Publicidade
Justiça

Da conta aos jatinhos: o que se sabe da relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz?

Amizade reconhecida pelos dois já aparece em voos internacionais, imóveis usados pelo candidato e documentos bancários apreendidos pela PF

Flávio Bolsonaro x Willer Tomaz
Flávio e o advogado negam sociedade ou qualquer relação financeira (Foto: reprodução)

A relação entre Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz ganhou um novo capítulo com documentos encontrados pela Polícia Federal.

Registros obtidos no computador de Tomaz mostram que a Cathedral Holdings, empresa portuguesa ligada ao advogado e ao setor de apostas, contratou ao menos três trechos de jato executivo utilizados por Flávio, Willer e familiares em viagens pela Europa em 2025.

Publicidade

Os dois não negam a proximidade pessoal. Flávio define Willer como amigo, enquanto o advogado afirma que as viagens foram passeios particulares entre as famílias e não envolveram qualquer contrapartida.

A defesa de Tomaz sustenta ainda que foi ele quem arcou com os deslocamentos, embora os documentos citados pela PF registrem a Cathedral como compradora das passagens.

A nova revelação se soma a uma sequência de episódios que colocou o advogado cada vez mais próximo da vida política, patrimonial e privada do candidato do PL.

Nos últimos meses, o nome de Willer apareceu em uma conta bancária investigada pela PF, no jatinho utilizado por Flávio, em imóveis frequentados pelo senador e em uma empresa que entrou no mercado brasileiro de apostas.

Amizade antiga

A proximidade é anterior à atual campanha presidencial. Em 2021, Willer tornou pública a amizade ao publicar uma fotografia ao lado do então senador e escrever que “amizade não tem partido”. Flávio frequentava a residência do advogado.

Durante o governo Jair Bolsonaro, Flávio, Willer e Frederick Wassef circulavam juntos em Brasília e chegaram a ser chamados de “WWF”, pelas iniciais dos nomes. 

O grupo acompanhava temas jurídicos e articulações relevantes no Distrito Federal, embora interlocutores do ministro Kassio Nunes Marques tenham negado participação direta dos três em sua indicação ao Supremo.

A ligação chegou também ao escritório de advocacia de Flávio. Letícia Caetano dos Reis, que administrava o escritório do senador, afirmou em entrevista à Agência Pública que havia chegado ao posto por indicação de Willer. O advogado negou ter feito a indicação.

Negócio de bets

Outro elo apareceu no setor de apostas. Willer é um dos acionistas brasileiros da Cathedral Holdings, registrada na Ilha da Madeira.

A empresa é a única acionista da Rede Loto, que recebeu da Loterj autorização para operar apostas sob a marca BestBet em maio de 2023.

A Rede Loto foi a primeira empresa autorizada pela autarquia fluminense naquele modelo.

A documentação foi entregue em 27 de abril de 2023 e a autorização saiu menos de um mês depois.

Pessoas familiarizadas com o processo de nomeações da Loterj afirmam que Flávio participou da indicação de Hazenclever Cançado, então presidente da autarquia e responsável pelo despacho que autorizou a operação. Cançado não comentou essa afirmação.

A Loterj afirma que a Rede Loto apresentou todos os documentos exigidos e que nenhum integrante possuía impedimento legal.

A informação sobre a suposta influência de Flávio na indicação do presidente da autarquia, portanto, não comprova interferência do senador na concessão da licença à empresa ligada ao amigo.

Jatos particulares

As viagens ajudam a dimensionar a convivência entre as famílias. Em janeiro de 2025, Flávio, a mulher e as duas filhas viajaram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília ao lado de Willer em um Legacy 650 cuja propriedade era dividida em cotas.

Uma delas estava ligada à Alcazar Holdings, empresa portuguesa de Tomaz.
Willer afirmou que utilizou horas correspondentes à própria participação na aeronave e levou a família de Flávio como convidada.

Outra cota do mesmo avião estava vinculada à Prime You, companhia que teve Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, entre seus sócios.

Flávio diz não possuir relação com Vorcaro e afirma que o convite para a viagem partiu exclusivamente de Willer.

Os novos registros ampliam essa lista. Em 11 de abril de 2025, Willer e Flávio viajaram de Lisboa a Nice em aeronave contratada junto à NetJets.

Em 23 de maio, os dois voltaram à cidade francesa partindo de Cascais acompanhados de familiares e seguiram depois para Paris.

Os comprovantes encontrados pela PF registram a Cathedral Holdings na contratação dos trechos.

Viagens conjuntas

Um mês antes do primeiro voo europeu identificado, os dois também estiveram juntos na África do Sul.

Fotografias reveladas em setembro mostram Flávio, Willer, o senador Weverton Rocha e o empresário Carlos Alberto de Sá durante um safári realizado em março de 2025.

A presença de Weverton deu nova dimensão ao registro porque tanto ele quanto Willer aparecem na investigação da Operação Sem Desconto.

A fotografia demonstra a convivência entre os participantes da viagem, mas não comprova que Flávio tenha participado dos fatos criminosos investigados no caso do INSS.

Willer foi alvo de busca e apreensão em agosto. A PF passou a investigar sua atuação financeira no contexto da operação que apura lavagem de recursos ligados a descontos indevidos de aposentados.

O advogado nega participação em irregularidades e contestou a forma como as diligências foram realizadas.

Imóveis usados

A proximidade ultrapassou aeronaves. Em fevereiro de 2026, Flávio comemorou o aniversário da filha em uma residência compartilhada em Angra dos Reis na qual Willer possuía uma cota. O advogado declarou na época que havia cedido o imóvel ao amigo.

Meses depois, já durante a campanha presidencial, Flávio utilizou por alguns dias um apartamento na Vila Nova Conceição, em São Paulo, pertencente à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa de Tomaz.

Moradores relataram movimentação de policiais legislativos no prédio enquanto o candidato cumpria agendas e se reunia com sua equipe.

O apartamento havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. Zettel pagou R$ 5,5 milhões pelo imóvel em abril de 2025 e o vendeu à empresa de Willer por R$ 3,5 milhões em fevereiro deste ano.

Tomaz afirma que não conhece Zettel nem Vorcaro e nega ter mantido qualquer relação comercial com eles.

Conta bancária

E-mails trocados com o Santander indicam que Flávio estava registrado como “usuário master” no ambiente bancário relacionado à Alcazar Holdings, empresa de Willer sediada na Ilha da Madeira.

Em relatório citado nas apurações, a PF afirma que essa categoria de cadastro poderia conferir “nível elevado de acesso e gerenciamento” e considera o registro um elemento para investigar eventual participação econômica ou societária de fato. 

Um e-mail de maio de 2025 solicitava ao banco a retirada dos vínculos associados a Flávio e Willer.

As defesas afirmam que houve um erro cadastral do Santander, que o senador jamais acessou ou movimentou dinheiro da Alcazar e que os dois nunca compartilharam conta bancária.

Acompanhe O Brasilianista no Instagram