O YouTube superou por uma margem estreita a televisão como fonte individual mais utilizada para notícias políticas e eleitorais nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que prepara uma expansão dos negócios entre marcas e criadores e incorpora inteligência artificial a diferentes etapas da produção e distribuição de vídeos.
Do outro lado dessa transformação, a ByteDance, controladora do TikTok, tenta levar a mesma corrida tecnológica para fora das redes sociais, o CEO da plataforma, Shou Zi Chew, afirma que a IA pode provocar avanços relevantes em áreas científicas nos próximos dois ou três anos.
Os movimentos não fazem parte de uma estratégia conjunta entre as empresas, mas apontam para uma mudança semelhante.
Plataformas construídas em torno da distribuição de conteúdo agora disputam três mercados ao mesmo tempo, a atenção antes concentrada em veículos tradicionais, a receita gerada pela relação entre audiência, criadores e marcas e o desenvolvimento de ferramentas de IA capazes de interferir desde a descoberta de um vídeo até pesquisas biomoleculares.
A consequência é uma fronteira cada vez menos definida entre empresa de mídia, plataforma comercial e companhia de tecnologia.
TV perdeu a primeira posição
O dado mais imediato dessa mudança aparece em um levantamento do Center for the Creator Economy, da Universidade Syracuse.
A pesquisa ouviu 1.001 adultos nos Estados Unidos por meio da plataforma Prolific e mostrou que 16,5% apontaram o YouTube como a fonte individual que mais utilizam para notícias políticas e eleitorais.
Telejornais de emissoras abertas e canais de TV a cabo aparecem praticamente empatados, com 16,1%, enquanto sites de jornais, revistas e outros veículos online somam 15,7%.
A diferença de quatro décimos entre YouTube e televisão é pequena, mas a comparação muda quando as redes sociais são agrupadas.
Plataformas sociais representam 60% das respostas, contra 32% das fontes tradicionais.
O próprio levantamento traz uma ressalva importante, se televisão e sites jornalísticos forem combinados, eles ainda superam isoladamente o YouTube.
A alteração ocorre também na percepção sobre quem pode produzir informação confiável.
Entre os entrevistados, 61% disseram confiar em um criador independente conhecido tanto quanto em um jornalista profissional conhecido ou em uma grande organização jornalística quando o assunto é política.
Outros 67% consideraram a capacidade de efetivamente fazer a apuração mais importante do que possuir credenciais formais de jornalismo.
Isso não significa, porém, que o público tenha deixado de perceber diferenças entre as duas atividades.
O mesmo estudo mostrou que 79% ainda identificam uma distinção significativa entre um criador independente de notícias e um jornalista.
A correção pública de erros apareceu como um dos principais fatores de confiança, 86% afirmaram confiar mais no criador quando ele reconhece e corrige publicamente informações equivocadas.
YouTube quer transformar essa atenção
Enquanto cresce como porta de entrada para informação, o YouTube tenta ampliar a quantidade de negócios que podem ocorrer dentro da própria plataforma.
Neal Mohan, CEO da companhia, colocou a aproximação entre marcas e criadores e o desenvolvimento de ferramentas baseadas em inteligência artificial entre suas principais apostas para os próximos anos.
A estratégia aparece nas mudanças apresentadas pela empresa no evento Made on YouTube, realizado em setembro.
Uma das metas é levar o programa de afiliados do YouTube Shopping a 35 países até o fim de 2026.
O modelo permite que criadores identifiquem produtos diretamente em vídeos, Shorts e transmissões ao vivo e recebam comissões pelas vendas.
A plataforma afirma que mais de 1,3 milhão de criadores já participam do programa e que o volume bruto de mercadorias movimentado pelo sistema cresceu 13 vezes nos últimos dois anos.
O Brasil faz parte desse movimento. O YouTube anunciou que o suporte para identificação de produtos vendidos pela Amazon, inicialmente disponibilizado nos Estados Unidos, será ampliado para Índia e Brasil.
A ideia é permitir que um mesmo conteúdo deixe de funcionar apenas como espaço publicitário e passe a servir também como vitrine, indicação de produto e ponto de conversão para vendas.
A inteligência artificial ocupa a outra frente. Ferramentas do Gemini começam a aparecer no YouTube Studio, enquanto a companhia testa miniaturas dinâmicas, sugestões automatizadas e diferentes versões de vídeos.
A empresa afirma que criadores já realizaram mais de 40 milhões de testes de títulos e miniaturas desde o lançamento dessas ferramentas em 2024 e prepara um sistema capaz de testar até três cortes diferentes de um mesmo vídeo para verificar qual abertura apresenta melhor desempenho.
Marques Brownlee, o MKBHD, e outros criadores ouvidos após o Made on YouTube levantaram dúvidas sobre ferramentas como o Ask YouTube, que pode levar o espectador diretamente a uma resposta específica dentro de um vídeo.
Para produtores cujo modelo de receita depende de retenção, publicidade e patrocínio, entregar a conclusão antes que o usuário percorra o conteúdo pode mudar o valor econômico de cada visualização.
Há ainda outra questão, quanto mais a plataforma oferece testes automatizados para identificar títulos, miniaturas, formatos e trechos de melhor desempenho, maior é a possibilidade de criadores começarem a ajustar conteúdo em função dos mesmos indicadores.
A preocupação manifestada por participantes da discussão é que ferramentas concebidas para melhorar desempenho também pressionem canais a abandonar características próprias em busca das combinações que o sistema identifica como mais eficientes.
IA também atravessa a disputa por Hollywood
A aproximação entre empresas de tecnologia e o mercado tradicional de mídia ganhou outra dimensão com a conclusão da compra da Warner Bros. Discovery pela Paramount.
A operação, encerrada em 6 de outubro, avaliou a Warner em US$ 81 bilhões em valor patrimonial e aproximadamente US$ 110 bilhões considerando também as dívidas, colocando Warner Bros., HBO, CNN, CBS, Paramount e seus serviços de streaming sob a nova Skydance.
O tamanho do grupo, porém, veio acompanhado de uma estrutura financeira pesada. A companhia combinada começa com dívida líquida próxima de US$ 80 bilhões e estabeleceu como meta obter US$ 6 bilhões em cortes e sinergias nos próximos anos.
A Fitch chegou a rebaixar títulos da Skydance após a conclusão da operação, citando o aumento da alavancagem e as incertezas sobre a capacidade de alcançar as economias prometidas.
A conexão com a corrida pela inteligência artificial está na família que controla o novo conglomerado.
David Ellison comanda a Skydance, enquanto seu pai, Larry Ellison, cofundador da Oracle, foi peça importante na estrutura financeira utilizada para comprar a Warner.
Ao mesmo tempo, a Oracle executa uma expansão intensiva em capital de sua infraestrutura de nuvem e inteligência artificial, o que fez investidores começarem a observar conjuntamente os riscos financeiros ligados às duas empresas.
A Oracle já fornece serviços de nuvem e busca ganhar espaço como fornecedora de capacidade computacional para sistemas de inteligência artificial, enquanto a família Ellison passa a controlar também um dos maiores acervos de filmes, séries, canais de televisão e serviços de streaming do mundo.
Nesse cenário, investimentos necessários para sustentar a expansão da IA convivem com a necessidade de financiar e reorganizar um conglomerado de mídia que nasce altamente endividado.
TikTok olha além do feed
A ByteDance segue uma direção diferente. Em vez de limitar o investimento em inteligência artificial às ferramentas de criação e recomendação do TikTok, a empresa também direciona pesquisa para aplicações científicas.
Durante a Asia Future Forward Conference, realizada pelo DBS Bank em Singapura em 12 de outubro, Shou Zi Chew afirmou acreditar que a tecnologia poderá acelerar descobertas em campos que estão fora do negócio tradicional das redes sociais.
“Nos próximos dois ou três anos, teremos um avanço científico real em física, biotecnologia, química e ciência dos materiais por causa da IA”, declarou Chew durante o encontro.
A afirmação representa uma previsão do executivo, e não um resultado científico já demonstrado.
Ele próprio ponderou que as capacidades da tecnologia podem estar sendo superestimadas no curto prazo e subestimadas quando observadas em um horizonte maior.
A ByteDance já tenta transformar essa aposta em pesquisa aplicada. Em abril, a equipe Seed apresentou o Protenix-v2, sistema voltado à previsão de estruturas e ao desenho de biomoléculas.
O trabalho descreve avanços em tarefas envolvendo interações entre anticorpos e antígenos e aplicações relacionadas ao desenvolvimento de moléculas, e os pesquisadores apresentam o modelo como uma ferramenta capaz de acelerar etapas da descoberta de medicamentos.
Chew também colocou limites na própria projeção otimista. O executivo alertou para riscos de cibersegurança e para sistemas de IA que recebem permissão para executar tarefas sem intervenção contínua do usuário.
Um dos exemplos citados foi o de agentes autorizados a realizar compras e que poderiam tomar decisões além do esperado enquanto tentam cumprir uma determinada instrução.
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