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Entrevistas

Brasil registra 1,5 milhão de tentativas de golpes por mensagens falsas ao dia

Pesquisador da Kaspersky alerta para golpes com inteligência artificial, ataques pelo WhatsApp e falhas de proteção em empresas brasileiras

fraudes
Levantamento aponta 553 milhões de detecções de mensagens fraudulentas em um ano (Foto: Jefferson Santos/Unsplash)

O Brasil registrou 553 milhões de detecções de phishing entre agosto de 2024 e julho de 2025, o equivalente a mais de 1,5 milhão por dia.

Segundo levantamento da Kaspersky, o número representa um crescimento de 80% em relação ao período anterior e corresponde a 43% das detecções desse tipo de ameaça na América Latina.

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O avanço ocorre enquanto criminosos utilizam ferramentas de inteligência artificial para produzir fraudes mais sofisticadas, explorar vulnerabilidades empresariais e distribuir programas maliciosos por aplicativos como o WhatsApp.

A vulnerabilidade também aparece dentro das organizações. Uma pesquisa da empresa de cibersegurança aponta que, embora 82% dos líderes brasileiros afirmem possuir estratégias preventivas, 34% das empresas pesquisadas operam sem firewall e 30% não utilizam antivírus.

Ao mesmo tempo, sistemas de inteligência artificial permitem criar vídeos e áudios falsos capazes de enganar funcionários e até comprometer processos de verificação de identidade utilizados por instituições financeiras.

Em entrevista a O Brasilianista, Fabio Marenghi, pesquisador líder de segurança da Kaspersky, analisa as principais ameaças digitais enfrentadas pelo país, identifica os setores mais vulneráveis e apresenta medidas que empresas podem adotar para reduzir os riscos. Para o especialista, a próxima grande onda de ciberataques já começou.

Entrevista

Quando falamos em uma próxima grande onda de ciberataques, que tipo de ameaça devemos imaginar? Ransomware, roubo de dados, ataques a sistemas financeiros, infraestrutura crítica ou uma combinação deles?

Fabio Marenghi - Mais do que tentar prever o futuro, a próxima grande onda já está acontecendo agora. Ela é marcada pela combinação de ameaças financeiras impulsionadas por um nível inédito de sofisticação, com o uso da inteligência artificial.

Já estamos lidando com uma nova geração de malware autônomo, desenhado com IA para analisar o ambiente invadido e modificar seu comportamento em tempo real para escapar das defesas.

Paralelamente, presenciamos uma explosão de engenharia social avançada. Deepfakes extremamente realistas de vídeo e áudio são usados não apenas para enganar funcionários em fraudes corporativas, mas também para burlar sistemas de verificação de identidade (KYC) dos bancos.

A tática de distribuição também mudou de forma agressiva no dia a dia. Os criminosos estão reescrevendo o trojan bancário clássico para espalhá-lo em massa via WhatsApp, visando atingir os sistemas Windows das empresas.

Além disso, estão focando no roubo de informações regionais sob medida, que são vendidas no modelo de fraude como serviço, e em novas técnicas para interceptar a tecnologia de pagamentos por aproximação (NFC), ou até mesmo comercializar dispositivos que já chegam pré-infectados de fábrica.

O Brasil está preparado para enfrentar uma nova grande onda de ciberataques? Quais são hoje as principais fragilidades do país?

Fabio Marenghi - O Brasil já vive uma grande onda de ciberataques. No último Panorama de Ameaças que divulgamos, apontamos 553 milhões de detecções de phishing no país em apenas 12 meses, de agosto de 2024 a julho de 2025.

É um crescimento de 80%, que faz do Brasil o alvo de 43% de todos os ataques de mensagens falsas da América Latina. São mais de 1,5 milhão de golpes por dia, ou 2.600 por minuto.

Apesar de o nosso setor financeiro ser um dos mais avançados do mundo, a nossa principal fragilidade hoje é a desinformação. A tecnologia alcançou um nível em que mesmo as pessoas com bastante conhecimento se confundem e caem em golpes.

Hoje em dia, somos atolados por uma quantidade imensa de informações e estamos sempre com pressa, nem sempre dando a devida atenção a cada atividade.

Os cibercriminosos vão para onde as pessoas mais usam, como o WhatsApp, que virou uma das principais portas de entrada para a distribuição de trojans bancários.

Também observamos a profissionalização dos grupos locais, que exportam o crime digital brasileiro para o mundo.

Com o crime físico migrando para a internet, por ser muito mais seguro e lucrativo roubar remotamente do que explodir um caixa eletrônico, fica claro que a preparação do país não depende apenas de tecnologia de ponta nos servidores, mas da capacidade de treinar cidadãos e funcionários para desconfiarem criticamente de tudo o que chega à palma da mão.

Quais setores da economia brasileira seriam mais vulneráveis a um ataque de grande escala? Por quê?

Fabio Marenghi - De acordo com o relatório global Anatomia do Mundo Cibernético, da Kaspersky Security Services, os setores mais vulneráveis atualmente são o governamental, com 19% dos incidentes graves, a indústria, com 17%, e o setor de Tecnologia da Informação, com 15%, que deslocou as instituições financeiras do topo da lista.

O governo e o setor de TI são altamente visados por grupos de espionagem e Ameaças Persistentes Avançadas (APTs), que buscam se infiltrar silenciosamente nas cadeias de fornecimento, aproveitando-se também de campanhas de engenharia social focadas nos funcionários.

Já a indústria enfrenta um cenário híbrido, atraindo uma gama variada de golpistas que utilizam desde programas maliciosos até invasões complexas para paralisar operações vitais.

O principal motivo para essa inversão no ranking é a postura preventiva. Enquanto os setores de TI e governo ainda são reativos, o mercado financeiro adotou uma defesa madura baseada em regulamentações rigorosas, investindo pesadamente em simulações contínuas de ataque para fechar as brechas de segurança antes que os criminosos consigam explorá-las.

As empresas brasileiras estão preparadas ou ainda precisam avançar em investimentos em cibersegurança para reduzir esses riscos?

Fabio Marenghi - As empresas precisam amadurecer seus investimentos com urgência, pois o que vemos hoje é uma perigosa proatividade de fachada.

Nosso levantamento revelou que, embora 82% dos líderes brasileiros afirmem ter uma estratégia de proteção preventiva, essa percepção esbarra na falta de estrutura básica. Cerca de 34% dessas empresas operam sem firewall e 30% sequer utilizam antivírus.

Além dos gargalos técnicos, há uma profunda confusão conceitual nas diretorias. Muitos gestores acreditam que o antivírus, que apenas reage a algo já conhecido, é uma ferramenta proativa, enquanto classificam tecnologias de inteligência avançada, como o EDR e o XDR, como sistemas reativos.

O perigo desse cenário é que as organizações operam sob uma falsa sensação de segurança, priorizando mal seus investimentos e focando em remediar ataques depois que o estrago já está feito, em vez de investir para antecipá-los.

Como a inteligência artificial está mudando a capacidade dos criminosos de realizar ataques em grande escala?

Fabio Marenghi - A inteligência artificial transformou profundamente a atuação dos criminosos ao viabilizar golpes massivos com um nível de personalização e eficiência sem precedentes.

Esse cenário está refletido no relatório CISO Survey, da Kaspersky, no qual 88% das organizações observaram um aumento expressivo no volume de ataques recentes e 84% constataram que essas ameaças se tornaram muito mais complexas.

Em vez de recorrerem a abordagens rudimentares, os fraudadores agora utilizam a IA para desenhar iscas altamente persuasivas e camuflar suas ações.

Eles combinam o uso de ferramentas legítimas dos próprios sistemas invadidos com a exploração de vulnerabilidades, reservando o uso de programas maliciosos apenas para o estágio final da invasão, evitando os alarmes da defesa.

Essa capacidade de adaptação contínua e a investida em múltiplos vetores simultâneos justificam o fato de os ataques impulsionados por inteligência artificial estarem no topo das maiores apreensões dos líderes de segurança digital, preocupando 62% dos executivos do setor.

Quais medidas deveriam estar implementadas hoje por qualquer empresa que queira estar minimamente preparada para um ataque de grande escala?

Fabio Marenghi - Estar preparado contra invasões de grande porte exige que a empresa saia de uma postura manual e reativa, consolidando uma estratégia baseada em visibilidade antecipada, detecção comportamental e resposta automatizada.

Primeiramente, as organizações precisam integrar serviços confiáveis de inteligência de ameaças para mapear táticas e campanhas maliciosas antes mesmo que elas atinjam a rede.

Em segundo lugar, para identificar ameaças furtivas que já operam dentro do ambiente corporativo, é indispensável a adoção de plataformas avançadas como EDR e XDR, que realizam a correlação de dados e a análise de comportamento em tempo real.

Por fim, as companhias devem substituir os processos manuais e fragmentados, que hoje são os maiores gargalos para conter um incidente, por fluxos de resposta automatizados e ferramentas integradas.

É preciso garantir que tecnologia de ponta, processos bem definidos e profissionais capacitados trabalhem juntos para interromper qualquer ataque nas suas fases iniciais.

O que uma empresa deve fazer caso seja alvo de uma grande onda de ciberataques?

Fabio Marenghi - A primeira coisa é mudar a mentalidade. Não se trata de se a sua empresa será alvo de um ataque, mas de quando isso vai acontecer, pois hoje todas as empresas podem ser um alvo dos cibercriminosos, desde as grandes empresas até as pequenas e médias.

No momento em que a empresa é alvo de um ataque massivo, a prioridade número um é a agilidade na contenção, já que a dependência de processos lentos e manuais é hoje o maior obstáculo para as equipes de defesa.

A primeira medida é tratar com extrema seriedade qualquer sinal nas etapas iniciais da invasão, como uma simples onda de phishing ou engenharia social, isolando imediatamente os sistemas afetados da rede principal para interromper a progressão do criminoso.

Com o ambiente contido, a organização deve focar na análise da causa raiz do incidente e na coordenação rápida da resposta entre os times internos e parceiros de tecnologia especializados.

Acionar um serviço profissional de resposta a incidentes garante que a empresa consiga compreender a dimensão da ameaça, mitigar o problema de forma estruturada e restaurar a operação sem deixar vulnerabilidades ativas na rede.

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