A maior corretora de criptomoedas do mundo, Binance, sofreu na quinta-feira (29) um ataque cibernético roubou aproximadamente US$ 6,3 bilhões em ativos digitais.
A invasão superou o roubo de US$ 1,5 bilhão registrado pela concorrente Bybit em fevereiro de 2025. A Binance informou que aproximadamente US$ 3 bilhões dos ativos afetados já haviam sido congelados, prometeu cobrir as perdas com recursos próprios e suspendeu temporariamente os saques.
No Brasil, a restrição também atingiu clientes da operação local. O episódio expõe um problema que ultrapassa a capacidade de proteção da tecnologia blockchain.
Embora as transações registradas nas redes de criptomoedas utilizem mecanismos criptográficos, sua movimentação depende de sistemas, dispositivos, funcionários e procedimentos de autorização que podem ser comprometidos.
Para Armando Augusto Piva, especialista em cybersecurity, coordenador e docente do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas da FAPI – Centro Universitário de Pinhais, e Fabio Roma, especialista em inteligência artificial e CEO da Impossibl, os ataques revelam riscos associados à concentração de ativos sob controle de uma única empresa.
Bilhões em minutos
O ataque à Binance ocorreu em 29 de outubro e atingiu carteiras digitais utilizadas pela corretora para realizar movimentações de criptomoedas.
Segundo a investigação da empresa, a primeira hipótese identificada envolvia o comprometimento do computador de um engenheiro responsável por operações de desenvolvimento e infraestrutura tecnológica.
O acesso ao dispositivo teria permitido aos invasores alcançar sistemas internos e realizar transferências não autorizadas.
Posteriormente, a Binance informou ter identificado outros pontos de comprometimento, indicando que a invasão era mais complexa do que a hipótese apresentada inicialmente.
A corretora afirmou não ter encontrado evidências de vazamento das chaves privadas das carteiras.
Isso significa que os criminosos podem ter explorado os sistemas que autorizam movimentações, em vez de obter diretamente os códigos criptográficos utilizados para controlar os ativos.
Armando Augusto Piva explica que a segurança de uma corretora depende de diferentes componentes que funcionam de maneira integrada.
"Esse tipo de ataque mostra que a segurança de uma corretora não depende apenas da proteção das criptomoedas, mas também dos sistemas e processos utilizados para movimentá-las. Uma corretora pode ter mecanismos avançados de proteção e, ainda assim, apresentar vulnerabilidades em seus sistemas internos", afirma.
A empresa informou que separou mais de US$ 6,34 bilhões em recursos próprios para cobrir as perdas.
Também anunciou uma revisão dos sistemas de segurança e a publicação de uma atualização das informações sobre suas reservas.
Até esta sexta-feira (30), os saques permaneciam suspensos. A Binance declarou que os saldos dos usuários estavam protegidos, mas as investigações sobre a extensão da invasão ainda não haviam sido concluídas.
Ataques anteriores
O episódio não representa a primeira violação de segurança envolvendo a Binance ou serviços associados à empresa.
Em maio de 2019, hackers retiraram 7 mil bitcoins de uma carteira utilizada pela corretora para movimentações conectadas à internet. Na época, os ativos estavam avaliados em aproximadamente US$ 40 milhões.
A Binance informou que os criminosos haviam obtido informações de contas e mecanismos de autenticação por meio de diferentes técnicas, incluindo programas maliciosos e tentativas de obtenção de credenciais.
Em outubro de 2022, outra invasão atingiu a BNB Chain, rede blockchain ligada ao ecossistema da Binance.
Os criminosos exploraram uma falha em um mecanismo de transferência de ativos entre diferentes redes, conhecido como ponte blockchain.
O ataque envolveu a criação indevida de aproximadamente US$ 570 milhões em tokens.
Entretanto, parte expressiva dos ativos foi bloqueada após a suspensão temporária da rede, enquanto os invasores conseguiram transferir cerca de US$ 100 milhões a US$ 130 milhões para outras blockchains.
O caso de 2019 atingiu diretamente uma carteira da corretora. Já o de 2022 envolveu uma vulnerabilidade na infraestrutura de uma rede associada à Binance.
Os sistemas de autorização teriam permitido transferências bilionárias sem que fosse necessário obter diretamente as chaves privadas.
Para Piva, esse cenário exige que a proteção alcance os mecanismos administrativos e operacionais das empresas.
"Se criminosos conseguem comprometer contas de funcionários, sistemas de autorização ou processos de transferência, podem tentar realizar operações indevidas. E existe um detalhe importante: nem sempre é necessário roubar diretamente uma chave privada", explica.
Bybit e custódia
O ataque à Binance aconteceu menos de dois anos depois de uma invasão que atingiu a Bybit, em fevereiro de 2025.
Na ocasião, aproximadamente US$ 1,5 bilhão em criptomoedas foi desviado após criminosos comprometerem componentes associados à plataforma Safe, utilizada para administrar autorizações de transferências.
O ataque explorou uma vulnerabilidade no ambiente de assinatura das operações. Os responsáveis conseguiram apresentar uma transação manipulada aos autorizadores, permitindo a movimentação indevida dos recursos.
O Federal Bureau of Investigation (FBI), órgão federal de investigação dos Estados Unidos, atribuiu o roubo a operadores ligados à Coreia do Norte, identificados pela denominação TraderTraitor.
No caso da Binance, empresas de inteligência blockchain também apontaram semelhanças com ataques atribuídos a grupos norte-coreanos. A possível autoria, entretanto, permanecia sob investigação nesta sexta-feira.
As duas invasões revelam riscos associados a serviços de custódia, nos quais uma instituição administra as chaves ou os mecanismos de movimentação dos ativos pertencentes aos clientes.
"Esses episódios evidenciam um risco importante do modelo de custódia centralizada. Quando uma pessoa mantém suas criptomoedas em uma corretora, ela normalmente transfere para essa empresa a responsabilidade de proteger as chaves e administrar os ativos", explica Piva.
Para Fabio Roma, o problema também está relacionado à concentração de recursos e de responsabilidades em poucas instituições.
"Sim, por definição, a centralização em uma corretora como a Binance e a Bybit traz riscos de segurança inerentes por existir apenas um alvo ou um único ponto de falha em todo o sistema", afirma.
Dependências vulneráveis
Além do controle das carteiras digitais, especialistas apontam que componentes externos utilizados pelas plataformas podem abrir caminhos para ataques.
O desenvolvimento de sistemas financeiros envolve bibliotecas de programação, serviços em nuvem, ferramentas de autenticação, aplicativos e outras tecnologias fornecidas por diferentes empresas.
Quando um desses componentes é comprometido, os sistemas que dependem dele podem ficar expostos.
Esse tipo de incidente é conhecido como ataque à cadeia de suprimentos, ou supply chain. Roma relaciona esse risco à complexidade das infraestruturas atuais.
"Infelizmente os sistemas internos de todas as empresas são construídos, na maior parte das vezes, com dependências externas que estão vulneráveis a ataques de supply chain E podem expor os sistemas que são construídos em cima deles", afirma.
O especialista utiliza uma comparação para explicar como uma falha localizada pode comprometer uma estrutura mais ampla.
"É como se você construísse uma casa e um dos tijolos tivesse quebrado e permitisse a entrada de invasores", diz.
No ataque à Bybit, as investigações identificaram o comprometimento de credenciais associadas a um desenvolvedor de um serviço de terceiros.
Na Binance, a suspeita inicial recaiu sobre um computador utilizado por um funcionário da área de infraestrutura.
Reservas sob dúvida
A capacidade das corretoras de comprovar que possuem os ativos necessários para honrar os saldos de seus clientes representa outra questão de segurança financeira.
Algumas plataformas divulgam relatórios conhecidos como provas de reservas, que procuram demonstrar a existência de criptomoedas em carteiras controladas pela empresa.
Essas informações podem ser verificadas parcialmente em registros públicos das blockchains.
Entretanto, conhecer os ativos existentes não significa necessariamente conhecer todas as dívidas ou obrigações da instituição.
Piva defende a realização de auditorias independentes e a apresentação de informações que permitam comparar os recursos disponíveis com os valores devidos aos usuários.
"Um conceito importante é a prova de reservas, que busca demonstrar que a corretora possui determinados ativos digitais. Mas essa comprovação, sozinha, não é suficiente. Também é necessário conhecer as obrigações da empresa com seus clientes, verificar possíveis dívidas e confirmar se ela realmente controla as carteiras declaradas", explica.
Uma corretora pode apresentar recursos em determinadas carteiras e, ainda assim, possuir passivos que não estejam demonstrados na mesma publicação.
O problema também envolve a possibilidade de ativos terem sido emprestados, oferecidos como garantia ou transferidos temporariamente antes de uma verificação.
Roma considera que a transparência tecnológica pode ampliar a capacidade de fiscalização das plataformas.
"A auditoria externa e código aberto em algumas partes do software é um jeito bom de trazer transparência e segurança para os usuários", afirma.
No caso da Binance, o episódio trouxe um questionamento adicional. Uma análise publicada pelo CoinDesk identificou que carteiras atingidas pelo ataque constavam anteriormente entre os endereços associados às reservas de clientes.
A empresa, por sua vez, afirmou que os recursos dos usuários permaneciam seguros e prometeu divulgar uma nova comprovação de reservas após a revisão dos sistemas.
Saques bloqueados
Para os investidores, uma das consequências mais imediatas da invasão não foi necessariamente a perda de bitcoins, mas a impossibilidade temporária de movimentar seus próprios recursos.
A Binance suspendeu retiradas enquanto realizava verificações de segurança. No Brasil, a empresa responsável pela operação local comunicou que os saques de ativos virtuais também estavam interrompidos preventivamente.
A BBrasil SPSAV afirmou que mantém os ativos dos clientes separados dos recursos da instituição e utiliza carteiras frias, conhecidas como cold wallets, que permanecem desconectadas da internet.
A empresa também declarou que os demais serviços continuavam funcionando normalmente e que os saques seriam restabelecidos após a conclusão das verificações.
A suspensão demonstra uma diferença entre possuir um saldo registrado na plataforma e conseguir movimentar os ativos imediatamente.
Quando as criptomoedas permanecem sob custódia de uma corretora, o investidor depende da infraestrutura tecnológica e das decisões operacionais da instituição para solicitar retiradas.
"Os principais riscos incluem ataques cibernéticos, bloqueio de saques, interrupção dos serviços e até dificuldades financeiras da própria corretora", afirma Piva.
O especialista ressalta que esses riscos não tornam todas as plataformas inadequadas, mas exigem que os usuários compreendam as condições de custódia antes de manter seus recursos nelas.
Carteira própria
Uma alternativa à custódia centralizada é utilizar uma carteira própria, na qual o investidor controla diretamente as chaves privadas que autorizam as transações.
Nesse modelo, os ativos continuam registrados na blockchain, mas a capacidade de movimentá-los deixa de depender dos sistemas de uma corretora.
Para Roma, a autonomia reduz a exposição a incidentes envolvendo grandes plataformas.
"Not your keys, not your money", afirma, utilizando a expressão difundida no mercado de criptomoedas para explicar a importância do controle das chaves privadas.
Entretanto, a custódia própria também apresenta riscos.
Se o usuário perder a frase de recuperação, compartilhar suas chaves com criminosos ou utilizar um dispositivo comprometido, poderá perder o acesso aos ativos sem possibilidade de recuperação.
Piva explica que a decisão envolve uma troca entre conveniência e responsabilidade individual.
"Na corretora, o investidor tem mais facilidade para comprar, vender e movimentar suas criptomoedas. Porém, depende da segurança e da capacidade financeira da empresa. Já na carteira própria, o investidor assume o controle das chaves que permitem movimentar seus ativos, reduzindo a dependência de terceiros", afirma.
Além das carteiras conectadas à internet, existem dispositivos físicos destinados a manter as chaves privadas isoladas de ambientes online.
Esses equipamentos reduzem determinadas formas de exposição, mas não eliminam os riscos de fraude, perda de informações ou autorização de transações maliciosas.
O especialista recomenda autenticação em duas etapas, proteção dos dispositivos e atenção a mensagens que solicitem senhas ou frases de recuperação.
Proteção insuficiente
A Binance anunciou que utilizará fundos próprios e sua reserva de proteção aos usuários para absorver os prejuízos.
Segundo informações divulgadas nesta sexta-feira, a empresa separou mais de US$ 6,34 bilhões para essa finalidade.
A capacidade de uma instituição de ressarcir perdas, entretanto, não substitui os mecanismos destinados a impedir que novas invasões ocorram.
Piva defende autenticação reforçada, controles de acesso, autorização de transferências por múltiplos responsáveis e monitoramento de operações suspeitas.
Roma acrescenta que os sistemas de defesa precisam acompanhar a evolução das ferramentas utilizadas pelos criminosos, incluindo tecnologias de inteligência artificial capazes de automatizar tentativas de fraude e exploração de vulnerabilidades.
O especialista também questiona a desigualdade no acesso a ferramentas de segurança entre atacantes e equipes responsáveis pela proteção das plataformas.
"O acesso a sistemas e modelos poderosos para todas as pessoas é um componente muito importante da segurança porque os atacantes hoje já possuem acesso a sistemas sofisticados. O mesmo não é verdade para os times que se defendem desses ataques", afirma.
A investigação sobre a Binance ainda deverá esclarecer quais mecanismos foram comprometidos, como os invasores conseguiram autorizar transações e se os controles existentes poderiam ter impedido a movimentação dos recursos.
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