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Economia

Quem fica com os seguros brasileiros?

Venda das operações da Prudential no Brasil e no México por US$ 4,03 bilhões amplia a presença da francesa CNP Assurances, já associada à Caixa Econômica Federal

Seguradora
Negócio expõe estratégias opostas de grupos internacionais diante do potencial do mercado segurador (Foto: creative commons)

A seguradora francesa CNP Assurances, que já ocupa a terceira posição no mercado brasileiro de seguros e mantém uma parceria histórica com a Caixa Econômica Federal, prepara uma expansão bilionária no país.

O grupo firmou um acordo para adquirir as operações da americana Prudential Financial no Brasil e no México por US$ 4,03 bilhões, aproximadamente R$ 20,4 bilhões.

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Com a transação, a companhia francesa deverá incorporar uma carteira de 6,9 milhões de segurados brasileiros e uma rede de 2.500 profissionais franqueados especializados na distribuição de seguros de vida.

O negócio, anunciado em 20 de outubro, revela estratégias distintas de duas multinacionais diante do mesmo mercado.

Enquanto a Prudential reduz sua presença em países emergentes para concentrar investimentos nos Estados Unidos, no Japão e em determinados mercados europeus, a CNP amplia sua participação na América Latina.

A operação ocorre em um setor que arrecadou R$ 764,5 bilhões em 2025, segundo a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), e que ainda apresenta oportunidades de expansão relacionadas à proteção financeira e ao envelhecimento da população.

Disputa pelo Brasil

A aquisição permitirá à CNP incorporar uma companhia com atuação consolidada no segmento de seguros de pessoas.

Em 2025, a operação brasileira da Prudential registrou receita de € 1,3 bilhão, segundo informações divulgadas pela compradora.

A seguradora francesa já possui uma posição relevante no país por meio de sua associação com a Caixa Econômica Federal.

A parceria assegura acesso à estrutura de distribuição bancária, enquanto a aquisição da Prudential acrescentará canais especializados de comercialização e relacionamentos próprios com clientes.

Em comunicado oficial, a CNP informou que espera se tornar uma das cinco maiores seguradoras da América Latina após a conclusão da transação.

A projeção considera suas operações existentes e os negócios que serão incorporados no Brasil e no México.

Para Gabriel Schulman, mestre em Direito, advogado e docente da graduação e do mestrado em Direito da Universidade Positivo (UP), o interesse de empresas estrangeiras pelo setor brasileiro envolve características estruturais da economia nacional.

"O mercado brasileiro tem enorme potencial de desenvolvimento. Inúmeros fatores, inclusive as dimensões e enorme população, reforçam as oportunidades do país, assim como o mercado financeiro desenvolvido e a existência de certos players consolidados com canais de distribuição bastante interessantes", afirma.

O especialista também identifica mudanças demográficas capazes de influenciar a demanda por produtos de proteção financeira.

"Até mesmo o envelhecimento populacional contribui para que haja oportunidades nesse mercado", acrescenta.

O que os dados mostram?

Dados divulgados pela CNseg mostram que a arrecadação do setor cresceu mais de 52% entre 2020 e 2025, passando de R$ 501,3 bilhões para R$ 764,5 bilhões.

No mesmo período, os pagamentos de indenizações, benefícios, resgates e sorteios avançaram 70%, chegando a R$ 548,4 bilhões.

Retirada americana

A venda das operações brasileiras e mexicanas faz parte de uma reorganização mais ampla da Prudential Financial.

A companhia já realizou desinvestimentos na Indonésia, África do Sul e Quênia. 

Em agosto, o presidente-executivo da seguradora, Andy Sullivan, havia anunciado a intenção de reduzir aproximadamente pela metade o número de países em que a companhia mantém operações de seguros e aposentadoria.

Os recursos obtidos com a venda serão destinados a negócios considerados prioritários pela administração, incluindo gestão de ativos, previdência e determinados segmentos de proteção financeira.

Schulman explica que decisões de aquisição e desinvestimento podem responder a fatores diferentes, inclusive dentro de um mesmo setor.

"Novas aquisições podem ser estimuladas pelo potencial de crescimento do mercado, pela possibilidade de diversificação de receitas, pelo acesso a carteiras de clientes e pela busca de sinergias operacionais", analisa.

No sentido contrário, a necessidade de reorganização financeira também pode levar multinacionais a abandonar determinados mercados.

"Instabilidade macroeconômica, custo de capital elevado, exigências regulatórias, dificuldades de rentabilidade e mudanças nas prioridades globais podem incentivar desinvestimentos", pondera o advogado.

A Prudential administrava aproximadamente US$ 1,6 trilhão em ativos em 30 de junho de 2026.

A dimensão global da companhia indica que a alienação de suas subsidiárias latino-americanas integra uma estratégia de alocação de capital, e não uma saída completa do mercado internacional de seguros.

Concorrência internacional

A ampliação da presença francesa ocorre em um setor marcado pela atuação simultânea de seguradoras nacionais e multinacionais.

Entre os principais grupos com negócios no país estão companhias de diferentes origens, que competem por canais de distribuição, clientes e segmentos específicos de proteção.

"O mercado brasileiro de seguros envolve muitas empresas atuantes há muitos anos e outras novas, dentro de uma dinâmica bastante grande de movimentações no mercado, que são naturais", observa Schulman.

Para Schulman, a expansão internacional também atende a uma característica particular da atividade seguradora.

"A presença de empresas internacionais também revela uma característica comum do mercado segurador, que é a necessidade de pulverização do risco, da diluição de riscos, inclusive, com atuação em diversos mercados internacionais", esclarece.

A estrutura anunciada prevê que a CNP Seguradora adquira a Prudential do Brasil, enquanto a CNP Assurances Holding ficará responsável pela operação mexicana. A compradora estima uma taxa interna de retorno de 15% para o investimento.

Aprovação pendente

A transação ainda depende das autorizações regulatórias necessárias e deverá ser concluída no segundo semestre de 2027.

O acordo prevê a aquisição de 100% do capital das duas subsidiárias, mediante pagamento em dinheiro, sujeito a ajustes no fechamento.

A CNP também informou que a operação deverá reduzir em aproximadamente 20 pontos percentuais seu índice de cobertura dos requisitos de solvência.

Em junho de 2026, esse indicador estava em 247%, conforme dados divulgados pela própria seguradora.

No Brasil, a incorporação dependerá da análise das autoridades competentes, incluindo as exigências aplicáveis à transferência do controle de seguradoras.

Até a conclusão dessas etapas, as empresas permanecem juridicamente distintas.

O Brasilianista procurou a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) para comentar a aquisição e seus possíveis efeitos sobre a concorrência, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

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