Os candidatos à Vice-Presidência assumem papel de destaque na disputa eleitoral com agendas próprias, atuando para expandir o alcance das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Ao longo do período eleitoral, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB-SP) percorreram diversos estados com o objetivo de diminuir resistências em segmentos específicos do eleitorado.
Alckmin tem sido mobilizado para reduzir rejeições entre eleitores moderados e no interior do Estado de São Paulo.
Já Alfredo Gaspar concentrou esforços no Nordeste para tentar conter a vantagem da candidatura petista na região. Paralelamente, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) utiliza sua presença nas redes sociais para veicular vídeos curtos que apontam falhas na gestão do PT e escândalos de corrupção, além de cumprir agendas presenciais em palanques nordestinos.
Em ato político em Aracaju (SE), Nikolas declarou que "ninguém vai calar o Nordeste, nem artista, nem petista, nem ninguém, porque o Nordeste acordou".
Atuação de Alfredo Gaspar
Na reta final do prazo estabelecido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para a definição da chapa de Flávio Bolsonaro, que inicialmente sondou sem sucesso a inclusão de uma figura feminina para mitigar a rejeição entre eleitoras, como a senadora Tereza Cristina (PP-MS), o partido optou por Alfredo Gaspar. A indicação trouxe apelo regional e destacou sua atuação em 2026 como relator da CPMI do INSS.
No colegiado, Gaspar liderou a ofensiva contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e chegou a solicitar seu indiciamento no relatório final, que acabou não sendo aprovado pela comissão.
Gaspar requereu também a quebra dos sigilos bancário e fiscal por indícios de tráfico de influência no setor de extração de substâncias da Cannabis para fins medicinais. Na ocasião, o parlamentar afirmou que o governo Lula atuou para blindar o filho do presidente e impedir o avanço das apurações na comissão.
Em campanha, Gaspar percorreu estados do Nordeste cumprindo agendas focadas em carreatas, motociatas e reuniões com empresários locais para debater propostas ao setor produtivo, além de acenar para o eleitorado evangélico e a população nas ruas.
Alckmin
Geraldo Alckmin foi composto na chapa de Lula desde o início da atual gestão para atuar na atenuação de resistências, especialmente junto ao mercado financeiro e a setores conservadores.
Nesta reta final, Alckmin mantém a estratégia de acenar para o eleitorado de centro, para o empresariado e para o eleitorado do interior de São Paulo.
O objetivo é ampliar palanques regionais por meio de articulações com lideranças políticas em municípios como Hortolândia, Campinas, Mauá e Taboão da Serra.
O vice-presidente reuniu-se com lideranças locais, como Wandão, vice-prefeito de Campinas, visando alavancar a vantagem da campanha. A movimentação busca suprir a falta de um palanque estadual governamental em São Paulo, diante da não eleição de Fernando Haddad (PT) ao Governo do Estado.
Além das estratégias regionais, a abstenção permanece como preocupação central para ambas as campanhas. No primeiro turno, mais de 33 milhões de eleitores deixaram de comparecer às urnas, o que representa um índice de abstenção de 21,08%.
O papel do vice-presidente
O Brasilianista entrevistou o cientista político, analista e diretor-executivo do Livres, Magno Karl, para compreender em que medida a figura do vice-presidente e as coalizões partidárias articuladas influenciam o processo eleitoral, além de analisar como as estratégias regionais, direcionadas ao interior de estados estratégicos ou a capitais nordestinas, tornam-se decisivas para a ampliação de votos na reta final do pleito.
Na reta final de uma campanha presidencial, qual costuma ser o papel estratégico do candidato a vice e até que ponto ele pode influenciar o resultado da eleição?
O papel do vice no Brasil é bastante subestimado, considerando que o país viu, nos últimos 40 anos, diversos vices ascenderem ao cargo de presidente da República. Dedica-se pouca atenção à disputa das chapas no que tange aos vices, embora o histórico nacional demonstre essa relevância com Itamar Franco, Michel Temer e José Alencar, este último tendo exercido a Presidência interinamente por períodos significativos nos dois primeiros mandatos de Lula, sem esquecer a própria transição com José Sarney e Tancredo Neves.
Existem inúmeros precedentes de vice-presidentes que, por razões variadas, assumiram a chefia do Poder Executivo. Por essa razão, a análise do eleitorado sobre a composição da chapa e o perfil desses nomes deveria ser mais aprofundada.
No cotidiano das campanhas, contudo, a função primordial do candidato a vice é emitir sinalizações ao eleitorado. Tradicionalmente, desde a redemocratização, a escolha do vice é empregada como vetor de sinalização política. A chapa Tancredo e Sarney indicava a convergência entre correntes distintas, uma vez que Sarney presidia o PDS. Posteriormente, a aliança entre Fernando Henrique Cardoso e Marco Maciel representou a coalizão entre o PSDB e o PFL, enquanto a composição de Lula com José Alencar simbolizou a aproximação do setor trabalhista com o segmento industrial. Prevalece, portanto, a dimensão simbólica das sinalizações, em detrimento do debate sobre o pensamento programático dos candidatos ao cargo.
No caso de Geraldo Alckmin, a aposta em sua atuação junto a eleitores moderados, empresários e no interior de São Paulo tem potencial para reduzir resistências a Lula? Por quê?
A presença de Alckmin representa a principal via de diálogo do ex-presidente Lula com setores do centro político, em especial nas regiões Sul e Sudeste, onde a rejeição ao PT permanece historicamente acentuada. Embora a atuação de Simone Tebet também abra interlocuções, Alckmin consolida-se como o ativo mais viável para diminuir resistências, diante da escassez de alternativas diretas do partido nesses segmentos.
O PT empenhou-se na construção de pontes com o empresariado e setores conservadores entre os pleitos de 2002 e 2006. Nos últimos anos, contudo, houve um arrefecimento nesse diálogo, em parte pelo reposicionamento do próprio partido e em parte pelo desinteresse desses grupos na manutenção da interlocução histórica. Nesse contexto, ter Alckmin, uma figura com trajetória consolidada junto a esses eleitores, agrega valor à campanha, ainda que isso não garanta uma virada decisiva.
Em diversos aspectos desta disputa, a atuação dos candidatos volta-se à contenção de perdas. Observa-se Flávio Bolsonaro investindo tempo no Nordeste com a finalidade de reduzir a margem desfavorável na região, assim como Lula busca votos no Sudeste para mitigar a diferença do adversário. A circulação de Alckmin pelo interior paulista cumpre esse papel estratégico: ainda que não assegure a vitória na região, atrai eleitores mais sensíveis ao diálogo e reduz a desvantagem total.
Alfredo Gaspar tem intensificado agendas no Nordeste, região em que Lula tradicionalmente apresenta vantagem. Esse tipo de movimentação consegue alterar tendências consolidadas ou tem efeito mais limitado?
No segundo turno, as movimentações eleitorais produzem efeitos predominantemente nas margens. Contudo, em cenários de forte polarização, essas variações marginais tornam-se determinantes. Diante de indicativos de empate técnico, a margem de vitória entre os dois postulantes pode ser definida por volumes reduzidos de votos.
Atuações focadas no interior de estados populosos, como São Paulo, ou em capitais do Nordeste visam justamente capturar esses contingentes decisivos. Diante da incerteza sobre o patamar real da diferença e da quantidade exata de sufrágios que garantirá a eleição, a presença física dos integrantes da chapa nesses locais justifica o investimento.
Por outro lado, existe o debate analítico sobre a alocação eficiente do tempo das lideranças. É razoável questionar se não seria mais produtivo para a candidatura de oposição focar a ampliação de vantagem no Sudeste, onde o colégio eleitoral é numericamente superior, em vez de despender esforços em colégios menores do Nordeste para atender demandas pontuais de aliados regionais. Trata-se de um dilema de distribuição de recursos e agenda na reta final, na qual ambas as campanhas buscam os votos limítrofes diante da projeção de um resultado apurado com margem estreita.
Quando um vice ganha mais protagonismo na campanha, isso costuma sinalizar uma estratégia de ampliação de base eleitoral, redução de rejeição ou correção de fragilidades regionais? Como interpretar esse movimento neste momento?
O ganho de protagonismo do vice sinaliza uma tentativa de ampliação da base eleitoral no sentido popular e demográfico, e não estritamente na composição de alianças partidárias. A estratégia visa alcançar segmentos do eleitorado com os quais o candidato titular enfrenta limitações.
Durante o processo de escolha do vice de Flávio Bolsonaro, debateu-se abertamente a busca por um perfil feminino com a finalidade específica de mitigar a rejeição no eleitorado das mulheres. Esse movimento difere do padrão observado nas eleições de 1998, quando a composição de chapas como Fernando Henrique e Marco Maciel, ou Lula e Leonel Brizola, servia para formalizar acórdãos entre partidos e garantir governabilidade no Congresso Nacional.
Atualmente, o alinhamento ideológico e a polarização sobrepõem-se à mera barganha partidária na formação das chapas. O PL apresenta uma chapa focada na consolidação de seu campo político, enquanto o apoio do PSB ao PT não dependeu exclusivamente da indicação de Alckmin. O cálculo contemporâneo para a escolha do vice prioriza a sinalização direta ao eleitorado, a redução de rejeições pontuais e o alinhamento de perfis no cenário da disputa.
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