Os Estados Unidos passaram a reconstruir uma relação que durante anos permaneceu marcada por sanções, denúncias de violações de direitos humanos e isolamento diplomático.
O governo de Donald Trump intensificou os contatos com a Eritreia, país comandado por Isaias Afwerki desde a independência, em 1993, e que nunca realizou uma eleição nacional desde que se tornou soberano.
O movimento ganhou um sinal concreto em 18 de setembro, quando o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos encerrou o programa de sanções relacionado ao conflito na Etiópia e retirou da lista de bloqueios atores eritreus atingidos pelas medidas adotadas a partir de 2021.
Entre os sancionados naquele período estavam as Forças de Defesa da Eritreia e a Frente Popular pela Democracia e Justiça, partido que governa o país.
Dois meses antes, o ministro das Relações Exteriores da Eritreia, Osman Saleh, havia se reunido no Cairo com Massad Boulos, assessor de Donald Trump para assuntos árabes e africanos.
Segundo comunicado oficial eritreu, os dois discutiram o aprofundamento das relações bilaterais e temas regionais.
Washington também negou posteriormente que estivesse negociando um acordo secreto contra a Etiópia, mas manteve aberta a política de engajamento com Asmara.
A mudança acontece sem transformação equivalente no regime político eritreu. Em 2026, o país aparece em 180º lugar entre 180 países no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa da Repórteres Sem Fronteiras.
Não existem veículos independentes autorizados a funcionar e jornalistas permanecem presos sem julgamento há décadas.
“A Eritreia é um país relativamente novo, com pouquíssima liberdade de imprensa, senão o país com maior restrição à liberdade de imprensa do mundo. Então, efetivamente, é muito difícil saber o que se passa por lá”, descreve Cássio Eduardo Zen, doutor em Direito Internacional e docente de Direito Internacional Público e Privado no Centro Universitário de Pinhais (Fapi).
O país isolado
A localização ajuda a explicar por que o cálculo americano mudou. A Eritreia possui uma longa costa no Mar Vermelho, diante do Iêmen e próxima ao estreito de Bab el-Mandeb, passagem que conecta o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e, posteriormente, ao Canal de Suez. O corredor liga mercados asiáticos ao Mediterrâneo e à Europa.
A importância dessa posição aumentou à medida que conflitos no Oriente Médio passaram a ameaçar simultaneamente diferentes rotas energéticas e comerciais.
Os ataques houthis contra embarcações no Mar Vermelho e as turbulências envolvendo o Estreito de Hormuz aumentaram o valor de territórios capazes de oferecer acesso e vigilância sobre essas passagens.
“O primeiro grande recurso para a gente pensar na região e o que justificaria uma aproximação dos Estados Unidos com a Eritreia é a posição geográfica”, aponta Zen.
O valor não está no petróleo produzido pela Eritreia. Está, sobretudo, no petróleo e nas mercadorias que circulam diante de sua costa.
O país ainda possui dois portos especialmente relevantes, Massawa e Assab. Este último se tornou também uma peça da deterioração das relações com a Etiópia, que perdeu sua saída para o mar após a independência eritreia e voltou a tratar o acesso ao Mar Vermelho como questão estratégica.
Em 1º de outubro, Eritreia e Etiópia romperam novamente relações diplomáticas em meio ao agravamento do conflito no norte etíope. Addis Ababa acusa Asmara de apoiar forças adversárias, acusação negada pelo governo eritreu.
Ao mesmo tempo, a reivindicação etíope por acesso marítimo aumentou a tensão em torno de Assab.
Washington olha para um território
Poucos quilômetros ao sul está Djibuti, que demonstra o valor militar dessa faixa do continente.
Estados Unidos, França, China, Japão e Itália mantêm presença militar no país. Pequim utiliza Djibuti para sua única base militar oficialmente reconhecida fora da China e realizou recentemente novas ampliações na instalação, aumentando sua capacidade de comunicações, vigilância e acompanhamento de atividades no Mar Vermelho e no Golfo de Áden.
Essa concentração de potências transforma o Chifre da África em uma área onde território significa capacidade de acompanhar algumas das rotas marítimas mais importantes do planeta.
“Da Europa, dos Estados Unidos, do próprio Japão, que é um país pacifista, tem bases militares no Djibuti”, recorda o professor.
A Eritreia oferece uma alternativa geográfica dentro do mesmo tabuleiro, mas com uma característica diferente, ao contrário de Djibuti, Asmara permaneceu durante anos muito menos integrada às estruturas ocidentais de segurança.
A possibilidade de mudar essa condição interessa a Washington justamente quando a competição militar e econômica na costa africana do Mar Vermelho aumenta.
China já ocupa espaço que os EUA tentam recuperar
O movimento americano também encontra uma presença chinesa construída durante o período de isolamento ocidental.
A Eritreia aderiu à Iniciativa Cinturão e Rota, principal projeto internacional de infraestrutura de Pequim, e mantém uma parceria estratégica com a China.
O governo chinês cita mineração, infraestrutura, agricultura e energia entre as áreas prioritárias da relação bilateral.
Essa presença não é apenas diplomática. A chinesa Zijin Mining controla 55% da mina de Bisha, maior operação produtora de zinco da Eritreia.
Os 45% restantes pertencem à estatal Eritrean National Mining Corporation. A mina também produz cobre e prata.
O próprio governo eritreu tenta atrair novos investimentos para ouro, cobre e potássio enquanto procura reduzir o isolamento econômico.
“Isso é muito importante, é uma peça-chave no jogo entre Estados Unidos de um lado e China do outro lado”, interpreta Zen.
Para Washington, uma aproximação com Asmara pode servir simultaneamente a dois objetivos, abrir espaço americano em um país onde Pequim construiu relações econômicas durante décadas e ampliar opções estratégicas em uma região onde a própria China já dispõe de presença militar permanente.
“A Eritreia é peça-chave, é mais ou menos como se fosse um ponto de entrada na África por esse mega projeto chinês de infraestrutura global”, classifica o internacionalista.
Rússia também observa
Moscou completa a disputa. A Rússia busca ampliar sua capacidade naval no Mar Vermelho há anos.
Negociações com o Sudão para uma instalação naval enfrentaram sucessivos obstáculos políticos e militares, aumentando o interesse russo por alternativas regionais.
Massawa já recebeu embarcações militares russas, e autoridades de Moscou manifestaram interesse no potencial logístico do porto.
Estudos sobre a presença russa no Mar Vermelho também apontam Assab como uma opção estratégica devido à infraestrutura existente.
“A Rússia, por outro lado, tem um interesse muito sério em ter boas bases na região”, acrescenta Cássio Zen.
O reposicionamento ganhou importância após a perda de influência russa na Síria e as mudanças no acesso de Moscou às instalações militares que utilizava no Mediterrâneo.
Uma presença no Mar Vermelho daria à Rússia outro ponto de apoio próximo à rota que segue para Suez, enquanto também colocaria Moscou perto de instalações utilizadas por Estados Unidos e aliados.
“Isso tem uma importância estratégica muito relevante para o transporte marítimo no mundo”, salienta o docente.
Trump antes dos valores
A aproximação cria uma contradição para Washington. Durante anos, a política americana em relação à Eritreia esteve associada a direitos humanos, liberdades civis e responsabilização pela atuação das forças eritreias durante a guerra de Tigré.
Em 2021, o Tesouro americano acusou forças e autoridades eritreias de contribuírem para a crise humanitária e militar na Etiópia.
As medidas atingiram as Forças de Defesa, dirigentes e entidades ligadas ao governo.
Cinco anos depois, parte dessas restrições desapareceu enquanto o sistema político que motivou décadas de críticas ocidentais permanece praticamente intacto.
Não houve eleições nacionais. O jornalismo independente continua proibido. O serviço nacional pode durar por período indefinido e centenas de milhares de eritreus vivem fora do país como refugiados ou solicitantes de asilo.
Para Zen, essa mudança combina com a maneira como Trump conduz parte da política externa americana.
“O Trump busca uma abordagem negocial nas relações internacionais. Ele descarta muitas vezes essa noção axiológica de quais valores nós defendemos. O negócio dele é muito mais: com o que eu saio ganhando fazendo um acordo com esse país e o que os Estados Unidos podem ganhar fazendo um acordo com a Eritreia”, avalia o especialista.
Iêmen transforma a costa eritreia em ativo militar
Do outro lado do Mar Vermelho está o Iêmen, onde os houthis transformaram ataques contra embarcações comerciais e militares em uma ameaça permanente à navegação regional.
Essa proximidade torna a Eritreia atraente não apenas para monitorar navios.
Instalações no litoral eritreu poderiam, em um cenário de cooperação militar mais profunda, ampliar as opções logísticas americanas para operações ligadas ao Mar Vermelho e ao Golfo de Áden. Até agora, porém, não há anúncio público de uma nova base militar americana na Eritreia.
Zen trata esse potencial como parte do valor estratégico oferecido por uma relação mais próxima.
“Em primeiro lugar, uma base de acesso fácil que inclua, por exemplo, possibilidade de atuação ali no Iêmen e controle do tráfego naquele estreito, caminho para o Canal de Suez”, projeta o professor.
Washington já dispõe da base de Camp Lemonnier, em Djibuti, principal instalação militar permanente dos Estados Unidos na África.
A guerra na Etiópia
A reaproximação ocorre justamente quando o Chifre da África volta a entrar em uma fase de instabilidade.
O conflito em Tigré se intensificou novamente, e as relações entre Eritreia e Etiópia deterioraram-se rapidamente.
Addis Ababa acusa Eritreia, Egito e Sudão de apoiar seus adversários, enquanto os países negam participação.
A Etiópia também voltou a defender com maior intensidade seu direito a uma saída para o Mar Vermelho.
Para Asmara, qualquer movimentação em direção ao porto de Assab é vista com enorme desconfiança.
A aproximação americana, portanto, não ocorre com um parceiro neutro em uma região estável. Washington entra em contato com um governo envolvido diretamente nas disputas que cercam Etiópia, Tigré, Mar Vermelho e acesso marítimo.
“Eu não sei até que ponto a gente poderia dizer que vai acontecer um desequilíbrio, porque naquela região a gente tem, de um lado, a instabilidade da Etiópia”, pondera Zen.
Essa incerteza ajuda a dimensionar o risco diplomático. Ao aproximar-se demais de Asmara, Washington precisa evitar que sua política seja interpretada como adesão aos interesses eritreus contra Addis Ababa.
Foi justamente essa percepção que levou Massad Boulos a negar publicamente, em agosto, qualquer acordo secreto dirigido contra a Etiópia.
A ditadura deixou de ser um problema
A Eritreia não se tornou democrática, não abriu seu sistema político e não deixou de ocupar as últimas posições nos indicadores internacionais de liberdade.
O que mudou foi o ambiente ao seu redor. A guerra envolvendo o Irã elevou o valor do Mar Vermelho como alternativa ao Estreito de Hormuz.
Os houthis tornaram a segurança marítima uma prioridade. A China ampliou sua presença econômica e militar na região. A Rússia procura acesso naval. A Etiópia quer retornar ao mar.
No meio dessas disputas estão aproximadamente mil quilômetros de litoral eritreu e dois portos capazes de alterar cálculos logísticos e militares.
“Pela primeira vez se olha para a Eritreia como um bom parceiro de negócios, afastando todo o histórico deplorável de direitos humanos naquele país”, conclui Cássio Eduardo Zen.
Siga O Brasilianista!

