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Geopolítica

Brasil e EUA entram em nova guerra da cocaína

Operações na fronteira brasileira revelam laboratórios, pistas clandestinas e toneladas de cocaína na Bacia Amazônica

Cocaína
Ataques dos Estados Unidos contra embarcações no Caribe aumentam pressão sobre redes do narcotráfico Foto: Colin Davis/Unsplash

A ofensiva militar dos Estados Unidos contra embarcações acusadas de transportar drogas pelo Caribe abriu uma nova frente na guerra de Donald Trump contra o narcotráfico latino-americano.

No domingo, 4 de outubro, militares americanos atacaram mais uma embarcação e mataram quatro pessoas.

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A campanha começou em setembro de 2025 e já soma dezenas de ataques em águas do Caribe e do Pacífico, apresentados por Washington como operações contra grupos classificados pelo governo americano como narcoterroristas.

Enquanto os Estados Unidos pressionam as rotas marítimas tradicionais, operações realizadas milhares de quilômetros ao sul mostram que a Bacia Amazônica já possui infraestrutura capaz de sustentar uma cadeia internacional da cocaína.

Em setembro, uma ação conjunta da Polícia Federal brasileira e da Polícia Nacional do Peru destruiu 15 laboratórios clandestinos, quatro pistas de pouso e quase 12 toneladas de sulfato de cocaína em estado líquido na região de Loreto, próxima à fronteira com o Brasil.

Pressão americana

Uma análise da organização internacional ACLED aponta que a intensificação das políticas militarizadas na América Latina tem levado grupos criminosos a se deslocarem para outros territórios, reduzirem a exposição de suas operações e adaptarem métodos de transporte.

O levantamento menciona relatos de crescimento do fluxo de drogas pela Bacia Amazônica, passando por Colômbia, Equador, Peru e Brasil, após o aumento da pressão sobre embarcações no Caribe.

“Até o momento, não há dados oficiais consolidados que permitam afirmar uma relação direta de causa e efeito entre as operações americanas no Caribe e um aumento do tráfico pela Amazônia”, adverte Claudia Rocha Piccin, advogada especialista em Direito Penal e Processo Penal, doutoranda em Direito e professora da Universidade Positivo.

A ausência dessa comprovação exige cautela ao analisar um mercado ilícito caracterizado justamente pela capacidade de mudar rapidamente de estrutura quando um corredor passa a oferecer riscos maiores.

“Porém, a doutrina especializada aponta que o narcotráfico costuma se adaptar à repressão: quando um ponto é pressionado, o fluxo tende a buscar alternativas”, explica Piccin.

Essa capacidade de adaptação aparece também na avaliação da ACLED. A organização considera que operações militares podem produzir ganhos táticos imediatos, mas dificilmente eliminam redes criminosas que conseguem mudar de área, diversificar fontes de renda e utilizar métodos menos visíveis para manter suas atividades.

Embarcações menores

A campanha americana alterou o nível de risco em partes do Caribe. O governo Trump passou a utilizar diretamente as Forças Armadas contra embarcações classificadas como envolvidas com organizações narcotraficantes, ampliando uma estratégia que antes dependia principalmente de interceptações policiais e cooperação com governos da região.

A reação das redes criminosas pode surgir em mudanças pequenas, mas relevantes, na logística.

“Especialistas ouvidos pela imprensa internacional relatam sinais de adaptação em razão dessas operações. Há menção, por exemplo, ao uso de embarcações menores ao longo da costa da América Central e ao aumento da movimentação na região de fronteira entre Colômbia e Venezuela”, detalha a professora.

A pergunta para o Brasil aparece justamente no destino dessas alterações. Um corredor que saia da região produtora de cocaína e evite áreas submetidas à vigilância americana pode encontrar na Amazônia uma combinação rara de proximidade com países produtores, rios navegáveis e conexões terrestres e aéreas com outras partes do território brasileiro.

“Esses indícios mostram um possível ajuste nas rotas, mas ainda não permitem dimensionar quanto desse fluxo chega, de fato, ao território brasileiro”, pondera a advogada.

A distinção é importante. A rota amazônica não surgiu com a ofensiva de Trump. O que está em discussão é se o aumento da pressão militar em outros corredores pode fortalecer uma estrutura criminosa que já existe.

Fronteiras com três grandes produtores

O Brasil divide milhares de quilômetros de fronteira amazônica com países diretamente envolvidos na produção e circulação regional de cocaína.

Colômbia, Peru e Bolívia estão entre os principais produtores da droga e possuem conexões territoriais com áreas brasileiras de difícil fiscalização.

“Do ponto de vista geográfico, o Brasil faz fronteira com Colômbia, Peru e Bolívia, produtores de cocaína, ao longo de uma faixa extensa, de floresta densa e com grande malha de rios navegáveis”, enumera Piccin.

Essa geografia permite que pequenas embarcações, aeronaves e rotas terrestres se complementem ao longo da cadeia logística.

A Operação Amazonía 2026 deu dimensão concreta a essa estrutura. Nas ações realizadas pela PF e autoridades peruanas em Loreto, foram inutilizados laboratórios, acampamentos, pistas clandestinas e embarcações.

As equipes encontraram ainda milhares de quilos de insumos químicos utilizados na produção da droga, armas, equipamentos de comunicação e dispositivos de internet por satélite.

Poucos dias antes, outra etapa da operação havia destruído 6,2 toneladas de sulfato de cocaína, cinco pistas clandestinas e quatro laboratórios na mesma região amazônica do Peru.

Cerca de 84 hectares de plantações de coca também foram localizados pelas autoridades. A saída da droga da floresta não precisa terminar no próprio mercado brasileiro.

“Do ponto de vista logístico, a região tem conexão com portos de saída para o Atlântico, com acesso à Europa”, destaca a criminalista.

Isso transforma o território brasileiro em potencial corredor entre zonas produtoras dos países andinos e mercados consumidores do outro lado do Atlântico.

Cocaína divide espaço com ouro ilegal

As rotas amazônicas também funcionam dentro de uma economia ilegal que não depende exclusivamente das drogas.

Garimpo clandestino, comércio ilegal de madeira, lavagem de dinheiro, tráfico de armas e domínio de áreas por organizações criminosas podem compartilhar pessoas, transporte, sistemas financeiros e estruturas logísticas.

“Estudos recentes registram a presença de organizações criminosas em diversos municípios amazônicos, que podem estar relacionadas a outras práticas ilícitas, como lavagem de dinheiro, garimpo ilegal e crimes ambientais”, assinala Claudia Piccin.

Essa diversificação dificulta operações destinadas a atingir apenas uma fonte de renda.

A própria análise da ACLED alerta que o ouro ilegal já se tornou uma fonte relevante de financiamento para grupos criminosos sul-americanos, permitindo que essas estruturas sobrevivam mesmo quando determinada rota de tráfico sofre maior repressão.

O Ministério da Justiça também passou a tratar a vulnerabilidade socioeconômica da Amazônia e da faixa de fronteira como parte do enfrentamento ao crime organizado.

Em 2026, a pasta abriu iniciativas destinadas a fortalecer atividades econômicas legais em áreas expostas às dinâmicas do tráfico e de outras economias ilícitas.

PF encontrou pistas

A movimentação das forças brasileiras em 2026 mostra que a região já exige uma resposta permanente.

Em julho, a Polícia Federal coordenou uma operação no Vale do Juruá, no Acre, envolvendo PRF, Força Nacional, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Funai e ICMBio.

Foram realizadas 445 abordagens terrestres e fluviais, 241 fiscalizações e seis patrulhamentos aéreos na faixa de fronteira com o Peru.

Em agosto, outra ação reuniu forças brasileiras e peruanas na região entre Tabatinga, no Amazonas, e Islândia, no Peru. O patrulhamento ocorreu por terra, rios e ar em uma área superior a 250 quilômetros.

Já em setembro, a PF participou da destruição de um laboratório clandestino em Ucayali, também no Peru. Dois brasileiros investigados por integrar uma organização criminosa transnacional foram presos.

No local, autoridades encontraram folhas de coca, insumos químicos, armas, munições e equipamentos de comunicação.

Brasil endureceu legislação

Em março, foi sancionada a Lei 15.358/2026, o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, conhecido durante sua tramitação como Lei Antifacção e posteriormente denominado Lei Raul Jungmann.

A legislação criou crimes relacionados ao domínio social estruturado e ampliou instrumentos de investigação e desarticulação patrimonial de organizações criminosas.

“O Brasil dispõe de diversos instrumentos para enfrentamento do tráfico transnacional. A própria Lei de Drogas prevê causa de aumento de pena quando se fala em tráfico internacional”, esclarece Piccin.

A legislação brasileira ainda permite alcançar estruturas financeiras utilizadas para movimentar recursos obtidos com o comércio de entorpecentes.

“Há ainda a Lei de Lavagem de Dinheiro e a Lei de Organizações Criminosas e, mais recentemente, foi sancionada a Lei Antifacção, que, além de aumentar as penas, também ampliou o mecanismo de confisco e bloqueio de bens”, complementa a especialista.

O novo marco prevê medidas patrimoniais destinadas a desarticular financeiramente organizações classificadas pela legislação, incluindo bloqueio, perda de bens e confisco ampliado em determinadas circunstâncias.

A fronteira amazônica, contudo, apresenta dificuldades que não podem ser resolvidas apenas pela criação de novos tipos penais.

“Quando se fala em efetividade da resposta estatal, ela envolve assuntos que vão além da própria existência da legislação”, ressalva a doutoranda.

Resposta brasileira

A extensão territorial é um dos maiores obstáculos. Fiscalizar simultaneamente rios, pistas clandestinas, estradas, comunidades remotas e áreas de floresta exige integração de inteligência, recursos tecnológicos e permanência das instituições públicas em localidades onde deslocamentos podem levar horas ou dias.

“É necessária uma maior presença do Estado naquela região, uma maior integração entre os órgãos de fiscalização e, principalmente, a necessidade de cooperação dos países vizinhos”, defende Piccin.

As operações realizadas com o Peru em 2026 mostram como essa cooperação funciona na prática.

Policiais brasileiros participaram de ações em território peruano, autoridades compartilharam inteligência e amostras de folhas de coca, e operações utilizaram simultaneamente meios aéreos e fluviais para atingir laboratórios e pistas instalados antes que a droga cruzasse a fronteira.

O avanço da repressão, entretanto, também cria um desafio jurídico. A tentativa de reagir rapidamente às organizações transnacionais não elimina as regras que determinam como investigações e operações policiais devem ser conduzidas.

“Para que nós possamos ter a validade de uma prova dentro de um processo penal, é necessário que a atuação do Estado observe as garantias fundamentais”, conclui Claudia Rocha Piccin.

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