O escritório de Michel Temer negociou receber até R$ 30 milhões do Banco Master para atuar justamente quando Daniel Vorcaro tentava salvar a venda da instituição ao BRB.
O contrato acrescenta o ex-presidente a uma rede que já incluía Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma, e Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro.
Temer aparecia por meio de seu escritório de advocacia, Mantega foi contratado como consultor e Faria surge nas mensagens da Polícia Federal como intermediário de contatos.
Em comum, os três colocavam à disposição de Vorcaro algo difícil de comprar apenas com contratos financeiros, acesso a pessoas capazes de influenciar decisões relevantes para o banco.
Temer no Master
O contrato do escritório de Temer foi assinado em 3 de setembro de 2025, período em que o Master tentava obter autorização do Banco Central para concluir a operação com o Banco de Brasília.
O acordo previa R$ 10 milhões em honorários iniciais. Metade deveria ser paga na assinatura e outros R$ 5 milhões trinta dias depois.
Outros R$ 20 milhões seriam pagos como honorários de êxito caso o Banco Central aprovasse a negociação.
A atuação prevista não se limitava à produção de pareceres. O escritório deveria acompanhar uma ação judicial relacionada ao Banco Central, uma representação no Tribunal de Contas da União e buscar mediação junto aos órgãos envolvidos na operação.
O documento previa ainda medidas contra eventual decisão do Banco Central que tivesse participação do diretor Renato Lemos. O Master considerava a atuação dele prejudicial ao negócio com o BRB.
A operação acabou rejeitada pela autoridade monetária. Por isso, a condição que liberaria os R$ 20 milhões adicionais não chegou a ocorrer.
Cobranças milionárias
O contrato foi encaminhado a Vorcaro pelo publicitário Elsinho Mouco, interlocutor antigo de Temer. As mensagens mostram que ele também passou a cobrar os pagamentos previstos no acordo.
Em outubro e novembro de 2025, Elsinho enviou sucessivos pedidos para que Vorcaro priorizasse os pagamentos ao escritório.
Em uma das mensagens, relatou que compromissos haviam deixado de ser cumpridos por causa do atraso.
Em 11 de novembro, informou ao banqueiro que “entrou a metade”. O diálogo não esclarece a qual parcela o publicitário se referia nem permite estabelecer quanto havia sido efetivamente recebido naquele momento.
Documentos enviados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado já haviam mostrado que o Banco Master declarou pagamentos de R$ 10 milhões ao escritório ligado a Temer em 2025.
As mensagens também registram contatos diretos entre o ex-presidente e Vorcaro.
Dois dias depois do envio do contrato, Temer procurou o banqueiro e os dois falaram por telefone durante pouco mais de dois minutos. Novas ligações aparecem nos registros nos dias seguintes.
Dubai na agenda
A relação continuou mesmo depois de a negociação com o BRB encontrar obstáculos.
Em outubro de 2025, Temer informou a Vorcaro que preparava uma agenda em Dubai para o início de novembro.
As conversas posteriores tratam de horários e da possibilidade de aproximar o banqueiro de interlocutores nos Emirados Árabes Unidos e no Iraque.
A movimentação ocorreu poucas semanas antes da prisão de Vorcaro. O banqueiro foi detido pela Polícia Federal em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando tentava embarcar justamente para Dubai.
Temer e Vorcaro já mantinham contato antes do contrato relacionado ao BRB. Mensagens de outubro de 2023 tratavam do documentário "963 Dias", sobre a trajetória política do ex-presidente.
Um fundo ligado à família de Vorcaro adquiriu uma cota de patrocínio de R$ 1 milhão para a produção.
Apoio a Flávio
A revelação sobre o contrato ocorre nove dias depois de Temer declarar apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial.
O ex-presidente anunciou sua posição em 5 de outubro, um dia após o primeiro turno.
No vídeo, afirmou que o resultado das urnas representava um desejo de mudança e associou essa renovação diretamente ao candidato do PL.
Temer declarou que a sociedade buscava “novas ideias, novas atitudes, novos projetos e um caminho diferente” e encerrou sua manifestação dizendo que “reconexão é Flávio”.
O apoio colocou Temer no mesmo campo presidencial de parte das lideranças que hoje exploram politicamente as relações de Vorcaro com integrantes ou ex-integrantes de governos petistas.
O contrato revelado agora mostra que o próprio ex-presidente que apoia Flávio também prestou serviços ao Master durante a tentativa de salvar uma das principais operações estratégicas do banco.
Mantega no Planalto
No outro lado do espectro político aparece Guido Mantega. A Pollaris Consultoria, empresa ligada ao ex-ministro da Fazenda, recebeu R$ 14 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025, segundo informações repassadas pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado.
A remuneração de Mantega chegava a R$ 1 milhão por mês e que uma de suas funções era ajudar o banco durante as articulações relacionadas ao BRB e ao governo federal.
Em dezembro de 2024, Mantega esteve na reunião que levou Daniel Vorcaro ao Palácio do Planalto para conversar diretamente com Lula.
A presença foi confirmada pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante depoimento ao Senado.
Além de Vorcaro e Mantega, participaram Augusto Lima, então executivo do Master, Rui Costa e Alexandre Silveira. Galípolo chegou ao encontro depois de ser chamado pelo chefe de gabinete da Presidência.
Segundo Galípolo, Vorcaro apresentou naquela reunião a versão de que o Master enfrentava dificuldades porque incomodava instituições financeiras maiores e sofria resistência do mercado.
Lula respondeu que as questões relativas ao banco deveriam ser tratadas tecnicamente pelo Banco Central. Galípolo afirmou à CPI que não recebeu orientação para favorecer a instituição.
Pressão política
Mantega também aparece nas tentativas posteriores de Vorcaro de manter acesso ao governo.
Áudios encontrados no celular do banqueiro mostram conversas em que seu então advogado Walfrido Warde insistia para que o ex-ministro voltasse a procurar Lula e apresentasse a situação do Master.
As mensagens ocorreram em 2025, quando a instituição já enfrentava questionamentos crescentes no Banco Central.
A existência dos contatos não prova que Lula tenha atendido pedidos de Vorcaro nem que decisões do Banco Central tenham sido alteradas por influência política.
Os documentos mostram, porém, que Mantega era um dos nomes acionados pelo banqueiro quando ele precisava chegar ao núcleo do governo federal.
Faria abre portas
Fábio Faria exerceu outro tipo de função. Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro mostram o ex-ministro de Bolsonaro intermediando contatos do banqueiro com autoridades e figuras políticas.
Uma das principais pontes foi com Alexandre de Moraes. Faria repassou a Vorcaro o número do ministro do Supremo e participou da organização de encontros entre os dois a partir do fim de 2023.
A PF identificou ao menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro. Em algumas das mensagens, Faria discutiu horários de almoço, jantar e outras reuniões.
O ex-ministro também aparece durante a negociação do contrato entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
Em janeiro de 2024, Faria perguntou a Vorcaro se ele havia respondido a Viviane. Quando o banqueiro perguntou sobre a duração do contrato, Faria respondeu que o acordo seria de quatro anos, mas poderia ser reduzido para três. A versão final previa 36 parcelas mensais milionárias.
Pagamento prioritário
Faria também apareceu cobrando atenção aos pagamentos relacionados ao escritório.
Em março de 2024, escreveu a Vorcaro que o pagamento do “careca” não poderia atrasar. Logo depois da mensagem, o banqueiro orientou funcionários a priorizarem a transferência destinada ao escritório.
Os registros da PF mostram uma transferência de R$ 3,4 milhões feita naquele contexto.
Faria afirma que sua participação se limitou a indicar o escritório, que não negociou valores e que desconhecia o montante financeiro do contrato.
O ex-ministro também atuou para aproximar Vorcaro de políticos de campos distintos.
Em maio de 2024, depois de o banqueiro mencionar uma conversa com ACM Neto, Faria recomendou que ele se aproximasse também do PT da Bahia.
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