulamentação, cobrança de outorgas, tributação, identificação de usuários e imposição de regras de publicidade e prevenção à lavagem de dinheiro.

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No momento do fechamento, R$ 1,325 bilhão permanecia nas plataformas e precisava ser devolvido a cerca de 26,5 milhões de apostadores.

O valor está muito distante das cifras superiores a R$ 100 bilhões frequentemente associadas às bets. A diferença existe porque esses números medem fenômenos completamente distintos.

Para Leonardo Baptista, CEO e cofundador da Pay4Fun Payment Services, empresa especializada em pagamentos digitais e que atua no ecossistema de apostas, tratar todo o dinheiro anteriormente movimentado pelas plataformas como um recurso que automaticamente retornará à economia doméstica produz uma leitura incompleta.

“Não me parece correto afirmar que o encerramento das plataformas autorizadas fará com que todo o recurso antes destinado às apostas simplesmente permaneça na renda das famílias ou seja automaticamente direcionado para consumo, poupança ou pagamento de dívidas”, pondera Baptista.

R$ 141 bilhões

Parte da confusão começa na maneira como os números das apostas são apresentados.

O Banco Central estimou que o mercado movimentou aproximadamente R$ 130 bilhões em 2024.

Estudos posteriores passaram a trabalhar com cifras ainda maiores de movimentação ou impacto econômico.

Isso não significa que todo esse dinheiro tenha sido perdido diretamente pelos apostadores ou transformado em lucro das casas.

Em 2025, primeiro ano completo do mercado regulado, o GGR, Gross Gaming Revenue, das plataformas autorizadas foi de aproximadamente R$ 37 bilhões.

O indicador corresponde, em linhas gerais, à diferença entre o dinheiro recebido pelas casas e os prêmios pagos aos jogadores.

Já os R$ 1,325 bilhão divulgados após o fechamento representam apenas o dinheiro que continuava depositado nas carteiras dos apostadores quando as operações foram encerradas.

Não representam tudo o que os brasileiros apostavam em um ano, nem o faturamento anual das empresas.

“Uma parcela certamente poderá seguir esse caminho. Mas o comportamento e a demanda do consumidor não desaparecem por decreto”, afirma o executivo.

Nem todo o dinheiro

Os R$ 37 bilhões de GGR registrados em 2025 também não podem ser tratados como lucro líquido das empresas.

O mercado regulado tinha uma cadeia de despesas que incluía impostos, destinações previstas em lei, salários, publicidade, patrocínios esportivos, empresas de tecnologia, meios de pagamento, serviços bancários, sistemas de identificação de clientes, prevenção a fraudes, segurança cibernética, fornecedores de probabilidades, plataformas de jogos e escritórios especializados.

Isso significa que parte relevante do dinheiro retido pelo setor já retornava para outros segmentos da economia.

Não significa, entretanto, que todo o restante possa ser classificado simplesmente como lucro.

Não existe dado público consolidado que permita afirmar que as operadoras tiveram, juntas, R$ 9,5 bilhões de lucro líquido.

É justamente por isso que GGR, movimentação financeira e lucro não podem ser utilizados como sinônimos.

O dinheiro vai para o supermercado ou para uma bet ilegal?

A principal incógnita começa agora. Se alguém que gastava R$ 200 mensais em apostas deixar de apostar, esse dinheiro pode voltar para alimentação, lazer, dívidas, poupança ou qualquer outro item do orçamento familiar.

Mas existe outra possibilidade, continuar sendo apostado fora do mercado autorizado.

“Se o consumidor não encontra uma alternativa legal, regulada e fiscalizada, parte dele pode buscar exatamente aquilo que mais deveria preocupar o Estado: o mercado clandestino”, alerta Baptista.

O problema não nasceu com a proibição. Mesmo durante a regulamentação, o Estado não havia conseguido eliminar as plataformas clandestinas.

Depois da proibição, o desafio aumentou com a necessidade de retirar novos endereços do ar e impedir que apostadores migrem para sites hospedados fora do país.

“No mercado regulado existem identificação do apostador, mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro, controles financeiros, regras de publicidade, ferramentas de jogo responsável, tributação e supervisão das autoridades. No mercado clandestino, nada disso pode ser efetivamente garantido”, sustenta o CEO da Pay4Fun.

Proibição também corta uma cadeia de empregos

As primeiras demissões começaram antes mesmo de ser possível medir quanto dinheiro retornará ao consumo.

Baptista afirma que observar somente as casas de apostas reduz a dimensão da cadeia atingida.

“Criou-se nos últimos anos um ecossistema brasileiro envolvendo tecnologia, meios de pagamento, publicidade, mídia, clubes e entidades esportivas, eventos, empresas de compliance, segurança cibernética, prevenção a fraudes, escritórios jurídicos, atendimento ao consumidor e inúmeros outros fornecedores”, enumera o empresário.

Os impactos são diferentes de setor para setor, mas atingem atividades que passaram a depender direta ou indiretamente da expansão das plataformas.

“Quando se interrompe abruptamente esse mercado, não se desliga apenas um site de apostas. Interrompe-se uma cadeia econômica inteira”, observa Baptista.

O impacto existe

O argumento econômico encontra seu principal contraponto nos dados de saúde. O governo utilizou o avanço do transtorno do jogo, o endividamento e os impactos familiares como fundamentos para a proibição das plataformas.

Os atendimentos relacionados ao jogo patológico cresceram nos últimos anos, embora os registros formais do SUS permaneçam muito menores que as estimativas de brasileiros expostos a comportamentos problemáticos relacionados às apostas.

Esse contraste exige cuidado. O crescimento proporcional dos atendimentos é expressivo, mas não significa que todos os milhões de brasileiros que apostaram desenvolveram dependência.

A diferença entre uso recreativo, comportamento de risco e transtorno do jogo precisa permanecer clara na análise do impacto das bets.

A bet cabe no bolso

O caráter digital ajuda a diferenciar a atual crise das apostas de formas tradicionais de jogo.

Cassinos físicos exigem deslocamento. Apostas online podem ser feitas de qualquer lugar, a qualquer horário e repetidas em intervalos de segundos.

Notificações, bônus, apostas ao vivo e recompensas variáveis aumentam o tempo de exposição e podem estimular a repetição do comportamento.

Antes da proibição, o governo havia criado mecanismos de autoexclusão e ampliado o atendimento relacionado às apostas.

A existência dessas ferramentas é utilizada pelos dois lados do debate de formas diferentes.

Para o governo, demonstra a dimensão do problema. Para representantes do mercado, mostra que a regulação poderia ser endurecida sem eliminar completamente o setor.

“É legítimo aperfeiçoar a regulamentação. É necessário corrigir excessos e enfrentar problemas. Mas isso é muito diferente de desmontar abruptamente um mercado que o próprio país acabou de regulamentar”, argumenta Baptista.

Governo fechou o mercado legal

A nova política não termina quando o domínio de uma plataforma deixa de abrir. O governo precisa impedir transferências financeiras destinadas às apostas clandestinas, retirar publicidade irregular e bloquear novos endereços criados para substituir aqueles que saem do ar.

O objetivo é atacar justamente o cenário usado pelo setor como principal argumento contra a proibição, o apostador continuar jogando, mas em plataformas que o Estado não consegue fiscalizar.

“Não estamos necessariamente devolvendo dinheiro para as famílias. Podemos estar simplesmente transferindo recursos que antes circulavam dentro de um ambiente regulado brasileiro para operadores ilegais, muitas vezes estabelecidos fora do país”, ressalta Leonardo Baptista.

O dinheiro das bets não reaparece inteiro na economia

A ideia de que dezenas ou centenas de bilhões de reais simplesmente serão liberados para o consumo também esbarra na maneira como esses números foram calculados.

Os valores superiores a R$ 100 bilhões utilizados no debate público podem representar movimentação financeira ou estimativas de impacto indireto sobre outras atividades econômicas.

Os R$ 37 bilhões de GGR medem outra coisa. E o R$ 1,325 bilhão que restava para devolução no momento do fechamento mede uma terceira variável. Não existe, portanto, uma única “conta das bets”.

“Em parte, sim, alguns consumidores vão deixar de apostar e redirecionar esses recursos. Mas seria uma simplificação imaginar que isso acontecerá com todo o dinheiro anteriormente destinado às apostas”, avalia o CEO.

A próxima disputa será pelo apostador

Os primeiros dias ainda não permitem responder quem vencerá essa disputa. De um lado, o governo retirou do ar as plataformas que tinham autorização e passou a intensificar o bloqueio de endereços clandestinos.

Do outro, o mercado ilegal já representava uma parcela relevante das apostas antes do veto e possui capacidade de abrir novos domínios, mudar meios de pagamento e operar a partir do exterior.

A diferença entre os dois ambientes é decisiva para uma política pública apresentada como forma de proteger famílias.

“Precisamos aperfeiçoar regras, aumentar a fiscalização, fortalecer o jogo responsável, combater publicidade irregular, proteger grupos vulneráveis e, principalmente, ser absolutamente duros com o mercado ilegal”, defende Baptista.

Nos próximos meses, três indicadores serão fundamentais, a evolução do consumo das famílias, a procura por tratamento para transtorno do jogo e o volume movimentado pelas plataformas ilegais.

Se o dinheiro deixar as apostas e retornar ao comércio, às dívidas ou à poupança, uma das principais justificativas econômicas da proibição ganhará força.

Se uma parcela relevante simplesmente trocar o mercado autorizado por plataformas clandestinas hospedadas fora do país, o país terá eliminado impostos e mecanismos de fiscalização sem eliminar a aposta.

“Regular é estabelecer limites. Fiscalizar é proteger. Combater o ilegal é proteger. Proibir, por si só, não é proteger”, conclui Leonardo Baptista.

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